Carlos Lima
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Educação
Carlos Lima | Publicado em 26/05/2017 às 11:42:17

Para novo secretário de Educação, verba maior ‘é ilusão’; Cpers rebate: ‘precisamos de alguém de briga’

Para novo secretário de Educação, verba maior ‘é ilusão’; Cpers rebate: ‘precisamos de alguém de briga’ Para novo secretário de Educação, verba maior ‘é ilusão’; Cpers rebate: ‘precisamos de alguém de briga’

Em 27 de abril, o governador José Ivo Sartori (PMDB) nomeou o então secretário-executivo do movimento Agenda 2020, Ronald Krummenauer, como novo secretário de Educação. Quase um mês depois, o Sul21 conversou com ele para buscar compreender quais são as suas ideias para os cerca de 19 meses de trabalho que restam ao atual governo. Krumennauer diz que focará sua atuação na elaboração de um projeto de estado para melhoria da educação que possa ter continuidade no futuro e no aperfeiçoamento da gestão. Por outro lado, diz que a realidade financeira não permite imaginar que haja aumento de investimento na área em sua gestão.

Com formação em administração de empresas, Krummenauer é o terceiro ocupante do posto indicado pelo governador Sartori a não ter formação na área – seus antecessores, Vieira da Cunha e Luís Antônio Alcoba de Freitas, tinham carreiras jurídicas.  A Agenda 2020, que o atual secretário liderava, é um movimento de orientação econômica liberal que propõe a redução do tamanho do estado, mas que tem como uma de suas principais pautas a melhoria da educação.

Em diversos momentos da conversa, Krumennauer disse acreditar que as discussões sobre educação atualmente focam em discussões sobre obras e questões salariais de professores, mas muito pouco no aluno, o que ele promete rever.

“O fato concreto para mim é o seguinte: se a gente faz obras, se a gente melhora a estrutura da escolas, se a gente faz o aperfeiçoamento da formação escolar, se a gente tem uma escola com uma boa gestão administrativo-financeiro, mas no final o aluno não teve uma melhora no aprendizado, nós falhamos como sociedade. O foco será voltado a isso”, defende.

Sobre a questão financeira e a capacidade de investimentos em educação pelo governo do Estado, Krummenauer afirma que há um déficit orçamentário reconhecido, com recursos escassos para despesas que são maiores que as receitas. “Se iludir que vai ter mais recurso para educação ou para qualquer outra secretaria, é contar com uma coisa que provavelmente não vai ser realista ou é quase impossível de ser realista”, diz.

Diante desse quadro, Krummenauer diz que restam duas alternativas: melhoria da gestão administrativa e financeira – melhor utilização de recursos, do aparelhamento, da execução das obras – e buscar redes de parcerias, sejam elas públicas ou com entidades privadas.

Parcerias públicas e privadas

Krummenauer defende que o estado realize parcerias com outros entes públicos, como os municípios, citando como possibilidade a integração de escolas públicas municipais e estaduais localizadas em um mesmo bairro que tenham poucos alunos.

No entanto, diz que serão buscadas, principalmente, parcerias com instituições privadas. “Por exemplo, o Instituto Ayrton Senna tem projetos que ajudam a recuperar alunos que tenham idade superior a série que estão cursando. Eles investem em projetos para que o aluno tenha aulas de reforço para voltar a acompanhar a série correta.

Às vezes, tu tens uma deficiência de professor, então tem a questão de quais professores poderiam atender esse tipo de projeto. Não há recurso do Estado, mas tem recursos dessas instituições”, afirma.

Outro exemplo utilizado pelo secretário é o caso da concessionária de energia elétrica RGE, que banca projetos na rede municipal de Caxias do Sul e estaria disposta a bancar projetos na rede estadual da cidade.

“Buscar essas opções de parceria, tanto públicas quanto privadas, para que a gente possa suprir essa dificuldade que se tem hoje de fazer investimentos em melhorias ou de qualquer vulto com o investimento escasso do Tesouro”.

Inicialmente, o secretário afirma que estas parcerias serão buscadas para a realização de atividades complementares ao período letivo normal, também pelo fato de que não é possível fazer mudanças para o atual ano letivo, mas confirma que a cessão da administração das escolas públicas para a organizações sem fins lucrativos, um dos alvos das ocupações estudantis em escolas públicas do Estado em 2016, continua sendo avaliada pelo governo.

“Está sendo estudado dentro da Seduc se existe essa possibilidade, mas principalmente se pode trazer bons resultados para nós”, afirmou, acrescentando ainda que as parcerias devem ser discutidas com representações de pais e professores.

