Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 18/08/2019 às 11:03:00

Identidade contra classe? Um debate

Identidade contra classe? Um debate

Concordo que não há conciliação entre classe e identidade, o que NÃO significa dizer que não haja necessidade de se resolver questões “de identidade” dentro da classe trabalhadora. Tanto as questões que envolvem violências de todos os tipos, quando cometidas também por trabalhadores (e para isso um camarada nosso entende que “o problema só é resolúvel através de pressões, disputas e confrontos, incluindo os confrontos físicos, no interior desta classe”), mas também, e sobretudo, pela existência de explorações específicas de segmentos (“identidades”) dos trabalhadores, como foi indicado em uma nota do texto do turbante, que precisam ser superadas.

Essas duas linhas de enfrentamento — as violências internas à classe trabalhadora, os “negros dos negros” (negro aqui na acepção de escravizado); e a existência de mercados de trabalho com carnes mais baratas — são fundamentais para não jogarmos fora o bebê oprimido com a água suja do banho identitário. Concordam? Não é uma pergunta retórica, pois quando vejo uma associação quase automática entre o nacionalismo da extrema-direita europeia (que faz vídeos como este aqui) e os nossos identitários de cá, que estão ao lado dos oprimidos de lá (e do multiculturalismo), parece que estamos sim fazendo pouco caso da existência dos dois problemas apontados acima: o que é interno à classe e o que é oportunismo dos capitalistas.

Nos baseamos em uma análise que mostra a tendência desses movimentos de oprimidos “anti-sistema” de se dirigirem para a direita, destino dos judeus de Israel, dos rastafaris, do grupo gay da Bahia, de lideranças como Milo Yiannopoulos, Florian Philippot, Eduard Limonov e Pim Fortuyn, etc., mas isso não resolve nada em termos de intervenção (des)construtiva nas duas lutas. Afinal as identidades oprimidas (e por vezes duplamente exploradas) também existem a partir de lutas, e a maioria destas conta e deve continuar contando com uma presença significativa da ala esquerda dos trabalhadores.

Contra esse duplo aspecto, e deixando de lado o caráter excludente de algumas formas de luta, bem como seu horizonte reformista dominante, não é tarefa nossa trabalhar essas pautas numa perspectiva classista e anticapitalista?

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CAMARADA 2: Aproveito uma brecha no trabalho para deixar meu pitaco.

Há uma distinção entre a diversidade interna à classe trabalhadora e as questões de identidade.

Nos processos de formação da classe trabalhadora é evidente que a formação social de cada tempo e lugar influencia. Para um trabalhador inglês do século XIX é evidente que um trabalhador irlandês é um seu inferior, da mesma forma que um trabalhador russo da mesma época via um trabalhador polonês de modo semelhante, e por aí vai. Na mesma época, para um trabalhador escravizado nascido no Brasil um outro trabalhador escravizado recém-sequestrado de seu lugar de origem na África era seu inferior, sem contar ainda as diversas rivalidades inter-étnicas e as tensas relações entre escravizados e libertos, ou ainda entre os “brancos da terra” e os negros, ou entre todos estes e as camadas superiores da sociedade; toda esta complexidade foi portada para o mercado de trabalho livre, gerando diversas formas e modalidades de racismo. Da mesma forma, o trabalho feminino sob o capitalismo, em casa ou fora dela, tem sido historicamente subvalorizado.

O que diferencia, então, esta diversidade interna à classe trabalhadora e as “identidades”? Na vertente socialista/comunista/anarquista, a classe trabalhadora era infundida de um projeto de vocação universalista e igualitarista, que tendia a reconhecer esta diversidade para retirar, extirpar dela qualquer possibilidade de fundamentar relações de opressão e exploração. Basta ver a produção literária, cultural e política destas três vertentes do movimento operário entre os séculos XIX e XX para constatá-lo.

A militância “identitária” reconhece igualmente a diversidade, e é dela que extrai seu fundamento; mas ao invés de tentar encontrar algum elemento unificador, como era o caso do projeto político socialista/comunista/anarquista em sua vocação universalista e igualitarista, tal militância mantém as “identidades” apartadas entre si, afirmando-se cada qual autonomamente em relação às outras. Há nisto o enorme risco do solipsismo identitário, muito bem aproveitado pela direita.

