Carlos Lima
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Cultura
Carlos Lima | Publicado em 28/11/2019 às 10:10:04

Elogios ao golpe de 64 e críticas ao Brasil: quem foi Elizabeth Bishop, a polêmica homenageada da Flip

Elogios ao golpe de 64 e críticas ao Brasil: quem foi Elizabeth Bishop, a polêmica homenageada da Flip Elizabeth Bishop é a homenageada da Flip 2020 — Foto: Divulgação/Vassar College Library Archives

A poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) nunca havia colocado os pés no Brasil antes de desembarcar no porto de Santos em 1951 para uma estadia breve de duas semanas. Mas ela foi visitar amigos no Rio, apaixonou-se por uma brasileira e acabou morando no país por mais de 15 anos.

Bishop chegou com apenas um livro publicado e ainda longe de ser reconhecida como uma das maiores poetas do século 20, reconhecimento que viria só bem mais tarde. Ela produziu boa parte de sua obra no país, que teve uma grande influência sobre seus versos, e também ajudou a divulgar a poesia brasileira no mundo.

Morando aqui, a americana criou uma relação tão íntima com o Brasil que se permitiu tecer em sua prosa e correspondências com amigos críticas à cultura e aos costumes brasileiros e comentários sobre os eventos que testemunhava por aqui, incluindo alguns elogios ao golpe de 1964.

Palavras que agora se voltam contra sua escolha como a homenageada da próxima edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), um dos mais importantes eventos dedicados à literatura no Brasil.

Bishop será a primeira autora estrangeira homenageada pela Flip, que chega a sua 18ª edição em 2020. A organização do evento diz que a poeta era cogitada como uma possível homenageada há mais de dez anos e que seu nome foi sugerido por várias pessoas à direção da Flip.

“A boa arte é aquela que faz a gente enxergar o mundo criticamente, e a observação que Elizabeth Bishop faz do mundo em sua obra é uma boa lente para a gente entender e refletir sobre o Brasil”, diz Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip.

Sua produção é considerada concisa. São apenas 101 poemas, divididos em três livros, ao longo dos seus 68 anos de vida. Quem estuda sua vida e obra credita isso ao um perfeccionismo e autocrítica extremos, que a faziam se dedicar meses ou mesmo anos a um único texto.

“Bishop só publicava quando achava que estava perfeito, irretocável. Nos seus rascunhos, você percebe como um poema que começa sentimental e sem forma vai sendo aperfeiçoado até tudo se encaixar e virar uma joia perfeita. Ela é uma artífice da palavra como poucos”, diz o poeta Paulo Henriques Britto, professor de Letras da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ) e responsável pela tradução de alguns trabalhos de Bishop.

Esse zelo pelas palavras rendeu a Bishop dois dos principais prêmios literários dos Estados Unidos: o Pulitzer, em 1956, pela antologia poética North & South, e o National Book Award, em 1970, com The Complete Poems.

Britto explica que ela faz parte da primeira geração de escritores que começou a produzir sob o impacto dos modernistas e incorpora suas lições sem abrir mão de diálogo com o passado, equilibrando-se entre diferentes tendências.

“Bishop cria uma tensão interessante entre a modernidade e tradição em sua obra. Usa formas modernas, como versos livres, e formas clássicas, como sonetos. E, mesmo quando usa formas clássicas, emprega uma linguagem radicalmente coloquial. Sua temática tem elementos líricos e autobiográficos, mas ela não cai no extravasamento emocional de outros autores. Bishop coloca sua vida no que escreve, mas de forma discreta”, diz Britto.

‘Foi uma revolução rápida e bonita’

Se Elizabeth Bishop continha-se em seus versos, o mesmo não pode ser dito do que escrevia em prosa ou nas cartas trocadas com amigos, publicadas em livros após sua morte. Estes textos trouxeram à tona diversas de suas opiniões mais controversas, inclusive sobre um dos momentos mais sensíveis da história brasileira.

