Carlos Lima
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Ciências
Carlos Lima | Publicado em 15/03/2019 às 09:19:41

O último suspiro do jipe Opportunity.

O último suspiro do  jipe Opportunity. Ilustração mostra o jipe Opportunity em Marte — Foto: Nasa

Você se lembra do destino fatídico do jipe Opportunity da Nasa, não? Relembrando rapidamente, o Oppy, como era carinhosamente chamado, esteve em operação em Marte por quase 15 anos. Pousando em 25 de janeiro de 2004, o jipinho acompanhado de seu gêmeo Spirit, começou uma longa jornada de estudos do planeta vermelho.

Longa jornada tanto no sentido de distância, pois percorreu 45,16 km, quanto no sentido de duração da exploração, pois ele estava operacional até o meio do ano passado. O Oppy detém o recorde de distância percorrida para um jipe de exploração espacial, batendo o jipe lunar Lunokhod 2 que percorreu, guiado por controle remoto, 39 km em 1973. Só de curiosidade, a medalha de bronze pertence ao jipe da Apollo 17 que percorreu 35,7 km em 1972.

Seu irmão Spirit não durou nem metade disso, deixando de responder aos contatos da Terra em março de 2010, depois de ficar atolado definitivamente em um trecho de terreno mais fofo em 2009. Até então, o jipe já tinha percorrido 7,73 km, mas com o atolamento foi transformado em uma base fixa.

Ambos os jipes foram um tremendo sucesso de engenharia e um orgulho para a Nasa, pois sua missão inicial era de apenas 3 meses. Tudo bem que sempre tem um chorinho depois que expira o prazo para se cumprir a missão inicial, mas no caso dos jipes gêmeos isso excedeu a expectativa em pelo menos uma década.

O Oppy continuou sua jornada estudando o terreno, a atmosfera e até mesmo o subsolo marciano, com instrumentos para recolher amostras abaixo da superfície. A suíte de instrumentos ia desde câmeras digitais, até mesmo aparelhos de raios-X capazes de estudar em detalhes a composição física e química das amostras. Aliás, uma das diversões do jipe, por assim dizer, era fazer selfies. Com uma câmera na ponta de um braço robótico, o jipe fazia uma série de fotos compondo um mosaico e depois, na hora de compor a selfie, um software de tratamento de imagens retirava o braço das fotos e parecia que alguém em Marte tinha fotografado o jipe!

Mas no dia 10 junho de 2018 a NASA perdeu contato com o jipe.

Nessa época, uma tempestade de areia se espalhou pelo planeta inteiro, escurecendo boa parte da sua superfície. Além de escurecer, esfriou e isso matou o Opportunity.

Diferente do jipe Curiosity que usa baterias nucleares, tanto o Opportunity, quanto o Spirit utilizavam painéis solares para gerar eletricidade. Enquanto o Oppy sofria com a escuridão, o Curiosity continuou com suas atividades quase normais. É que era tanta areia em suspensão que algumas análises tiveram de ser adiadas para que as amostras não fossem contaminadas.

Mas o Opportunity não resistiu e parou de funcionar. A baixa luminosidade que atingia os painéis solares não era suficiente para recarregar as baterias de forma adequada. Um pouco de energia era fornecida, mas com o esfriamento da superfície, o jipe precisou acionar seus aquecedores internos de forma mais frequente e isso deve ter drenado o pouco que a bateria tinha para oferecer. Resultado, o jipe deixou de se comunicar com a Terra e no começo deste ano a Nasa declarou sua morte.

O jipe estava estacionado no local onde foi envolvido pela tempestade já tinha quase um mês efetuando suas pesquisas. Enquanto seus instrumentos analisavam as amostras, ele estava fazendo um mosaico dando uma panorâmica do Vale da Perseverança. Foi esse o último panorama do Opportunity que a Nasa divulgou essa semana.

Esta foto é apenas um pedaço deste panorama que deveria ser em 360 graus. Deveria.

Imagem feita pelo robô Opportunity — Foto: Nasa/JPL Caltech

 

Além de incompleto, você pode ver que no canto inferior esquerdo as fotos estão em preto e branco. Isso aconteceu porque o jipe não teve tempo de fazer as fotos nos filtros verde e violeta, para compor a foto colorida que seria adicionada ao mosaico.

Além disso, a NASA conseguiu recuperar as 3 últimas imagens enviadas pelo jipe.

Essas duas imagens são na verdade duas miniaturas de fotos obtidas com as duas câmeras do mastro do Opportunity. As duas foram apontadas para o Sol, que normalmente ofuscaria os dois detectores, mas com a tempestade em curso, apenas uma sombra bem no meio do detector pode ser vista. As fotos estão muito ampliadas, por isso estão tão distorcidas.

Imagem feita pelo robô Opportunity, da Nasa — Foto: Nasa

 

Assim estava o céu no último dia do Opportunity. Normalmente o jipe fazia uma prévia na forma de miniaturas para serem enviadas mais rapidamente e depois as repetia em alta resolução. Mas nesse caso as imagens finais nunca chegaram.

E esta é realmente a última foto tirada e enviada pelo jipe. A câmera também estava apontada para o Sol, mas nesse caso com o filtro para bloquear a luz. Como o Sol já estava bloqueado pela poeira, a imagem está completamente escura. Os pontinhos brancos são meramente ruído do detector.

Imagem do jipe Opportunity da Nasa — Foto: Nasa

 

Talvez o aspecto mais melancólico dessa imagem é o trecho final dela. A transmissão da imagem foi interrompida, muito provavelmente porque o computador do Opportunity deve ter entrado em modo de emergência para economizar energia e nunca mais acordou para retomar a transmissão.

As últimas imagens do Opportunity foram transmitidas para o Orbitador de Reconhecimento Marciano, MRO em inglês, para depois serem retransmitidas para o comando da missão. Só agora, depois de montar o panorama incompleto do lugar que viria a ser o destino final do jipe é que a NASA resolveu publica-las em seu site. Se você quiser conferir todas elas, dá uma passada por lá.

 Cassio Barbosa

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