O ponto máximo ao qual a militância “identitária” consegue chegar com esse quadro teórico é o conceito de “interseccionalidade”, segundo o qual as diferentes opressões sobrepõem-se, uma reforçando a outra. Ora, a meu ver, isto não é outra coisa senão o que os velhos marxistas chamam de “formação social”, ou seja, a sobreposição histórico-concreta de vários modos de produção sob a hegemonia de um deles; a substituição operada pela teoria da “interseccionalidade” sobre este modelo lógico está exatamente em trocar “modo de produção” por “opressão”. E não é de estranhar uma tal homologia, na medida em que a noção de “formação social” surge em meio ao marxismo estruturalista francês e a noção de “interseccionalidade” surge em meio à intelectualidade militante influenciada pelo pós-estruturalismo francês; a crítica pós-estruturalista ao estruturalismo, conquanto ataque-o em inúmeros pontos, ainda retém dele várias figuras e conceitos homólogos, empresta-os sub-repticiamente, e assim as contradições entre ideologias mostram-se menos contraditórias do que realmente aparentam ser. É a partir dessa linha de pensamento, por exemplo, que feministas “identitárias” e “interseccionais” compreendem os cruzamentos entre machismo, racismo, exploração econômica etc., mas centram-se na opressão contra as mulheres; que o movimento negro “identitário” e “interseccional” faça o mesmo, tendo como foco a opressão contra os negros; que o movimento LGBT “identitário” e “interseccional” proceda de igual modo etc. A sobreposição entre opressões nos casos histórico-concretos é reconhecida pelo “interseccionalismo” sem maiores problemas, mas cada qual “defende seu peixe” a partir de seu “lugar de fala”.

A meu ver, o que deve servir como critério distintivo entre aquilo que devemos combater e aquilo que devemos apoiar está na relação com o projeto universalista e igualitário a que me referi anteriormente: apoiar o que contribui, combater o que atrapalha. O resto é acessório.

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CAMARADA 3: Entendo a distinção fundamental em termos que costumam aparecer confusos em vários debates sobre o assunto. As desigualdades internas que fraturam a classe trabalhadora devem ser combatidas pelos revolucionários. Mas de que forma se dá esse enfrentamento?

O identitarismo — isto é, a política que afirma e reforça identidades — se apresenta como uma resposta a esse problema das desigualdades. No entanto, não só é uma resposta ineficiente, já que não consegue resolver o problema, como é pior: termina por ser reacionária. A afirmação da identidade do polo oprimido traz a promessa de destruir a relação de opressão, porém acaba reforçando-a, pois o que antes eram desigualdades passam a aparecer cristalizados como diferenças. Ao invés de se superar as fraturas num movimento que aponte para o universal (a reconstituição da classe, igualitarizante), o efeito é aprofundar essas fraturas, quando não criar novas. Nesse sentido, para mim pouco importa se o identitarismo é usado pela direita ou pela esquerda; ambos são igualmente nocivos e, aliás, se retroalimentam e se merecem — Fernando Holiday e Sâmia Bonfim são dois lados da mesma moeda.

Esse “identitarismo” do qual hoje falamos é um fenômeno novo, ou já aparecia em outras épocas? É evidente que as fraturas da classe trabalhadora não são de agora, mas acompanharam toda história do capitalismo — sendo talvez imprescindível a este modo de produção a existência de desigualdades desse tipo, ainda que suas colorações possam variar ao longo do tempo. No entanto, a forma como as lutas da classe enfrentaram esse problema foi mudando ao longo dos tempos — comparemos, por exemplo, as lutas das trabalhadoras na Revolução Russa, os Panteras Negras e o que vemos hoje. Hoje podemos analisar experiências passadas e encontrar elementos identitários, mas, no entanto, seriam já os predominantes? A diferença, a meu ver, é que hoje o identitarismo aparece como uma tendência (“parte da ideologia de nosso tempo”, me disse outro dia um camarada). Nesse sentido, temos que localizá-lo historicamente — talvez a partir da derrota das lutas revolucionárias das décadas de 1960-70, e sua recuperação invertida pelos mecanismos da mais-valia relativa.

