Carlos Lima
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Ciências
Carlos Lima | Publicado em 30/06/2017 às 11:10:16

Mudança climática provocará uma explosão de vida na Antártida

Mudança climática provocará uma explosão de vida na Antártida Colônias de pinguins-de-adélia, com a da imagem, serão prejudicadas pelo derretimento de gelo. J. LEE/AUSTRALIAN ANTARCTIC DIVISION

A mudança climática provocará o derretimento de amplas zonas da Antártida. Como aconteceu em outras regiões e épocas, nos palcos do degelo haverá uma explosão de vida. Segundo um estudo sobre o futuro do continente branco, porém, a biodiversidade poderia sofrer com o aquecimento: as espécies antárticas são tão únicas e endêmicas que sucumbirão ao avanço da fauna e da flora invasoras que se adaptarem melhor a tempos mais cálidos.

Dos 14 milhões de quilômetros quadrados (27 vezes o tamanho da Espanha) de extensão da Antártida, apenas 0,5% é livre de gelo. No entanto, esta pequena porção de terra, quase toda concentrada na costa, abriga muita vida. As zonas sem vegetação são aproveitadas por aves marinhas, pinguins e mamíferos marinhospara a formação de grandes colônias.

Mas também existem áreas – oásis no deserto gelado – que exibem verde em forma de musgo, líquen, fungos e algas. Há inclusive espécies de plantas vasculares. Essas ilhas de vida são habitadas por muitas espécies de microfauna, que vão de pequenos artrópodes até bactérias, passando por estranhas criaturas como os tardigrados (ursos d’água) e os rotíferos.

Até o final do século, essas ilhas de vida serão ampliados em cerca de 17.600 quilômetros quadrados. Esse é o principal dado de um estudo, realizado por pesquisadores da missão antártica da Austrália e de várias universidades desse país, publicado recentemente na revista Nature. E, como já foi observado em regiões como o Ártico e os Alpes, onde o gelo se retira a vida avança.

“Embora a Antártida seja um continente enorme, a maior parte (capa de gelo, geleiras, neve) não é um habitat apto para plantas e animais”, diz a pesquisadora principal do estudo, Jasmine Lee, da Universidade Queensland (Austrália). “Por isso, um aumento de 17.000 km2 significa um aumento de 25% com relação ao total habitável atualmente. É muito mais habitat disponível para as diferentes espécies.”

Em 2100, haverá 17.000 km2 a mais de terra livre de gelo, a maioria na Península Antártica.

Até agora, quase todos os estudos sobre o impacto da mudança climáticana Antártida tinham focado nas consequências do degelo para todos, menos para a vida do continente branco. Em particular, o interesse era na incidência do aquecimento global sobre o clima regional, a circulação marinha e o aumento do nível do mar. Nesta ocasião, Lee e seus colegas avaliaram a evolução do degelo antártico e sua possível consequência: a expansão da vida pelas terras livres de gelo. Para isso, propuseram dois cenários.

Num deles, cumpre-se o Acordo de Paris e são reduzidas as emissões globais de gás carbônico, limitando-se o aumento de temperatura a menos de 2 graus centígrados. No outro cenário, mais extremo, as emissões continuam e a temperatura global sobe acima da meta de Paris. Nos dois casos haverá degelo. Na pior hipótese, haverá zonas da Antártida, como a Península Ocidental, onde as áreas livres de gelo serão triplicadas. Isso fará com que algumas ilhas de terra cresçam e outras, hoje separadas, se juntem.

O aumento da radiação solar e a disponibilidade de água em estado líquido farão o resto: as espécies que agora se limitam a estreitas faixas costeiras poderão avançar rumo ao interior. Em princípio, isso deveria ser bom para a biodiversidade. Na Antártida, contudo, a lógica da vida é outra.

“Não sabemos ao certo qual será o impacto global sobre a biodiversidade. Ainda que, sem dúvida, haverá ganhadores e perdedores”, afirma Lee. O que já foi observado em outras regiões permite pensar que muitas espécies expandirão seu alcance geográfico. “A Antártida é hoje protegida pela dureza de seu clima e por uma climatologia extrema, que impede o estabelecimento de espécies não nativas”, diz a pesquisadora australiana.

“Com a mudança climática, será mais fácil para essas espécies se estabelecer.” Além disso, a conexão crescente entre as ilhas de terra permitirá o deslocamento entre elas. “Muitas espécies invasoras são generalistas, e é provável que tomem o lugar das espécies nativas”, conclui Lee.

Algumas dessas mudanças já estão ocorrendo. Por exemplo, a distribuição geográfica das duas espécies de pinguins antárticos, o pinguim-imperador e o pinguim-de-adélia, está se contraindo em direção ao polo à medida que o gelo se retira. Entre os ganhadores, parecem estar as duas únicas plantas vasculares que aguantam o clima extremo.

Tanto a Colobanthus quitensis (mais conhecida como “erva-pilosa-antártica”) como a Deschampsia antárctica estão se expandindo para o sul da Península Antártica. Mas isso também está sendo feito pela Poa annua, uma espécie de planta de outras latitudes que deslocou espécies autóctones nas ilhas mais próximas ao continente branco.

Para o britânico Matt Amesbury, membro da missão British Antarctic Survey, o estudo de Lee e seus colegas mostra a necessidade de intensificar a vigilância para proteger a frágil biodiversidade da Antártida. Há apenas um mês, este pesquisador publicou um trabalho destacando o avanço progressivo do verde no continente antártico.

Para Amesbury, que não integrou a pesquisa, “devemos adotar um enfoque muito rigoroso para garantir espécies invasoras que não cheguem pela ação dos humanos.”

 

MIGUEL ÁNGEL CRIADO

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