Entenda os textos filosóficos lendo ou estudando

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ARISTÓTELES

É importante destacar que um texto filosófico não é, a priori, uma narração, mas uma dissertação e uma dissertação argumentativa, não expositiva.

Nesse sentido, ele não visa a transmitir informações como, por exemplo, um texto jornalístico. O texto filosófico, de um modo geral, propõe uma tese e a defende através de argumentos.

Ele não é um texto literário e a elegância de estilo, além de não ser obrigatória, pode constituir uma inimiga do rigor e da precisão.

Considerando tudo isso, o objetivo da leitura de um texto filosófico não é tomar conhecimento de algo, não é informar-se, não é deleitar-se esteticamente com as palavras. O objetivo da leitura, no caso da filosofia, é o esteticamente com as palavras. O objetivo da leitura, no caso da filosofia, é o entendimento do texto.

Nesse sentido, a primeira pergunta que devemos nos colocar aqui é: o que significa entender um texto?

Em primeiro lugar, por entendimento podemos estar nos referindo à compreensão literal do texto, que consiste na capacidade de repetir aquilo que ele diz.

Num segundo momento, podemos aludir à capacidade de para fraseá-lo, isto é, de repeti-lo ou reproduzi-lo, usando nossas próprias palavras.

Mas a definição mais completa vai além dessas duas etapas

Entender um texto é ser capaz de “traduzi-lo”, isto é, torná-lo mais claro, mais explícito do que ele é originalmente, de modo que nos tornemos aptos a explicá-lo, a torná-lo compreensível a outros leitores.

O entendido, portanto, é atingir o sentido do texto ou aquilo que ele objetivamente diz.

No entanto, nem sempre entendemos um texto, o que pode ou não estar relacionado ao seu nível de dificuldade. De qualquer modo, o não entendimento pode ser superado. Quando não se entende um texto – ou uma passagem dele – há sempre um motivo para isso.

Muitas vezes, não entendemos um texto filosófico porque não possuímos os pré-requisitos necessários para entendê-lo.

Muitas vezes, um filósofo escreve um livro comentando ou contextualizando a obra de outro filósofo e, se você desconhecer a referência à obra anterior, dificilmente vai captar com precisão o sentido daquela que está lendo. Assim, é preciso preencher os pré-requisitos, antes de ir adiante.

Por outro lado, o não entendimento pode ser proveniente de nossas próprias crenças que se transformam num empecilho à compreensão das ideias alheias.

Se isso ocorre – em geral certos estados emocionais permitem identificar quando isso ocorre –, devemos procurar separar claramente as nossas crenças das ideias do autor e não discutir com elas.

Não podemos deixar, neste momento, que nossa opinião interfira e distorça o entendimento.

Depois de questionarmos o que é entender um texto, é conveniente nos perguntarmos se o entendemos corretamente.

Uma compreensão correta não contradiz o sentido literal do texto e leva em conta as regras da gramática (em especial, a sintaxe).

Além disso, procura a unidade que o texto deve ter, sem deixar qualquer parte solta ou nenhuma passagem de lado.

Também é preciso perceber as conexões que existem entre as diversas partes do texto e, quando está nesse rumo, geralmente o leitor consegue antecipar o desenvolvimento da argumentação, prevendo o que virá a seguir.

Em princípio, deve-se considerar como erro de compreensão todas as contradições encontradas no texto. Pelo menos se não surgirem provas explícitas do contrário, isto é, de que o texto tem mesmo contradições.

Em especial numa época em que se usam com frequência metáforas do tipo “a minha leitura de…”, “a sua leitura de…”, “a leitura que Fulano fez de…”, é importante deixar claro que a leitura objetiva de um texto é sempre uma mesma leitura.

Ninguém descobre no texto o que nele não existe. A originalidade de uma leitura específica consiste em centrar o foco num aspecto particular que talvez tenha passado despercebido a outros leitores ou ainda que se pode desvelar com maior nitidez.

O entendimento é a finalidade da leitura. O meio de que dispomos para alcançá-lo é a análise. Para analisar um texto devemos desconstruí-lo no nível linguístico, procurando reduzi-lo a uma sucessão ordenada de frases simples, na ordem direta: sujeito-verbo-predicado.

Aliás, aqui é bom lembrar que algumas palavras de uso corriqueiro podem ter um sentido bem mais específico ou mais elaborado em filosofia.

Você certamente sabe o que significa a palavra “substância”, mas será capaz de dizer o sentido que ela tem em um texto de Aristóteles? Para isso, você pode recorrer a dicionários específicos de filosofia.

Depois da desconstrução linguística, chegou a hora de passar à desconstrução semântica, ou seja, em termos de conteúdo do texto analisado.

Em geral, o texto filosófico-dissertativo compõe-se de tese ou hipótese, argumentos, consequências, objeções e contra-argumentos, respostas às objeções, exemplos, definições e aplicação a um caso ou casos particulares.

Desse modo, você vai purificar o texto, libertá-lo de tudo que é contingente e estará diante de suas ideias básicas.

Com isso, o texto se tornará muito mais breve, certamente perderá sua fluência original, mas ganhará em troca uma ordem mais clara. A partir desse ponto, você já estará apto a concordar com o que é dito ou discordar disso, sabendo as razões da discordância.

Sim, porque a partir desse ponto você já ultrapassou o entendimento – ou a explicitação de sentido – e estará seguindo rumo à interpretação do texto, que vem a ser o completar esse sentido, tecendo suas próprias reflexões sobre ele, estabelecendo um diálogo com o texto lido.

Com informações da Universidade Paris Dauphine.

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