Carlos Lima
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Educação
Carlos Lima | Publicado em 27/05/2019 às 11:28:52

Futuros professores listam os desafios que explicam queda no interesse pelo trabalho em sala de aula

Futuros professores listam os desafios que explicam queda no interesse pelo trabalho em sala de aula Estagiária de Pedagogia auxilia aluno em sala de aula: são 22 vagas iniciais abertas neste processo seletivo — Foto: PMSJC

Em 2018, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou o relatório “Políticas eficientes para Professores”, que apresentou um dado alarmante: apenas 2,4% dos jovens brasileiros de 15 anos querem se tornar professores. Esse mesmo percentual era de 7,5% há 10 anos.

Segundo o relatório, os jovens perderam a vontade de exercer a profissão pela baixa remuneração e pela falta de valorização da profissão.

No ano passado, o status dos professores foi pesquisado pela Fundação Varkey em 35 países. No balanço foi identificado que houve uma queda do Brasil de penúltimo para último no quesito valorização dos professores, em relação ao levantamento de 2013.

Apenas 9% dos brasileiros acham que os alunos respeitam seus professores em sala de aula. Na China, país que ocupa o topo do ranking, 81% das pessoas acreditam que os professores são respeitados pelos alunos. Ainda de acordo com a pesquisa da fundação, 88% dos brasileiros consideram a profissão de professor como de “baixo status”.

Para a professora e psicóloga de aprendizagem da USP, Maria Isabel, trabalhar como professor no ensino público é ainda menos atraente para os jovens.

“Acredito que seja a carreira docente na escola pública a que a maioria rejeita”, disse. “Acho que a carreira docente no sistema público de ensino está desacreditada há bastante tempo porque as pessoas não veem ali a possibilidade de atingirem seus objetivos de independência financeira e de realização pessoal”, completou Maria.

O ciclo da desvalorização

Para a psicóloga, existe um ciclo em relação a desvalorização dos professores. Neste ciclo, a baixa remuneração é o marco zero. Professores trabalham mais horas que o normal para garantir uma renda extra, isso gera a sobrecarga, esta sobrecarga leva ao ensino de má qualidade e ao estresse dentro do ambiente escolar.

“O fato dos salários serem baixos leva a sobrecarga de trabalho para ganhar um pouco mais. Além disso, as más condições em que o trabalho está inserido como violência dentro e fora da escola, condições precárias para ensinar também contribuem para o desprestígio da carreira docente”, explica Maria Isabel.

Segundo uma nota divulgada pelo Ministério da Educação (MEC), o piso salarial dos professores da educação básica com jornada de 40 horas semanais foi ajustado para R$ 2.557,74, em janeiro desse ano. Mas para esses jovens que querem lecionar, a baixa renda é apenas um dos desafios que vão enfrentar na carreira.

“Desde que eu comecei meu curso de licenciatura em história, sabia dessa realidade. É visível que a profissão de professor é totalmente desvalorizada no nosso país”. apontou o estudante de história, Robson Almeida. “Apesar disso, minha motivação vem do prazer em ensinar alguém, transmitir conhecimento e aprender junto”.

professor sala de aula — Foto: NeONBRAND/ Unsplash

professor sala de aula — Foto: NeONBRAND/ Unsplash

Essa desmotivação dos jovens, muitas vezes, começa dentro da própria sala de aula. Segundo a recém formada em pedagogia Mariana Caspera, ela foi aconselhada pelos próprios professores a não seguir carreira como professora já no ensino médio.

“Eu não tive incentivo de muitos professores do ensino médio que diziam o quanto eram desvalorizados e mal remunerados”, disse. “Acredito que muitos jovens buscam algo que dê mais lucro, eu mesma pensei dessa forma até iniciar a graduação”.

Outro desafio é a pressão que esses jovens sofrem dentro de casa por escolherem seguir uma carreira desvalorizada pela sociedade.

“Tios meus sempre me aconselharam a seguir outra profissão e nunca me apoiaram por estar finalizando meu curso de história. Simplesmente porque eles acham que não vai gerar lucro financeiro para mim”, disse Robson.

Segundo Alexandre Alves, também estudante de licenciatura em história, ele sofreu pressão de familiares para seguir uma profissão “mais prestigiada”.

