Carlos Lima
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Cinema
Carlos Lima | Publicado em 17/05/2017 às 13:04:42

Festival de Cannes começa hoje com polêmicas

Festival de Cannes começa hoje com polêmicas Abertura do evento para filmes do Netflix causa saia justa para o júri presidido por Pedro Almodóvar

Este mundo já é bastante difícil, e o Festival de Cannes não precisa de ajuda para complicar ainda mais a sua vida. Nesta 70ª edição, que começa na quinta-feira com Les Fantômes d’Ismaël, de Arnaud Desplechin, a disputa se viu afetada – primeiro de forma tangencial, e há uma semana de maneira mais direta – por uma polêmica estéril.

Depois de selecionar dois filmes produzidos pela Netflix(ou seja, que não serão vistos nas salas de cinema do mundo depois de estrearem no Palácio dos Festivais), os organizadores do festival, sob pressão dos exibidores franceses, tiveram de emitir um comunicado anunciando que a partir do ano que vem não poderão participar da competição oficial os filmes que não tiverem assegurada sua exibição no circuito comercial do país anfitrião.

O texto, porém, nada diz sobre as sessões especiais, os filmes fora de competição e a sessão Um Certo Olhar.

A controvérsia envolvendo os filmes da Netflix causa uma saia-justa para o júri presidido por Pedro Almodóvar. O que aconteceria se, depois de assistidos os 19 concorrentes, a premiação recair sobre Okja, do sul-coreano Bong Joon-ho(o que seria bem possível) ou para The Meyerowitz Stories(New and Selected), de Noah Baumbach (mais improvável)?

Não seria um tiro no pé para o próprio festival dar uma Palma de Ouro à Netflix depois de encher a boca no ano passado com palavras elogiosas a outra plataforma, a Amazon, que permite a estreia prévia das suas produções nas salas de cinema?

Outra derrapada. Faz todo sentido ver na tela grande os dois primeiros episódios da volta de David Lynch a Twin Peaks. Que seja cinco dias depois da sua estreia mundial é algo estranho. Se era um evento pelo 70º. aniversário, claramente está mal agendado. Outra série que chegará a Cannes é Top of the Lake: China Girl. Ninguém sabe por que, além do fato de ter Jane Campion como codiretora.

Claro que Cannes tem mestres na prática do “faça o que eu digo, não o que eu faço”. Thierry Frémaux costuma falar maravilhas do cinema latino-americano. Quanto ao espanhol, nem vale a pena. É preciso usar uma lupa para encontrar a presença dessa cinematografia europeia: Emma Suárez aparece em Las Hijas de Abril, do mexicano Michel Franco, na seção Um Certo Olhar; o mesmo ocorre com Elena Anaya em La Cordillera, do argentino Santiago Mitre, que além disso conta com coprodução espanhola…

Na Semana da Crítica compete o curta Los Desheredados, de Laura Ferrés, e só. Há mais migalhas, mas… Na realidade, o cinema latino-americano tampouco se saiu muito melhor. Além dos mencionados, na parte oficial do concurso só estará La Novia del Desierto, das argentinas Cecilia Atán e Valeria Pivato.

De modo que tudo fica nas mãos de Pedro Almodóvar. Em Cannes, o presidente do júri importa. E muito. Ao seu lado, atores como Jessica Chastain, Fan Bingbing e Will Smith, diretores como Paolo Sorrentino, Maren Ade e Park Chan-wook, um compositor como Gabriel Yared e uma polivalente como Agnès Jaoui. E, sem ver os 19 filmes, há alguns diretores que parecem ser francos favoritos à Palma de Ouro.

Todd Haynes faz cinema sobre o cinema em Wonderstruck, e aqui é lembrada a esnobada dos irmãos Coen a Carol. O russo Andrei Zvyagintsev há anos apresenta grandes filmes, e há muita expectativa sobre a dissecação de um divórcio que ele promove em Nelyubov.

Pode ser que finalmente uma mulher diretora ganhe pela segunda vez a Palma de Ouro – a única até hoje foi Jane Campion, com O Piano –, e aí estão Naomi Kawase (Hikari), Sofia Coppola (O Estranho Que Nós Amavávamos, versão do romance de Thomas Cullinan que já havia sido adaptado por Don Siegel em 1971) e Lynne Ramsay (You Were Never Really Here).

Há mais: clássicos como Fatih Akin, Giorgos Lanthimos, François Ozon e Sergei Loznitsa, cineastas que escalam posições como Ruben Ostlünd… Hazanavicius se atreveu com Le Redoutable a contar as aventuras de Jean-Luc Godard em maio de 1968. E finalmente resta uma dúvida: ganhará Michael Haneke sua terceira Palma de Ouro consecutiva com Happy End, depois de A Fita Branca e Amor?

Em Cannes há muito mais do que cinema: os novos filmes de Roman Polanski, Laurent Cantet, Agnès Varda, Takashi Miike, John Cameron Mitchell e Mathieu Amalric.

A volta de dois veteraníssimos como Barbet Schroeder e Claude Lanzmann (que agora vai à Coreia do Norte). Um ex-vice-presidente dos EUA, Al Gore, retornando com outro documentário incômodo, An Inconvenient Sequel: Truth to Power.

Um espaço para a realidade virtual com Carne y Arena, de Alejandro González Iñarritu. Um filme sobre fotografias, 24 Frames, de um diretor já falecido, o iraniano Abbas Kiarostami. Dois filmes de Hong Sang-soo (um deles rodado nas próprias ruas de Cannes durante a última edição).

Uma aula magna de Clint Eastwood e outra de Alfonso Cuarón. E muita Nicole Kidman, que aparece na série Top of the Lake: China Girl e em três filmes: os de Giorgos Lanthimos, Sofia Coppola e John Cameron Mitchell.

Tudo pronto para o pontapé inicial em Cannes, com uma Claudia Cardinale dançando com frenesi vital no cartaz oficial do festival, enquanto os militares percorrem a Croisette (passeio da orla marítima) com o dedo no gatilho, e a polícia municipal faz patrulhas com revólveres pela primeira vez na sua história.

Com milhares de compradores e vendedores de cinema na maior feira audiovisual do mundo. E com uma triste noticia para os cinéfilos gastrônomos ricos: fechou o Le Mere Besson, restaurante de cozinha provençal que era o epicentro de muitos encontros e negócios do showbusiness.

GREGORIO BELINCHÓN

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