Carlos Lima
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Cinema
Carlos Lima | Publicado em 03/12/2019 às 10:46:34

Diretor de ‘Star Wars’ cria história digna dos melhores livros de Agatha Christie.

Diretor de ‘Star Wars’ cria história digna dos melhores livros de Agatha Christie. Christopher Plummer e Ana de Armas numa cena de "Entre Facas e Segredos" — Foto: Divulgação

Entre os lançamentos de 2019 no cinema, “Entre Facas e Segredos”, que estreia no Brasil no dia 12 de dezembro, é um dos mais inusitados (e melhores) deste ano.

Principalmente, por três motivos:

  • Porque trata de uma trama de mistério à moda antiga (no estilo “Quem matou?”), mas paradoxalmente ligada a várias questões polêmicas atuais, como fake news e xenofobia;
  • Porque tem à sua frente um diretor que não tem medo de mexer nos clichês de um estilo consagrado e subvertê-los para deixa tudo com ar de novidade, como fez em “Star Wars: Os Últimos Jedi”;
  • Porque é uma delícia de assistir. Com humor e ironia, diverte de uma maneira incomum, graças às situações inusitadas que vão surgindo.

A vantagem é que, desta vez, é possível que o diretor e roteirista Rian Johnson consiga agradar até mesmo o mais ferrenho admirador de histórias de suspense. Suas reviravoltas são bem aplicadas e jamais subestimam a inteligência do espectador. Isso sem falar em personagens ambíguos e bem defendidos por um elenco impecável, formado por um time dos sonhos.

A trama começa como uma típica história contada por Agatha Christie, com a morte do escritor de livros de mistério Harlan Thrombey (Christopher Plummer), encontrado em seu quarto com o pescoço cortado um dia depois de completar 85 anos com sua família.

Os policiais encarregados do caso, o tenente Elliott (LaKeith Stanfield, de “Corra!”) e seu assistente Wagner (Noah Segan) chamam todos os parentes da vítima, além dos funcionários da casa.

Entre eles está Marta Cabrera (Ana de Armas, de “Blade Runner 2049”), a enfermeira particular de Harlan. A ideia é interrogá-los e saber o que aconteceu na noite anterior ao crime.

Junto dos oficiais, está o famoso detetive particular Benoit Blanc (Daniel Craig, o 007), que usa os seus métodos nada convencionais para extrair a verdade de todos.

Pouco a pouco, o investigador começa a perceber que nada nem ninguém é o que parece e todos parecem esconder segredos em relação ao morto e ao que teria levado à morte do milionário escritor.

Contar mais da trama estragaria as diversas surpresas plantadas por Johnson. Mas dá para adiantar que, assim como fez em “Star Wars: Os Últimos Jedi”, o cineasta subverte as regras do gênero e quebra expectativas. Ele deixa as coisas mais complicadas e surpreendentes já no meio da história.

Parece o jogo ‘Detetive’?

Johnson parece mais preocupado em desenvolver sua ideia da maneira mais original possível, sem se esquecer a fonte que o inspirou a criar esse projeto.

Isso fica bem claro, por exemplo, quando um dos personagens chega a dizer que a mansão onde o escritor morava parecia ter saído do jogo “Detetive”. E isso não é por acaso.

Ambiguidade e hipocrisia

O diretor quer deixar claro que seu filme é uma espécie de versão moderna de produções como “Os Sete Suspeitos” (que adaptou “Detetive” para o cinema) e a antiga série “Assassinato por Escrito”, que até aparece sendo exibida numa TV em uma das cenas.

Só que, espertamente, Johnson coloca um molho a mais, dando uma atualidade que cria uma identificação imediata com o público. Ele trabalha com personagens ambíguos e tridimensionais, bem longe da caricatura que geralmente se vê em obras do gênero.

Assim, todos os membros da família são mostrados como pessoas falhas, nem boas nem completamente más. Apenas humanas e, de certa forma, ridículas. O que ajuda a tornar o humor das situações ainda mais saboroso.

Uma das coisas mais divertidas é como eles gostam de enfatizar o quanto gostam da enfermeira Marta e que ela é como uma deles. No entanto, nenhum deles sabe exatamente de onde ela veio, reforçando a hipocrisia dos americanos que o diretor-roteirista queria trabalhar em “Entre facas e segredos”.

Nem tudo é o que parece

Além de desenvolver bem as peças do jogo em seu tabuleiro, Rian Johnson também se preocupou em fazer um roteiro muito redondo, onde nada está por acaso na trama.

É claro que isso acaba deixando o filme um pouco esticado demais, o que pode incomodar o espectador que estiver um pouco apressado para ver tudo resolvido logo. Mas quem não der muita bola para isso se sentirá bastante recompensado pela espera.

Outro grande mérito do filme está no elenco. À frente dele, Daniel Craig funciona muito bem como o detetive que parece uma mistura de Sherlock Holmes e Hercule Poirot, e conta com o mesmo sarcasmo dos dois.

O ator parece estar se divertindo bem mais aqui do que em qualquer filme da franquia Bond e dá ao personagem um sotaque sulista americano que fica mais convincente do que sua tentativa anterior em “Logan Lucky: Roubo em Família”. Se Benoit Blanc voltasse, não seria surpresa.

Além de Craig, vale destacar Chris Evans e Ana de Armas. O Capitão América surpreende como Ramson, neto de Harlan, bem diferente do bom moço que estamos acostumados a ver, com um jeito debochado e sempre com uma piada ácida na ponta da língua. Ele mostra que não está nem aí com a sua família.

A atriz cubana, por sua vez, é o coração do filme. Mesmo diante de uma responsabilidade tão grande, ela não decepciona e cativa o público com seu grande carisma.

Mas Johnson reserva ótimos momentos para que os outros atores e atrizes também possam brilhar no filme. Assim, Jamie Lee Curtis (de “Halloween”), Toni Collette (“Hereditário”), Michael Shannon (“O Homem de Aço”), que vivem os três filhos da vítima mostram seu habitual talento, principalmente diante de questões envolvendo sua dependência ao patriarca morto.

O ex-astro da série de TV “Miami Vice”, Don Johnson, mostra aqui que quer ressuscitar a carreira como o marido de Jamie e se sai muito bem. Quanto a Christopher Plummer, é sempre um prazer vê-lo em ação.

Os jovens Katherine Langford (da série “13 Reasons Why”), como a filha idealista de Collette, e Jaeden Martell (de “It: A Coisa”), como o filho politicamente incorreto de Shannon, também dão conta do recado.

“Entre Facas e Segredos” também tem uma impecável direção de arte, que fica ainda mais evidente ao mostrar os interiores da mansão dos Thrombeys e alguns adereços, como a escultura feita de facas que fica num dos cômodos da casa.

Os figurinos também são um achado, principalmente os de Blanc e dos filhos do morto. As cores revelam a personalidade de cada um deles. Pode ser que este trabalho seja lembrado em premiações.

“Entre facas e segredos” se revela, no fim das contas, o melhor filme de Johnson até agora. O diretor conseguiu desta vez obter um resultado equilibrado e muito divertido que deve ficar na mente do público ao fim da sessão, já que soube encaixar as peças de uma maneira sublime.

Afinal, aqui, saber quem é o assassino da história é importante, mas o desenvolvimento que ele criou é que torna essa mistura de Agatha Christie com Sir Arthur Conan Doyle algo muito cativante e elementar. Como diria o mais ilustre morador de Baker Street.

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