“Foi uma revolução rápida e bonita, debaixo de chuva — tudo terminado em menos de 48 horas”, escreveu em 4 de abril de 1964, três dias depois do golpe que daria início a mais de duas décadas de regime militar no país, em uma carta para o poeta Robert Lowell (1917-1977), seu amigo e um dos seus interlocutores mais frequentes.

Alguns dias depois, ela expressa sentimentos ambivalentes sobre o que estava acontecendo. “Ando horrivelmente deprimida com o que está acontecendo por aqui, e meu único pensamento é ir embora por um tempo”, escreveu.

Ao mesmo tempo, afirma que “a suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça. De outro modo teria sido uma mera ‘deposição’, e não uma ‘revolução'”.

Um mês após o golpe, disse em outra carta: “Nunca na minha vida, antes de vir para cá, sonhei por um minuto que algum dia eu gostaria de ver um exército tomar o poder”.

Bishop considerava Carlos Lacerda “muito corajoso e inteligente” e “um dos melhores amigos” que tinha no Brasil. Lacerda apoiou o golpe a princípio, mas, depois, foi para a oposição ao regime militar, para o desgosto de Bishop.

“Carlos traiu todo mundo de forma horrível — depois de todos os anos de luta contra a gangue do velho Vargas e a corrupção, de repente, por razões políticas, ele se passou para o lado deles (e dos comunistas) outra vez”, escreveu ela a Lowell.

O escritor Marcelo Moutinho lamentou a escolha de Bishop por causa desse posicionamento político. “Todas as pessoas têm o direito de errar, e de fazer suas próprias revisões. Não me filio a patrulhas eternas. Me pergunto, porém, se nesse momento de loas efusivas à ditadura, e mesmo à tortura, não seria o caso de prestar tributo a quem tenha uma trajetória de compromisso com a democracia sem maiores hesitações”, escreveu em sua conta no Twitter.

A escritora portuguesa Alexandra Lucas Coelho afirmou que homenagear “uma poeta estrangeira que morou no Brasil olhando-o do alto do seu horror às massas, que apoiou com alívio o golpe militar de 1964, que rejubilou com o desfile ‘anti-comunista’ pós-golpe” é, “no momento que o Brasil vive, a mensagem oposta do que seria preciso”.

Munhoz, da Flip, diz que já esperava por estas críticas e que a direção do evento pretendia com esta escolha estimular um debate. “Em um momento de polarização e em que as pessoas estão se isolando em bolhas, só a arte pode criar um ambiente de resistência. É bom lembrar que essa realidade não se limita ao Brasil. Acreditamos que a arte literária de Elizabeth Bishop, fortemente conectada com o Brasil e com o mundo, será capaz de fortalecer este diálogo internacionalmente”, afirma.

Momento político polarizado

Cassiano Elek Machado, diretor editoral da Planeta no Brasil e ex-curador da Flip, considera as críticas “compreensíveis” diante do momento politico polarizado pelo qual o país passa, “em que as sensibilidades estão aguçadas e qualquer coisa já acende uma faísca e vira um incêndio”.

“É uma escolha que tem diversos pontos que podem ser contestados, mas também lança uma luz sobre uma poeta que produziu no Brasil uma literatura da maior qualidade, teve uma relação intensa com o país e foi uma importante agente cultural da literatura brasileira no exterior”, diz Machado.

Machado foi curador da Flip em 2007, quando o evento homenageou Nelson Rodrigues, que também apoiou o golpe militar. “Não teve essa polêmica, mas era um momento em que as coisas não estavam nem perto do que estão hoje. Acredito que os motivos que levaram a Flip a escolhê-la ficarão mais claros ao vermos como essa homenagem vai estar inserida dentro do festival.”

Britto, da PUC-Rio, afirma que a decisão “não deixa de ser uma infeliz coincidência e um pouco incômoda em um momento em que temos um governo claramente autoritário”, mas diz ser preciso considerar o contexto em que se se deu o apoio de Bishop ao golpe de 64.

Nascida em Worcester, nos Estados Unidos, Bishop foi criada por parentes, após seu pai morrer quando ela ainda era bebê e sua mãe ser internada por problemas psiquiátricos. Chegou ao Brasil durante o início do segundo governo de Getúlio Vargas, a quem chamava de “ditador” mesmo após de ele ter sido democraticamente eleito.

