Carlos Lima
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Cultura
Carlos Lima | Publicado em 09/03/2019 às 12:41:18

Os bastidores de Chega de Saudade, clássico de João Gilberto.

Os bastidores de Chega de Saudade, clássico de João Gilberto. O cantor João Gilberto durante show realizado no Theatro Municpal do Rio de Janeiro, em agosto de 2008 — Foto: AFP

“Vai minha tristeza / E diz a ela / Que sem ela não pode ser…”. Sessenta anos depois, a emoção de ouvir pela primeira vez os versos iniciais de Chega de Saudade continua praticamente indescritível.

O jornalista Zuza Homem de Mello fala em um momento “impactante” e “enlouquecedor”. Aos 86 anos, o autor de João Gilberto (Publifolha, 2001) seguia rumo ao parque do Ibirapuera quando Chega de Saudade tocou no rádio da perua Dodge: “Na mesma hora, encostei e fiquei ouvindo aquilo, extasiado. Chega de Saudade era uma novidade em todos os sentidos”.

Autor de Chega de Saudade (Cia das Letras, 1990), Ruy Castro lança mão de uma referência bíblica para ilustrar a sensação dos que ouviram Chega de Saudade pela primeira vez: “Charlton Heston descendo do Sinai com os Dez Mandamentos debaixo do braço”.

Quem também não se esquece da primeira vez em que ouviu o samba-canção composto por Tom Jobim em parceria com Vinícius de Moraes é o jornalista, escritor e letrista Nelson Motta. Foi nas férias de 1958, em São Paulo, num radinho de pilha. Nelson tinha, à época, 14 anos.

“Foi como um raio. Aquilo era diferente de tudo que eu já tinha ouvido”, relata no livro Noites Tropicais (Objetiva, 2000). “Fiquei chocado, sem saber se tinha adorado ou detestado. Mas, quanto mais ouvia, mais gostava”. Hoje, aos 74, solta uma risada ao se intitular um “gilbertômano terminal”. “Chega de Saudade é um dos discos mais influentes de nossa história”, afirma. “Não houve propriamente uma ruptura. O samba-canção já produzira muitas canções que antecipavam a bossa-nova. Só faltava a batida revolucionária do João”.

“Nunca levei uma surra assim”

 

Lançado no dia 8 de março de 1959, o álbum Chega de Saudade começou a ganhar vida no sítio da família de Tom Jobim, em Poço Fundo, na região serrana do Rio. Foi lá que, em 1956, o maestro, então com 27 anos, compôs ao violão uma espécie de samba-canção em três partes. Ao regressar ao Rio, confiou a melodia aos cuidados do poeta Vinícius de Moraes.

O poetinha gostou do que ouviu, “uma música nova, original, tão brasileira quanto choro de Pixinguinha ou samba de Cartola”, mas, demorou a escrever a letra. “Nunca levei uma surra assim”, admitiu em crônica publicada no jornal Diário Carioca, em 1965. Quando deu a letra por encerrada, soltou um berro de alegria. Lila, sua mulher, não pareceu tão animada. “Rimar peixinhos com beijinhos, que coisa mais boba”, fez pouco caso. No mesmo dia, Vinícius correu para mostrá-la a Tom, que morava na rua Nascimento e Silva, a poucos quarteirões de distância.

João Gilberto não foi o primeiro a gravar a mais recente obra-prima da dupla de Orfeu da Conceição. A cantora Elizeth Cardoso incluiu a música em seu álbum Canção do Amor Demais, gravado em abril de 1958 nos estúdios da Columbia, no Rio, e lançado, um mês depois, pelo selo Festa.

João acompanhou Elizeth ao violão em 2 das 13 faixas: Chega de Saudade e Outra Vez. Mesmo assim, fez questão de participar dos ensaios no apartamento de Tom. “Rolou um mal-estar quando João, um violonista até então desconhecido, tentou ensinar a Divina Elizeth a cantar Chega de Saudade. Queria que ela cantasse como ele cantava. Foi uma audácia”, comenta Zuza.

“Chet Baker brasileiro”

 

Dois meses depois do lançamento de Canção do Amor Demais, João Gilberto decidiu, ele mesmo, gravar Chega de Saudade. Mas não foi fácil convencer Aloysio de Oliveira, o todo-poderoso da Odeon, a investir na produção de um LP daquele ilustre desconhecido.

Antes de lançar seu primeiro disco, em março de 1959, João gravou dois compactos de 78 rpm: o primeiro, em julho de 1958, trazia Chega de Saudade e Bim Bom, e o segundo, em janeiro de 1959, Desafinado e Hô-bá-lá-lá. Todos os arranjos levaram a assinatura de Tom Jobim.

Quando regressou aos estúdios Odeon, na Cinelândia, para gravar seu LP de estreia, 4 das 12 faixas já estavam prontas. Para finalizar o álbum, gravou Brigas, Nunca Mais no dia 23 de janeiro, Morena Boca de Ouro no dia 30 de janeiro e Lobo Bobo, Saudade Fez Um Samba, Maria Ninguém, Rosa Morena, Aos Pés da Cruz e É Luxo Só no dia 4 de fevereiro.

“O repertório era superior ao dos maiores cantores da época, como Nelson Gonçalves, Cauby Peixoto e Anísio Silva”, avalia o jornalista e pesquisador Ricardo Cravo Albin. “Em 1959, eu gostava de ouvir jazz e, por essa razão, senti um prazer imediato ao ouvir Chega de Saudade. João Gilberto era uma espécie de Chet Baker brasileiro”, compara, em alusão ao cantor e trompetista americano.