Se podemos estabelecer algum paralelo ao identitarismo de hoje, talvez uma boa medida seja o nacionalismo dos séculos XIX e XX. Ainda que muitas lutas da classe tenham estado envoltas por ele, é verdade que jamais poderiam realizar seu potencial revolucionário nos marcos nacionais. O nacionalismo sempre foi, nesse sentido, também um entrave; quando não simplesmente reacionário, colocando os trabalhadores de diferentes nações uns contra os outros. Em algum texto recente, um camarada nosso ponderou que, sem a base econômica que os sustara outrora, os nacionalismos hoje perderiam lugar para o identitarismo. Ou então se cruzam… — ou, formulando melhor, talvez à luz das questões contemporâneas, o nacionalismo tenha se tornado mais um dos identitarismos. Talvez seja avançar demais a reflexão, mas fico pensando como é caduco todo debate travado por certo campo da esquerda de crítica ao “projeto democrático popular” sem levar em conta tais questões, e como é em muito esse identitarismo que tende a cumprir no próximo período o papel de reorganizar ideologicamente a esquerda da conciliação (ou “a socialdemocracia”, chame como quiser).

Entendo que estamos há anos tentando avançar nessas formulações, no entanto esse caminho não é linear, nem simples. Fomos chegando a partir da crítica de tendências nocivas que enxergávamos nas lutas, tentando localizar mais precisamente os alvos (basta ver como fomos mudando os termos: “feminismo excludente”, “multiculturalismo”, “identitarismo”…), para definir mais adequadamente o problema. A elaboração, entretanto, só vai avançando conforme os processos reais de luta forem se desenrolando. Sempre fomos atravessados pela angústia de fazer uma crítica negativa sem propor uma solução para esses problemas. Entre nós, acredito termos a tranquilidade de que não precisamos ser “propositivos”; mas, em termos da ação política, o que significa afirmar isso? Ora, se entendemos que é a própria luta da classe que coloca a questão, então temos o caminho para enfrentar esta angústia.

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CAMARADA 2: Acredito que a noção de “tradições inventadas”, inventada por Hobsbawn, não seja estranha entre nós: para ele, nas lutas pela formação dos Estados-nação, foram inventadas diversas tradições que ou bem eram irrelevantes, ou de fato nunca existiram. Exemplo clássico é a conhecida afirmação de Massimo Taparelli, marquês de Azeglio: “L’Italia è fatta. Restano da fare gli italiani” (“A Itália está feita. Resta-nos fazer os italianos”).

O identitarismo se relaciona com o nacionalismo ao apoiar-se igualmente em tradições inventadas. Veja-se, por exemplo, o caso da identidade occitana francesa: o principal esteio desta identidade são a língua occitana — falada hoje por cerca de 100 mil pessoas, francamente minoritária mesmo na província da Occitânia, mas tida como importante porque lá pelos séculos XI e XII foi uma das primeiras a se separar do latim — e a histórica separação, que data dos tempos romanos, entre a região da França que faz fronteira com a Espanha (Gallia Aquitania) e a região centro-norte (Gallia Celtica). Ora, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento histórico sobre a formação da França enquanto Estado-nação sabe que não apenas todos os gauleses haviam perdido qualquer identidade própria na Antiguidade tardia, tendo-se misturado com os romanos para formar a cultura galo-romana, como também a língua occitana não tem nada a ver com a antiga língua aquitana, que serviu de substrato apenas e tão-somente para o gascão. A língua occitana permaneceu como pura curiosidade acadêmica entre os séculos XIII e XIX. Entretanto, o nacionalismo occitano reivindica a herança destes dois elementos para afirmar-se como “colônia interna” da região centro-norte da França. Diga-se de passagem que o Partido Occitano, ponta-de-lança político deste identitarismo, não está sozinho nas suas reclamações contra Paris, pois faz parte da federação Regiões e Povos Solidários junto com outros tantos partidos tidos como sendo, em sua maioria, partidos de centro-esquerda. Não por acaso, Hobsbawn iguala todos estes identitarismos ao nacionalismo burguês do século XIX, embora eu adicione aí outro aspecto: o nacionalismo burguês, o nacionalismo que resultou nos Estados-nação tal como os conhecemos, tem como corolário o colonialismo, o imperialismo, a partilha da África, a espoliação da Ásia etc., porque é a face, por assim dizer, de um nacionalismo “vitorioso”, de um nacionalismo empregue exitosamente por determinada classe social para mobilizar a sociedade em prol de seus interesses imediatos; o identitarismo que se lhe assemelha é um nacionalismo ressentido, um nacionalismo de derrotados, um nacionalismo de quem herda a tradição dos perdedores nos processos de formação dos Estados-nação entre os séculos XVI e XIX ou aproveita-as como combustível ideológico para a defesa — em favor próprio, pensando em termos de relações entre classes sociais — de tal ou qual medida autonomista ou independentista, e que por isto precisa ser analisado caso a caso (p. ex., as relações entre frações das classes capitalistas norte-irlandesas e britânicas no caso do lealismo do Ulster; o nacionalismo galês e córnico; etc.).

