Carlos Lima
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Ciências
Carlos Lima | Publicado em 20/04/2018 às 13:11:34

Chuva traz 800 milhões de vírus por metro quadrado

Chuva traz 800 milhões de vírus por metro quadrado Vírus e bactérias voltam à Terra através de tempestades de poeira e chuvas

Nas alturas das montanhas de Serra Nevada, Espanha, uma equipe internacional de pesquisadores instalou quatro baldes para coletar a chuva de vírus caindo do céu.

Os cientistas supõem que exista uma torrente de vírus circulando o planeta, acima dos sistemas climáticos da Terra, mas abaixo do nível das viagens aéreas. Pouco se sabe sobre esse reino, e é por isso que vários dos vírus coletados.

Eles calcularam que, todos os dias, cerca de 800 milhões de vírus despencam em cada metro quadrado do planeta. A maioria dos que roda pelo mundo é carregada no ar pelo spray marinho, e um número menor chega com as tempestades de poeira.

“Sem os efeitos da fricção com a superfície da Terra, pode-se viajar grandes distâncias e, assim, a viagem intercontinental é muito fácil. Não seria incomum encontrar vírus que saem da África sendo levadas para a América do Norte”, afirma Curtis Suttle, virologista marinho da Universidade da Colúmbia Britânica, Canadá.

O estudo de Suttle e colegas, publicado neste ano na revista científica “International Society of Microbial Ecology Journal”, foi o primeiro a contar o número de vírus caindo no solo. Porém, a pesquisa não foi projetada para estudar a gripe ou outras doenças, mas para compreender a “virosfera”, o mundo dos vírus no planeta.

Geralmente se supõe que os vírus originados no planeta acabam sendo levados para cima, mas alguns pesquisadores imaginam que os vírus possam se originar na atmosfera; um pequeno grupo de cientistas acredita que os vírus podem até vir do espaço sideral.

Qualquer que seja o caso, os vírus são, de longe, as entidades mais abundantes do planeta. Enquanto a equipe de Suttle encontrou centenas de milhões de vírus em um metro quadrado, dezenas de milhões de bactérias também foram contabilizadas no mesmo espaço.

Embora a maioria seja tido como agentes infecciosos, os vírus são muito mais do que isso. É difícil exagerar o papel central que eles desempenham no mundo: são essenciais a tudo, do nosso sistema imune ao microbioma dos intestinos , aos ecossistemas em terra e mar, à regulação do clima e à evolução de todas as espécies. Os vírus contêm uma ampla gama de genes desconhecidos – e os espalham a outras espécies.

No ano passado, três especialistas defenderam uma nova iniciativa para compreender melhor a ecologia viral. “Os vírus modulam a função e a evolução de todas as coisas vivas, mas até que ponto isso ocorre continua sendo um mistério”, escreveu Matthew B. Sullivan, da Universidade Estadual de Ohio, Joshua Weitz, do Instituto de Tecnologia da Geórgia, e Steven W. Wilhelm, da Universidade do Tennessee.

Embora sejam os maiores predadores do mundo microbiano, eles não têm a capacidade de se reproduzir e precisam dominar a célula do hospedeiro –a infecção– e utilizar seu maquinário para se replicar. O vírus injeta seu DNA no hospedeiro; às vezes esses genes novos são úteis para o hospedeiro e se tornam parte de seu genoma.

Pesquisadores identificaram recentemente um vírus antigo que inseriu seu DNA nos genomas de animais quadrúpedes que foram ancestrais humanos. Esse fragmento de código genético, chamado ARC, faz parte do sistema nervoso dos humanos modernos e desempenha um papel na consciência humana –comunicação nervosa, formação da memória e raciocínio elevado. Entre 40% e 80% do genoma humano podem estar ligados a invasões virais ancestrais.

Os vírus e suas presas também desempenham grandes papéis nos ecossistemas do mundo. Muita pesquisa é voltada a decompor seus processos para que seja possível compreender como o planeta funciona.

Se pudéssemos pesar todo o material vivo nos oceanos, 95% dele são coisas que não conseguimos ver, e elas são responsáveis por fornecer metade do oxigênio do planeta , explica Suttle.

Em experiências de laboratório, Suttle filtrou vírus da água marinha, mas deixou suas presas, as bactérias. Quando isso acontece, o plâncton na água para de crescer, pois, quando o vírus infecta e elimina uma espécie de micróbio, eles liberam nutrientes, tais como nitrogênio, que alimentam outras bactérias. À medida que o plâncton cresce, ele absorve dióxido de carbono e gera oxigênio.

Os vírus ajudam a manter os ecossistemas em equilíbrio modificando a composição das comunidades microbianas. Por exemplo, enquanto algas tóxicas se espalham no oceano, elas são contidas por um vírus que as ataca e as leva a eclodir e morrer, finalizando o surto em apenas um dia.

Quando espécies desaparecem, as mudanças podem ecoar pelo ecossistema. Um exemplo clássico é a peste bovina, uma doença viral.

O exército italiano levou algumas cabeças de gado para o norte africano e, em 1887, o vírus se espalhou pelo continente, matando uma ampla gama de ungulados de casco fendido, da Eritreia à África do Sul –em alguns casos, exterminando 95% dos rebanhos.

“A peste infectou antílopes, gnus e outros grandes animais que pastam em todo o ecossistema”, diz Peter Daszak, presidente da Ecohealth Alliance, que trabalha em um projeto global para catalogar vírus com probabilidade de passar de animais para humanos.

“O impacto não foi apenas nos animais, mas como eles são os principais consumidores do pasto e morreram em números elevados, a vegetação foi impactada, permitindo que as árvores crescessem onde as mudas teriam sido devoradas”,explica ele.

“As grandes acácias das planícies africanas têm todas a mesma idade e eram mudas quando a peste bovina atacou e a fauna selvagem morreu”, continua Daszak. Em outros lugares, menos pastoreio criou um habitat hospitaleiro para a mosca tsé-tsé, que carrega parasitas causadores da doença do sono.

“Esses tipos de mudanças ecológicas podem durar séculos e até mesmo milênios”, afirma.

Em conjunto com a seca, muitas pessoas morreram de fome à medida que a peste bovina se espalhava. Em 1891, um explorador estimou que dois terços do povo massai, dependente do gado, haviam morrido.

“Quase instantaneamente, a peste bovina levou embora a riqueza da África tropical”, escreveu John Reader em seu livro “Africa: A Biography of a Continent”.

Com vacinações intensivas, a peste bovina foi totalmente eliminada, não apenas da África, mas do mundo inteiro, em 2011.

E Suttle declara: “Os vírus não são nossos inimigos. Alguns tipos desagradáveis podem causar doenças, mas é importante reconhecer que eles e outros micróbios são parte integral do nosso ecossistema”.

Jim Robbins

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