Seu plano era viajar pela América do Sul, mas, no Rio, conheceu a arquiteta Lota de Macedo Soares, que idealizou a construção do Aterro do Flamengo. Elas se apaixonaram, e Lota foi sua principal razão para permanecer no Brasil. O casal manteve um relacionamento por 16 anos.

“Bishop era muito pouco ligada à política, e sua adesão ao golpe foi simplesmente uma consequência de ela ser casada com a Lota, que era muito próxima de Lacerda, que foi um dos líderes civis do golpe. Ela repete tudo que ouve Lota dizer”, afirma Britto, que defende ser necessário separar a vida e a obra de Bishop.

“(O poeta americano) Ezra Pound aderiu ao fascismo, mas ninguém deixa de dar o mérito que ele merece porque agiu de forma desprezível e indefensável. O que não é o caso de Bishop, porque ela não fez propaganda do governo militar nem foi uma porta-voz do regime. Foi uma adesão que se deu apenas nas suas cartas”, diz Britto.

Paulo Werneck, fundador da revista de ensaios literários Quatro Cinco Um e ex-curador da Flip, afirma que a biografia de grandes nomes da história muitas vezes não escapa ilesa de uma análise mais detalhada.

“É difícil engolir aquele tipo de opinião sobre o golpe, que a história provou ser equivocada, mas é comum encontrarmos na vida de nossos heróis momentos ou opiniões feias. A obra de Bishop é central no século 20”, afirma Werneck.

Por sua vez, o poeta Ricardo Domeneck disse que muitas das reações contra Bishop têm sido baseadas na emoção e não na razão. “Ao descobrir certas declarações da poeta, (as pessoas) sentem-se traídas. Não diminuo esse sentimento. É legítimo, mesmo que imaturo, em minha opinião”, escreveu em sua conta no Twitter.

“O que desejo, eu próprio, e o caminho no qual gostaria que meus colegas me guiassem, é o da razoabilidade, do senso de proporção, de uma noção madura de causalidade entre política e literatura, sem simplificações, sabendo identificar os verdadeiros adversários.”

‘O Brasil é mesmo um horror’

As opiniões polêmicas de Bishop não se restringiram ao cenário político. A própria curadora do evento, Fernanda Diamant, disse após o anúncio que uma das intenções desta homenagem é mostrar a relação “intensa” e “ambígua” de Bishop com o Brasil, na qual a poeta foi “muito crítica, mas também muito apaixonada” pelo país.

O poeta e diplomata Felipe Fortuna destacou em sua conta no Facebook diversos trechos de textos da escritora com visões negativas sobre o Brasil. Entre eles, passagens do livro “Brazil”, publicado pela Life World Library, em que a escritora afirmou: “Muitos talentos brasileiros genuínos parecem ir para a cama muito cedo — ou para as redes”. Em outra passagem, Bishop disse: “De fato, a bananeira é um ótimo símbolo para o país e para o que aconteceu e continua a acontecer nele”.

É bem verdade que, em suas correspondências, Bishop se mostrou em certos momentos encantada com alguns aspectos do país, como quando disse adorar a “miscelânea internacional” formada pela convivência entre brasileiros e imigrantes de diferentes países.

Disse que o hábito de tomar “cafezinhos a toda hora” a estava fazendo emagrecer e contou estar “se engalfinhando” com o português, que dedicou-se a aprender. A princípio, contou em uma carta que ela e Lota tinham “horror ao Carnaval”, mas a aversão parece ter sido superada, porque, em correspondências posteriores, disse sempre tentavam ir à “noite das Escolas de Samba dos negros”.

Em dado ponto, observou que “todos os meninos se chamam ‘José’ alguma coisa e todas as meninas se chamam ‘Maria’ alguma coisa”. “Esses nomes são sempre abreviados em apelidos absurdos que pegam para a vida toda”, escreveu. “Aqui eu sou ‘dona Elizabétchi’ — sempre os prenomes. Você seria ‘seu Roberto’. Não, acho que como tem um diploma seria o ‘doutor Roberto’.”