Mas há que reconhecer outra distinção além daquela que mencionei em mensagem anterior. Sob o manto do “identitarismo” convivem várias coisas. É um saco de gatos, tanto quanto o “autonomismo”.

Este identitarismo a que me referi acima não é outra coisa senão o velho regionalismo, conhecidíssimo de nós todos aqui no Brasil seja pela sua vertente reacionária (movimentos como o separatismo gaúcho ou o “São Paulo é meu país”), seja pela sua vertente pretensamente progressista (todos os movimentos que afirmam a Amazônia ou o Nordeste como “colônias internas” dos estados do Sul e Sudeste e pretendem combater tal status).

Outra coisa é o identitarismo pautado por características corpóreas. Não pensem que a coisa se encerra com o gênero, com a sexualidade ou com a “raça”. Estes foram apenas os primeiros. Há identitarismos ligados à idade, ao peso, ao transtorno psiquiátrico etc. O problema é de outro nível aqui. Trata-se de transformar certas identidades sociais em fundamento para a ação política. Diferentemente do identitarismo de primeiro tipo a que me referi, é impossível dizer que não existem as opressões contra as mulheres, contra os negros, contra LGBTs, contra jovens (em determinados contextos), contra idosos, contra gordos, contra loucos etc., basta olhar ao redor.

O problema está em partir destes fatos evidentes para construir toda uma teoria justificadora da afirmação e reforço positivo destas identidades, numa tentativa de “resgatar a autoestima” de quem sofre tais opressões. Isto levanta duas questões. Em primeiro lugar, um tal fundamento reflete a extremação da política de transformação de questões pessoais em questões políticas; em segundo lugar, transforma o narcisismo de grupo e o narcisismo das pequenas diferenças — os dois conceitos, especialmente o último, são de autoria de Sigmund Freud, constantes nos livros “Introdução ao narcisismo”, “O Mal-Estar na Civilização” e “Psicologia das massas e análise do eu”; sobre o mesmo assunto, recomenda-se também a leitura de “Massa e Poder”, de Elias Canetti — em fundamentos da política, com todos os problemas implícitos no próprio narcisismo.

Isto para somar outros elementos ao debate.

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CAMARADA 3: Volto a indicar um texto que cheguei a enviar antes: “As ciladas da diferença”, de Antonio Flávio Pierucci, um clássico sobre a questão.

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CAMARADA 2: Gostaria de ressaltar outro aspecto curioso sobre esta questão, de que não tratei em oportunidades anteriores.

Entendo que toda ideologia é um retrato congelado de práticas preexistentes. Retira-se de determinadas relações sociais bastante concretas certas representações mentais, simbólicas, linguísticas capazes de “congelar” estas práticas num sistema estanque, e este sistema assim “congelado” é erigido em critério de percepção e compreensão da prática.

Vistas as coisas por esta perspectiva, a adoção da teoria da identidade social como fundamento ideológico das lutas identitárias representa um elemento a mais da fragmentação social extremada que vivemos na atual fase do capitalismo — e assim, mesmo a crítica do capitalismo, teórica ou prática, passa a ser tributária das relações sociais que critica, o que, de certa forma, é inevitável. Acompanhem o raciocínio.

A luta contra o capitalismo surge na medida em que os trabalhadores não apenas se percebem mentalmente enquanto integrantes de uma mesma classe social, mas também enquanto classe social oposta, na prática, às classes sociais que os exploram. Às primeiras manifestações de crítica prática dos trabalhadores nos dois primeiros terços do século XIX — quebra de máquinas, primeiras greves, revoltas etc. — correspondem as primeiras manifestações de crítica teórica ao capitalismo; não por acaso, elas orbitam em torno da Economia enquanto expressão teórica, ideológica das relações capitalistas. A Economia, em especial em seus primórdios, centrou-se na teoria do valor-trabalho e numa visão de totalidade da sociedade tanto em suas relações com a natureza quanto nas relações entre instituições sociais (mercados, países, organização do trabalho etc.); tratava-se, tanto em suas formulações iniciais quanto nas críticas a tais formulações, de expressões teóricas de projetos políticos globais de uma classe contra os projetos políticos globais de outra classe.