“Sofri no sentido do meu pai querer que eu seguisse a sua profissão, no caso, de pedreiro, e em certos momentos me disse para cursar direito, profissão mais prestigiada e mais lucrativa”, pontuou.

Violência em dentro da escola

Uma pesquisa global da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com mais de 100 mil professores e diretores de escola do segundo ciclo do ensino fundamental e do ensino médio (alunos de 11 a 16 anos) põe o Brasil, também, no topo de um ranking de violência em escolas. O levantamento é o mais importante do tipo e considera dados de 2013.

Em São Paulo, por exemplo, 51% dos professores da rede estadual disseram que já sofreram agressão verbal ou física na sala de aula, segundo uma pesquisa do Sindicato dos Professores. Para a pesquisa, foram ouvidos 702 professores de 155 municípios entre os dias 1 e 11 de setembro de 2017.

Segundo Maria Isabel, além da violência física, existem outras formas de violência contra o professor e o aluno.

“Presenciar a violência contra os docentes é amedrontador, constituindo então um poderoso desestímulo para seguir esta profissão, bem como observar as más condições de trabalho, como falta de recursos didáticos, más instalações físicas e outras situações que constituem também uma forma de violência contra alunos e professores”, afirmou.

O Centro de Ensino Fundamental em Sobradinho, região rural do Distrito Federal, onde não há bibliotecas, laboratórios científicos e o mobiliário está em mau estado de conservação.  — Foto: André Coelho/Agência O Globo

O Centro de Ensino Fundamental em Sobradinho, região rural do Distrito Federal, onde não há bibliotecas, laboratórios científicos e o mobiliário está em mau estado de conservação. — Foto: André Coelho/Agência O Globo

Divisão política

A proposta de lei “Escola sem partido”, que chegou a tramitar na Câmara na legislatura anterior, previa, por exemplo, que os seguintes princípios devem ser seguidos no âmbito do sistema de ensino: neutralidade política, ideológica e religiosa do Estado, pluralismo de ideias no ambiente acadêmico, liberdade de consciência e de crença e liberdade de ensinar e de aprender.

Pessoas se manifestam contra o projeto conhecido como escola sem partido — Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

Pessoas se manifestam contra o projeto conhecido como escola sem partido — Foto: Cleia Viana/Câmara dos Deputados

O primeiro dever do professor, de acordo com a “Escola sem partido” é: o professor não se aproveitará da audiência cativa dos alunos para promover os seus próprios interesses, opiniões, concepções ou preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias.

“Não há como ser imparcial, somos seres dotados de posicionamento político, levamos conosco uma imensa bagagem cultural. Peter Burke chama isso de experiência”, afirmou Alexandre.

Dentro desse contexto, é unânime a influência que os alunos sofrem em relação ao professor. Para lidar com essa responsabilidade, Alexandre diz que é fundamental ensinar os fatos independentemente de vertente política ou religiosa.

“Pretendo agir sempre levando os dois lados da moeda, com isso eles [os alunos] poderão escolher o que acharem melhor e seguir determinada linha ideológica”, disse Alexandre. “A ideia é que eles tenham autonomia, os debates, a pluralidade de conhecimento também é o caminho que pretendo seguir”.

Perspectiva de futuro

Se perguntarmos para qualquer estudante que deseja ser professor os motivos pelo qual escolheu a profissão mesmo em meio a tantas dificuldades, as respostas serão, em sua maioria, a vontade de ensinar e proporcionar uma educação de qualidade às próximas gerações.

“Quero chegar em uma educação com equidade, acreditar que nas escolas os profissionais sejam reconhecidos e valorizados, em pais que não ‘depositam’ crianças na escola e deixam a educação apenas para as educadoras”, afirma Mariana.

Já para Robson Almeida, a história tem um papel fundamental na construção de uma sociedade e que, é da partir dela, que os indivíduos aprendem construir um futuro melhor.

“Quero atingir o máximo de pessoas com o conhecimento e fundamentação correta, sendo professor. Para que todos vejam que tudo que usufruirmos, tem uma história” disse.

Para Alexandre, um professor deve, principalmente, motivar seus alunos a partir do conhecimento.

“Meu objetivo como professor é colocar o maior número de pessoas dentro das universidades, fazer com que tenham o gosto de estudar, que as pessoas tenham amor pelo conhecimento”, afirmou.

Sob orientação de Ardilhes Moreira*

G1

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