Mas claramente incomodava-se com a pobreza, a injustiça e o atraso. “O Brasil é mesmo um horror”, disse ela em uma das cartas.

Em outra correspondência, afirmou: “Como você sabe, é um país estranho, uma mistura dos séculos 18 e 19 com rápida industrialização, terrível pobreza, luxo, preto e branco, o avançado e o primitivo — ainda estou surpresa de me ver vivendo aqui, mas vou ficando”. Mas, na mesma carta, disse que “aqui é meu verdadeiro lar agora”.

O Rio era “o cenário mais lindo do mundo”, em sua opinião, mas elas não se furtou de tratar dos seus problemas. “O Rio está mais louco que nunca”, escreveu para Lowell. “Falta água em partes da cidade e o gás anda escasso; em cada edifício só um elevador funciona e há filas intermináveis, quarteirões inteiros para pegar os ônibus miúdos, cromados e brilhantes ou os bondes velhos e abertos.”

Elogios e críticas à cultura brasileira

Sobre a poesia brasileira, afirmou que o que havia lido até dado momento era “tudo gracioso, delicado”. Apreciava os poetas João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade. Também gostava de Euclides da Cunha e dizia que o autor de “Os Sertões” só ficava atrás de Machado de Assis, “a única glória das letras que existe por aqui”.

Ainda fez traduções para o inglês de poetas brasileiros como Drummond, Cabral, Cecília Meireles e Joaquim Cardozo, depois reunidas em “An Anthology of Twentieth-Century Brazilian Poetry” (“Uma Antologia da Poesia Brasileira do Século 20”, em tradução livre).

Mas Bishop avaliou duramente alguns dos maiores símbolos nacionais brasileiros: “Se você nunca vê um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom — ou se você nunca na vida ouviu boa música, finge que bossa nova é bom e que Villa-Lobos é o maior etc”.

Em outros momentos, fez comentários mordazes. “Há um grande renascimento do catolicismo pelo que vejo, e famílias grandes são o estilo predominante: dez ou doze”, escreveu, para em seguida emendar: “Bem, eu não me incomodaria com as famílias grandes se ficassem restritas à classe alta (e como tudo fica simples quando não existe classe média)”.

Munhoz, da Flip, afirma que o evento será “uma ótima oportunidade para a gente discordar de algumas posições da autora e ao mesmo tempo aprofundar o conhecimento de sua obra literária”.

O diretor Bruno Barreto afirma que aqueles que criticam a escritora por estes comentários sofrem de um eterno complexo de vira-lata. “A autoestima dos brasileiros é tão baixa que não conseguem ouvir críticas”, diz Barreto, que retratou o romance entre Bishop e Lota no seu filme “Flores Raras” (2013).

O casal viveu junto até quase a morte da arquiteta, em 1967, em Nova York, por overdose de tranquilizantes. Barreto diz que elas eram “diametralmente opostas”. “Bishop era frágil, enquanto Lota era um exemplo de fortaleza. Juntas, elas se complementavam e tiveram os melhores anos de suas vidas”, afirma Barreto.

Bishop deu aulas na Universidade de Washington e Harvard e, após a morte de Lota, teve um longo relacionamento com a americana Alice Methfessel, 32 anos mais nova do que ela e com quem viveu nos Estados Unidos até sua morte, em 1979, por causa de um aneurisma cerebral decorrente dos anos de alcoolismo.

O que mais chamou a atenção de Barreto na vida de Bishop em sua pesquisa para o longa foi sua capacidade de superar perdas, tema de um de seus poemas mais conhecidos, “A arte de perder”.

“Desde pequena, ela só sofreu perdas. Ela era errante, disfuncional e alcoólatra, mas vai ficando mais forte entre um porre e outro. Ainda que não se colocasse como uma vítima de nenhuma forma, acho que a Bishop foi salva pela poesia. Talvez tivesse morrido mais cedo se não escrevesse.”

Por BBC

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