Na medida em que as formas de exploração dos trabalhadores foram sendo refinadas e multiplicadas pelos capitalistas ao longo dos dois primeiros terços do século XX, multiplicaram-se também as teorias e ideologias definidoras, justificadoras e legitimadoras desta exploração — e igualmente a crítica, prática e teórica, a estas teorias e ideologias. Ao planejamento econômico na macroeconomia e à “administração científica do trabalho” ao nível das empresas correspondem as lutas pela gestão operária da produção (operação-tartaruga, sabotagens, absenteísmo etc.) e as teorias da autogestão; ao planejamento urbano correspondem a ocupação de terras e prédios, as greves de inquilinos, as lutas de bairro por infraestruturas urbanas e as teorias críticas do urbanismo (escola francesa de sociologia urbana, advocacy planning, situacionistas etc.); à formação e consolidação da indústria cultural e à institucionalização de lazeres contrapuseram-se tanto as inúmeras contraculturas quanto as críticas a uma sociedade, digamos, “administrada”; e por aí vai. A especialização das disciplinas (Economia, Sociologia, Antropologia, Administração etc.), como que uma divisão do trabalho intelectual voltado à compreensão científica das relações entre sociedade e natureza e entre as instituições sociais com a finalidade de maximizar a exploração econômica, instaurou uma ruptura com aquele confronto entre projetos políticos globais de classes sociais distintas e antagônicas: um tal conflito, ainda que não superado, era visto agora pela ótica da teoria e da ideologia de forma fragmentada, parcelada, compartimentada.

A recuperação capitalista das lutas do ciclo que se costuma dizer inaugurado em 1968 instaura todo o processo de fragmentação prática e ideológica dos trabalhadores. Para ilustrar esta questão, lembro-me, muito particularmente, de um livro chamado “Manual de Guerrilha Trabalhista”, publicado no Brasil nos anos 1980 e voltado especialmente para administradores de empresa. A certa altura o autor, num tom muito bem-humorado (o livro foi escrito por um especialista em negociação trabalhista, Júlio Lobos, como resumo humorístico de um livro ainda maior, este sério, que escrevera anos antes), ensina como furar um piquete. Uma das técnicas: contratar umas vinte pessoas e vesti-las com camisas do Corinthians, outras vinte com camisas do Palmeiras e ainda outras vinte com camisas do São Paulo, fazê-las passar pela frente do piquete e simular uma briga de torcida, porque, dizia o autor, era certo que havia corintianos, palmeirenses e são-paulinos no piquete, e que eles ou bem entrariam na briga, desfazendo assim o piquete, ou bem brigariam com seus adversários futebolísticos dentro do próprio piquete, desfazendo-o igualmente. Outra das técnicas: bem tarde da noite, mandar alguém passar no piquete gritando “Ô Antônio!” várias vezes, porque sempre tem um Antônio (ou um José, ou um João, ou qualquer nome muito comum entre trabalhadores) nos piquetes; chamada a atenção dos antônios, dos josés, dos joões, destes cujo nome estava sendo chamado, o passo seguinte consistia simplesmente em gritar “Coooornoooo!” várias vezes, para insinuar aos piqueteiros com os nomes assinalados que, nos quadros de relações machistas de posse do homem sobre as mulheres com quem haviam constituído família, que sua “honra” estava sendo “maculada”, e que eles, nos mesmos quadros do machismo, precisariam sair do piquete urgentemente para “pegar os dois no flagra” e “lavar sua honra”.

