Carlos Lima
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Cultura
Carlos Lima | Publicado em 12/07/2019 às 10:19:44

Autores africanos são ovacionados em última mesa da Flip de quinta-feira

Autores africanos são ovacionados em última mesa da Flip de quinta-feira foto: Autores africanos são ovacionados em última mesa da Flip de quinta-feira

A última mesa desta quinta (11), na Flip, foi uma celebração da música e da literatura conduzida pelos músicos e escritores Kalaf Epalanga e Gaël Faye, o primeiro angolano e o segundo franco-ruandês. Eles divulgam na Flip os livros “Também os Brancos Sabem Dançar” e “Meu Pequeno País”, respectivamente.

Os dois foram aplaudidos em diversos momentos da mesa. Epalanga, que emigrou jovem para Lisboa, defendeu uma espécie de salvação pela festa. Ele lembrou que muitos africanos por vezes acabam em subempregos na Europa.

“A kizomba [ritmo angolano] é nosso santuário. É ali onde encontramos um lugar onde tínhamos nosso próprio nome. Muitos chegavam [à Europa] com uma mão na frente e outra atrás, trabalham na construção civil ou na limpeza de casas. Chegava a sexta, nos vestíamos para dançar e éramos indivíduos. Tinhas nossa própria dignidade”, afirmou.

Ele acrescentou que as noites africanas em Lisboa não eram só locais de festa, mas lugares de salvação. “Se vocês forem às discotecas africanas, vocês vão ter a maior experiência das suas vidas”, disse, defendendo que, para jovens negros que crescem vendo imagens de miséria na TV, a música é um resgate da autoestima.

Seu romance conta a história do kuduro, o ritmo angolano, e sua disseminação pela Europa.

O autor franco-ruandês também foi pelo mesmo caminho, ao contar de como encontrou a cultura do hip-hop. Faye, que vivia no Burundi e emigrou para a França criança quando a guerra civil que desaguou no genocídio de Ruanda estourou, escrevia poesia desde cedo. Um dia, foi para um oficina que acreditava ser de teatro -mas se revelou ser de rap.

“Eu era de uma família na qual não se falava [uns com os outros]. Eu tinha uma quantidade de palavras que precisavam ser ditas”, afirmou.

Ele reclamou da reputação por vezes negativa que o rap e a cultura hip-hop têm na sociedade.

“Vi que o rap era a arte do pobre. Não exigia aulas de solfejo. Se você sabe pintar um muro, você pode fazer hip-hop. Mesmo quando faço romance, é um romance hip-hop. Não cresci numa casa com uma grande biblioteca, mas tenho uma urgência de dizer e não espero permissão dos outros. Foi isso que o hip-hop me ensinou. Se você tem algo a dizer, diga-o, não espere autorização”, afirmou, gerando aplausos na plateia.

A plateia riu quando Epalanga explicou o surgimento do kuduro em Angola -um vídeo exibiu uma cena em que Jean-Claude Van Damme dança de forma desengonçada no filme “Kickboxer”. Em seu país, os passos do kuduro eram uma imitação daqueles do ator.

“O primeiro título desse livro era ‘Jean-Claude Van Damme Inventou o Kuduro’, mas corria o risco de revogarem minha nacionalidade”, riu.

Epalanga também foi aplaudido ao falar de sua relação com a música de Caetano Veloso.

“Ele tem tantas encarnações! A Adriana Calcanhotto disse certo: a gente tem que comer Caetano. Vocês têm que matar Caetano. Enquanto ele estiver vivo vocês não vão conseguir fazer mais nada. E ainda bem. Ele é uma estrela-guia”, afirmou.

O autor contou ainda de um encontro seu com Moreno Veloso, filho do cantor, na Europa, e ele lhe mostrou uma canção sobre um guerrilheiro de seu país que morreu jovem -e que ele julgava que apenas seus compatriotas conhecessem.

“[Esse guerrilheiro] Era um dos heróis. E Caetano cantava quando ele era criança, me disse o Moreno”, disse.

“Não pensem que o que vocês estão vivendo [na política brasileira] é o fim da picada. Talvez seja o início. Talvez obrigue vocês a se reinventarem, a fazer o que o Caetano faz, cantar uma canção do guerrilheiro.”

RUANDA

Faye tentou explicar as origens do genocídio de Ruanda. E, para isso, contou como a divisão étnica entre tutsis e hutus na região foi uma criação colonial.

“Os colonos racializaram a sociedade de Ruanda e do Burundi. Eles começaram a medir os fêmures, o contorno do crânio. Diziam que os tutsis eram altos e magros, que os hutus eram baixos. Que uns eram inteligentes”, disse.

“Tudo isso aconteceu em cem anos. O genocídio não é uma violência que explode da noite para o dia. Precisamos desconstruir nossa história. Somos prisioneiros desse conceito de etnia que é uma fábula importada da Europa.”

FolhaPress SNG

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