As gravações de Chega de Saudade duraram de 10 de julho de 1958 a 4 de fevereiro de 1959. Ao longo de sete meses, João conseguiu se desentender com todo mundo: técnicos, músicos e até Tom Jobim, o produtor musical do LP. A primeira vítima foi Z. J. Merky, o diretor técnico da gravação, que não entendeu quando João pediu dois microfones: um para a voz e outro para o violão. Exigência atendida, ele passou a interromper a gravação sempre que identificava algum erro da orquestra.

“Numa das incontáveis interrupções, alguns músicos se amotinaram e saíram batendo portas. Quando concordaram em voltar, era o cantor que já não queria gravar”, conta Ruy Castro em Chega de Saudade. “Tom Jobim não sabia se tocava piano, se regia a orquestra ou se corria de um lado para o outro, com os panos quentes”. Lá pelas tantas, sobrou até para ele. “Você é brasileiro, Tom, você é preguiçoso!”, foi obrigado a ouvir.

“Quase um sussurro ao pé do ouvido”

 

O jornalista e crítico musical Tárik de Souza explica que não foi fácil a João convencer a todos de sua proposta inovadora. Principalmente os músicos da percussão. “João não queria a estridência da bateria e, reza a lenda, recorreu a um catálogo telefônico para abafar o ressoar das baquetas”, diz.

Aos 72 anos, Tárik pode se orgulhar de ter sido um dos poucos jornalistas a conseguir uma exclusiva com João Gilberto. A proeza aconteceu em 1971, no Hotel Glória, para a revista Veja. “Conversamos por mais de quatro horas, sem que ele me deixasse ligar o gravador ou fazer anotações. Dois dias depois, lá estava eu na redação, em São Paulo, redigindo a mais importante entrevista da minha vida”, recorda. Do álbum em si, o que mais lhe chama a atenção é a “transparência vocal absolutamente confidente”. “Quase um sussurro ao pé do ouvido”, define.

Terminada a gravação, João ainda tinha que posar para as lentes de Chico Pereira, o fotógrafo da Odeon. A roupa que ele usa na capa, a propósito, é de Roberto Menescal. “Um dia, o João me pediu uma ou duas camisas emprestadas. Em casa, levou o armário inteiro e eu fiquei só com a roupa do corpo. Nunca mais devolveu”, entrega, bem-humorado, o autor de O Barquinho.

Fora de catálogo desde 1990, Chega de Saudade só pode ser encontrado em sebos ou sites de compra e venda. No site Mercado Livre, uma cópia pode custar até R$ 900. Em 2014, o engenheiro de som André Dias foi contratado para remasterizar seus três primeiros LPs: Chega de Saudade (1959), O Amor, O Sorriso e A Flor (1960) e João Gilberto (1961). A epopeia, calcula, levou cinco meses. Na dúvida sobre o resultado do trabalho, João ouviu uma segunda e terceira opinião: a dos produtores Moogie Canazio e Shigeki Miyata. Os dois aprovaram a remasterização.

Dias não perde a esperança de, um dia, João Gilberto autorizar o relançamento. “Gostaria que isso acontecesse com o João ainda vivo. Queria muito que ele se orgulhasse e visse que foi feita justiça com sua arte. Será a grande realização da minha vida.”

“É apenas um sujeito excêntrico e original”

 

Roberto Menescal é dos muitos amigos de longa data que, há anos, não tem notícias de João Gilberto. “Recluso ele sempre foi. Mas, nos últimos anos, chegou ao máximo da reclusão”, lamenta.

Cravo Albin é outro que, para não soar invasivo, desistiu de procurar o amigo. “Há uns cinco anos, liguei para o João. Ele atendeu, mas disse que não estava. Respeitei. Dias depois, a pedido do Otávio Terceiro, seu antigo empresário, voltei a ligar. Ele atendeu de novo e disse que o João não estava. Pô, a voz do João é inconfundível!”, resigna-se o musicólogo, que não sabe explicar o motivo de seu autoexílio voluntário. “Me recuso a dizer que João Gilberto é neurótico ou desequilibrado. Nada disso. É apenas um sujeito excêntrico e original.”

Por essas e outras, ninguém cogita a hipótese de João Gilberto, hoje com 87 anos, voltar aos palcos ou aos estúdios.

Seu mais recente show – ou concerto, como ele prefere chamar – foi em 2008, por ocasião dos 50 anos da bossa nova. A turnê passou por Rio, Salvador e São Paulo e chegou ao famoso Carnegie Hall, em Nova York (EUA).

Já seu último álbum lançado no Brasil foi João Gilberto in Tokyo (Universal Music, 2004). “Devido à saúde fragilizada, acho praticamente impossível”, diz Tárik de Souza.

Ruy Castro assina embaixo. E faz uma ressalva: “O que mais lamento é que, nos últimos 30 anos, enquanto ele teve gás para gravar inúmeros discos, isso não foi feito”.

“Acho mais possível gravar um disco, talvez em casa mesmo, do que fazer um show”, afirma esperançoso Nelson Motta. Cravo Albin vai além. Para ele, errado seria permitir que um homem sempre tão exigente quanto João Gilberto se apresente ao público com a saúde debilitada ou grave material de qualidade duvidosa. “Se, por acaso, algum empresário sugerir um absurdo desses, temos que ser contra! Uma lenda como João Gilberto precisa ser protegida.”

BBC

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