Vistas as coisas por esta perspectiva, não é de estranhar que a teoria crítica ao capitalismo tenha sido deslocada progressivamente para disciplinas que ou são parcelares pela própria natureza de seus objetos, ou que, como no caso da teoria das identidades sociais, descem das instituições sociais — impessoais, totalizantes e coletivas por definição — ao último nível da fragmentação social, o indivíduo. Não é por acaso que na atual fase do capitalismo a teoria das identidades sociais, cujo fundamento primeiro se encontra na Psicologia Social (teoria do indivíduo, portanto), estejam em voga não apenas em meio à produção teórica, mas também na propaganda, no marketing focado, no uso extensivo de big data para a microssegmentação de “públicos-alvo” (“alvos” de tudo, de “políticas públicas” a sapatos, de “programas sociais” a propaganda eleitoral etc.)… E a crítica teórica e prática ao capitalismo, mais especificamente à dissolução dos indivíduos em meio à administração das coisas pelos gestores, vividas especialmente durante os Trinta Gloriosos, ao invés de resultar em concepções renovadas daquele projeto universalista e igualitarista de tempos atrás, tenha resultado na exacerbação do indivíduo, de suas particularidades, de sua singularidade frente a outras tantas singularidades (termo mal-emprestado da Matemática e das ciências da natureza, que nelas significa um ponto no qual um dado objeto matemático não é definido, ou um ponto de um conjunto excepcional onde ele não é “bem comportado” de alguma maneira particular).

A crítica ao capitalismo me parece ter evoluído, assim, da construção coletiva de projetos alternativos de sociedade pautados em noções outras de universalidade e de igualdade para a expressão individual de singularidades. Não que esta evolução tenha resultado na supressão das formas anteriores de crítica, muito pelo contrário: elas convivem em tensão, na medida em que seus fundamentos são muito diversos. Daí, por exemplo, a crítica de certos marxismos ortodoxos à integração no campo anticapitalista de outras lutas que não aquelas centradas no trabalho, ou mais precisamente no trabalho produtivo; daí a recorrência do sectarismo em certos campos do feminismo, do movimento negro, do movimento LGBT etc.

A meu ver, como ressaltei em outro momento, o foco é outro. Precisamos ter abertura suficiente para entender em que medida as lutas das mulheres, dos negros, dos LGBT etc. concorrem para aquele tipo de projeto universalista e igualitarista a que me referi anteriormente.

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CAMARADA 4: Belo debate, só discordo de uma colocação: não acho que a crítica identitária tenha a capacidade de virar uma “nova conciliação” como o “nacional popular” que critica, precisamente pela pulverização que leva a cabo. Pela lógica da coisa, seu fim político necessário é a impossibilidade de qualquer tipo de pacto. Por sua lógica interna, só pode levar à destruição mútua. Nesse sentido, um exemplo que falta no argumento daquele que fala das “identidades nacionais forjadas” são os Hútus e Tútsis de Ruanda…

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CAMARADA 2: Quanto aos Hútus e Tútsis, preferi não entrar em polêmicas, pois a antropologia genética tem debatido muito seriamente diferenças genômicas significativas entre ambos, sugerindo origens diferentes; havendo ou não diferenças neste âmbito, o fato, neste caso, é que os alemães e depois os belgas apoiaram a dominação da minoria Tútsi sobre a maioria Hútu (e sobre os ainda mais minoritários Twa) na região dos Grandes Lagos para criar conflitos interétnicos cujos resultados vemos até hoje.

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CAMARADA 1: Gosto bastante quando vocês puxam questões das formações pré-capitalistas ou do engendramento do capitalismo. Tenho pesquisado sobre os processos ideológicos em torno da Conjuração Baiana (1798) e me chama a atenção a distância entre um discurso que afirma/politiza a diferença e ao mesmo tempo defende a igualdade (central em 1798 e em outros movimentos baianos da primeira metade do século XIX) e um discurso que afirma a diferença oprimida e defende essa diferença, como certo “mulatismo patriótico” que surgiu com crise da Independência, e que propunha uma integração política sócio-racial nos quadros daquela mesma formação escravista — isso se manifestou na época da regência em gritos como “D.Pedro II é cabra como nós!“ e na defesa de uma desracialização do escravismo, que não questionava a instituição em si, mas apena a identidade entre negro e escrav(izad)o.

Sinto falta nesse debate de qualquer menção a um tema bem explorado pelos colegas do Anti-Valor/Gorz/Kurz: a luta dos trabalhadores contra a identidade de trabalhador. E a sua contraparte, o fascismo do “quem trabalha não suja as suas mãos”, o identitarismo da classe trabalhadora como sujeito moralmente superior. Essa discussão toca a caracterização do proletariado como herói negativo pelo jovem Marx: espécie de Macunaíma, um sujeito sem caráter, sem características positivas para além de sua luta contra o regime de extorsão.

