Carlos Lima
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Religião
Carlos Lima | Publicado em 19/07/2017 às 17:31:08

“Para uma criança denunciar abusos, ela deve sentir que não será julgada”

“Para uma criança denunciar abusos, ela deve sentir que não será julgada” Phil Saviano, vítima de abusos sexuais por parte de religiosos EDU BAYER EL PAÍS

Mais uma vez uma denúncia de agressões sexuais dentro da Igreja; mais uma vez de casos que teriam supostamente ocorrido anos atrás e, de novo, com a suspeita de conivência institucionalizada manchando tudo. A notícia surgiu em 29 de junho: o responsável pelas finanças do Vaticano, o cardeal George Pell, foi acusado de vários abusos na Austrália, onde era sacerdote até que o Papa o chamou. É a primeira acusação com essas características que atinge a cúpula do Vaticano.

A história chegou à casa de Phil Saviano como uma bomba: Pell não está sendo investigado apenas pelos abusos, mas pelo encobrimento em massa de padres. Saviano é o homem que em Spotlight: Segredos Revelados, o filme sobre as agressões a crianças na Igreja de Boston, aparece na redação do The Boston Globe com uma caixa cheia de papéis e clama aos jornalistas que levem o caso a sério, que investiguem as múltiplas agressões contra crianças.

É o homem que mostra a eles onde está, na verdade, a manchete da notícia: no silêncio sistemático dentro da Igreja.

A foto de um menino louro que aparece no filme, nas mãos do ator, está em uma pasta em sua casa, nos arredores de Boston. A imagem é de meados dos anos 60, quando ele tinha 11 anos e ainda não ia a esses shows que o faziam voar. Foi naquela época que um sacerdote de Worcester, cidade nos arredores de Boston, onde Saviano cresceu com a família, começou a abusar dele. Tinha pânico de falar disso em casa porque sentia que, de alguma forma, o culpariam.

“Eu morava em uma cidade pequena e lá a respeitabilidade do sacerdote era imediatamente presumida. Aos 11, 12 ou 13 anos, nós o considerávamos o representante de Deus na Terra, por isso era tão difícil dizer não a ele quando ele te colocava em algo assim”, conta. “Pode parecer um comportamento um pouco obsceno ou o que for,mas você diz: como pode ser tão ruim se o padre me força a fazer isso? Aquilo era muito confuso para um menino”.

Ele não abriu a boca até o fim de 1992, quando contou ao Globe. Só depois disse ao pai, que então já era viúvo. Phil temia, como diz, que se falasse primeiro com o pai este o convenceria a calar e acabaria desistindo. Foi no dia seguinte à entrevista quando telefonou para o pai e contou o que tinha sofrido quando criança.

“Ele me perguntou para que eu tinha contado isso a um jornal depois de tantos anos. Sentia que eu criaria um escândalo na cidade. Eu disse a ele: sabe, quando era criança sempre temi contar isso a você porque pensava que iria me culpar. E você vê o que está fazendo agora?”.

Saviano – que enfrentou a poderosa Igreja de Boston, que criou sua própria organização de vítimas de abuso, que foi atrás dos jornais até que finalmente investigaram a afundo – só ficava paralisado por uma coisa, a rejeição do pai.

Há um paralelo entre a trama de Spotlight e a que esse homem de 63 anos recorda com a família. Entre sua primeira denúncia, que passou em brancas nuvens, e a grande investigação do jornal que revelou essa aberração sistemática, passaram 10 anos. São os mesmos que transcorreram até que o pai compreendeu e aceitou.

“Quando tudo explodiu em 2002 e o Globe começou a publicar as notícias”, diz, eles conversaram por telefone e o pai lhe disse: “Vejo que você tinha razão e queria dizer que estou orgulhoso de você”.

O interior da casa de Phil é cheio de cores, as cores das peças de arte e decoração tradicional mexicana que ele vende nos Estados Unidos. Sua empresa se chama Viva Oaxaca e em seu cartão de visita ele se apresenta como “proprietário, importador, aventureiro, viajante”. Com muito cuidado, algo chocante, guarda cartas do padre que despedaçou sua infância. “O padre Holley”, diz Phil. “Morreu em 2008”.

Foi preso no Novo México por outro caso e Saviano entrou em contato com ele anos atrás, quando denunciava os abusos. Ele queria que confessasse. “Sempre evitou me dar respostas diretas”, conta Saviano, mas na primeira carta “disse que se lembrava de mim, que eu era brilhante, que eu tinha uma personalidade excepcional, se queixava das condições na prisão…”.

Sua batalha judicial veio tarde demais. “Se meus pais tivessem me ensinado algo sobre como proteger meu corpo, pois até um padre pode falhar”, lamenta. Para que uma criança conte o que acontece, para que denuncie um abuso, diz ele, “você tem de criar um ambiente em que sintam que podem recorrer aos pais para dizer-lhes qualquer coisa e que não serão julgados, embora se trate de algo que lhes acontece na Igreja”.

Saviano luta agora com sua associação para mudar as leis e que se possa denunciar um agressor na idade adulta. “Em Nova York, por exemplo, você só pode fazê-lo até os 23 anos, e pela minha experiência sei que não se começa sequer a enfrentar esses fatos até se chegar aos 20…”. Spotlight, diz ele, deu um impulso à sua causa.

AMANDA MARS

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