E claro, sinto falta de resposta às questões que levanto na mensagem inicial. Não me sinto “contemplado” pelas discussões que vieram na sequência, ainda que sejam excelentes e importantes para uma limpeza de terreno.

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CAMARADA 5: Tomei cuidado ao entrar no debate pois ele parece partir de uma afirmação contraditória que não é resolvida e acaba se constituindo como uma premissa: a de que não há conciliação entre classe e identidade, mas que ao mesmo tempo, o processo de exploração social também se sustenta pelo critério da identidade. Isto é totalmente contraditório. Desse modo, creio, nosso debate possui dois problemas: 1. Uma confusão entre identidade e identitarismo; 2. Uma noção de classe (e luta de classes) tão abstrata quanto o conceito de identidade. Apesar das lutas por reconhecimento partirem da ideia de opressão (e está ai o real problema), ela não necessariamente recai no identitarismo. Por exemplo, a reivindicação de uma identidade subversiva não necessariamente se dá por critérios “biológicos” ou “naturais”, mas justamente enquanto uma possibilidade de construção social. Basta ver um dos seus fundamentos teóricos, a queer theory. Agora por outro lado, creio que pautar o debate a partir de categorias como “diversidade” ou “fraturas” dentro da classe trabalhadora é recair no mesmo problema da reivindicação de uma identidade, uma reivindicação de um “eu” ou um “nós” (e dai o problema não é necessariamente o individualismo). Acho que o ponto é que, uma ideia básica no marxismo é o conceito de exploração, de relações sociais de produção, que constituem o capital, portanto, não entendo, por que ainda tratamos das inúmeras desigualdades a partir da ideia de opressão? Dessa maneira, apenas importamos um problema tal como nos é apresentado, não o enfrentamos a partir de um outro critério explicativo.

É certo que determinadas formas de dominação/desigualdades não emergem com o capitalismo, e daí muita gente afirma a distinção entre capitalismo e patriarcardo, por exemplo. Se nos propusermos a tratar as desigualdades de gênero ou raça necessariamente como critério de identidade, creio que essa distinção seja suficiente.

Agora, se entendermos que essas desigualdades estão diretamente ligadas ao processo de exploração social, ela não pode ser afirmada como uma “opressão”, temos que ampliar os horizontes e entender como o capitalismo integra esses marcadores em sua própria força motriz, que por sua vez, não vive só de trabalho. Acho que um caminho pouco explorado e que tende a ser produtivo é começar a se defrontar com a questão do reconhecimento a partir do conceito de exploração social. Não tenho conhecimento de uma vertente da teoria do reconhecimento que não esteja calcada na ideia de opressão.

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CAMARADA 1: São oportunas algumas observações da Camarada 5, em especial o que ela considera “totalmente contraditório”. Mas não creio que pudesse ser diferente. As classes possuem uma realidade totalmente relacional, não possuem histórias em separado e podem ser categorizadas de mais de uma forma — não por acaso esse é um debate interminável.

Vejamos os processos revolucionários. Como observou o Zizek, as revoluções parecem sempre deslocadas, ocorrendo “no lugar errado”, “no momento errado”, em geral antes que suas condições históricas “estejam prontas”. Mas tem mais um “detalhe” aí, importante para a nossa discussão: as classes que se unem e se formam politicamente nestes processos estão longe de constituir um conjunto não contraditório e não atravessado por questões nacionais e de identidade. Para ir diretamente ao ponto: a fragilidade política do proletariado nas revoluções tem sido apenas uma contingência história ou é algo que diz respeito ao próprio ser das classes trabalhadoras na luta de classes, sempre atravessado por outros fatores? Novamente, como combater o identitarismo e o nacionalismo sem fazer pouco caso das opressões experimentadas pelos trabalhadores?

A troca de correspondências que apresentamos abaixo surgiu a partir da notícia do lançamento do livro A esquerda identitária contra a classe na França, com textos de João Bernardo, Loren Goldner e Adolph Reed Jr. Houve neste livro uma compilação de textos de João Bernardo (que podem ser lidos aquiaqui e aqui), dentre eles um comentário ao artigo Pride: Uma luta que uniu identidade e classe de autoria de Ju e Simone. Foi principalmente a partir da questão da existência de contradição entre lutas identitárias e lutas classistas que os camaradas teceram seus comentários.

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