Ele também defende a maior utilização de ferramentas tecnológicas que permitam fazer um melhor acompanhamento dos resultados dos alunos, facilitar a comunicação entre professores e estudantes e, ao fim e ao cabo, modernizar a educação, que ele considera ainda ser muito parecida com o modelo aplicado no século XIX.

“O aluno vai para aula com o seu celular, internet bombando, e nós ainda tentando dar um aprendizado que é completamente desatualizado. Aperfeiçoar esse processo é absolutamente necessário para que a gente possa começar a dar uma guinada”, afirma.

Além da maior utilização da tecnologia, ele defende que é preciso ocorrer mudanças na formação dos professores, citando por exemplo a necessidade de diretores de escolas terem uma formação em gestão, não apenas de licenciatura, e que se busque replicar bons exemplos de outros estados e países, salientando que o RS tem os piores índices de educação das regiões Sul e Sudeste.

“O fato é que nós não priorizamos a educação há muitos anos no Brasil e eu acredito que o estado que conseguir dar um novo colorido à educação vai ter um potencial de desenvolvimento que vai saltar a frente dos outros estados da federação”, diz.

O secretário reconhece que a melhoria da educação também passa pela valorização dos professores. No entanto, salienta que, no momento, não é possível que isso ocorra em termos salariais devido à situação financeira do Estado.

“Se a gente vai contar com algum milagre de melhoria de orçamento esse ano, se eu achar que é a única coisa que eu posso fazer, eu não vou ter muito que contribuir na educação”, diz.

Os professores ainda não tiveram aumento salarial concedido pelo governo Sartori, apenas o reajuste no completivo pago para equiparar os salários mais baixos ao piso nacional, mas sem que este sirva de base para toda a categoria.

O orçamento encaminhado pelo Piratini à Assembleia Legislativa prevê, para 2018, mais um ano de congelamento de salários para os professores, bem como para os demais servidores do Executivo.

Diante disso, ele diz que é preciso buscar outras formas de valorização dos educadores. “Quando se fala em valorização do magistério, se prevê também rever planos que já existem há muito tempo e que podem e devem ser rediscutidos.

Vou te dar um exemplo: o plano de carreira é de 1974. Será que não tem nada que a gente possa aperfeiçoar, principalmente para incentivar e melhorar o rendimento de professores que estão iniciando a carreira?”, pondera.

“Será que não tem outras questões importantes que a gente possa falar além de unicamente e exclusivamente da questão salarial, que eu reconheço que é um salário abaixo, mas se a gente não trabalhar os instrumentos que dão sustentação ao magistério, nós não vamos conseguir evoluir”.

O secretário afirma que o Estado precisaria aumentar as despesas com educação em R$ 1 bilhão ao ano para pagar o piso nacional do magistério. Ainda que diga que não há definições sobre quais mudanças a Seduc irá propor no plano de carreira da categoria, ele diz que o tema será tratado e que, sem uma revisão, não será possível pagar o piso.

“Com as regras atuais, nem este governo, nem os que passaram até agora, nem os que virão, vão cumprir o piso nacional do salário se não houver uma renegociação nesse sentido. É impossível. É uma ilusão. A não ser que aconteça algum tipo de mudança econômica no futuro que eu não consigo imaginar agora, muito menos pela situação do país”.

Na manhã desta quinta-feira (25), Krummenauer teve a primeira reunião oficial com a direção do Centro dos Professores do RS (Cpers). No encontro, ele recebeu uma pauta de reivindicações da categoria, que inclui o pedido de respeito aos calendários de recuperação dos dias letivos perdidos pelas últimas greves conforme definido pelas comunidades escolares, o que não estaria sendo respeitado, o atraso no pagamento dos dias recuperados das paralisações, a reposição de cerca de 420 vagas de professores que ainda não foram preenchidas desde março e a revisão da decisão de não liberar servidores para participar da manifestação contra as reformas propostas pelo governo federal em Brasília nesta semana.

“Comunicamos o governo que aqueles professores que sofrerem desconto não recuperarão as aulas. Hoje, no Brasil, como a gente vê, querer retirar todos os direitos, só o que me falta é o sindicato aceitar trabalho escravo. Além do governo não pagar o nosso trabalho como deve, querer descontar.

É uma ação muito perigosa, que nós não tínhamos vivido ainda na categoria, que é uma pressão muito forte para impedir a secretaria de reivindicar e participar de seu sindicato. Isso nós não vamos abrir mão”, afirma a presidente do sindicato, Helenir Schurer Aguiar. “Ele diz diz que não permitirá que os alunos sejam prejudicados.

Eu disse para ele que fiquei muito feliz com isso. Provavelmente amanhã os 420 professores que faltam desde março deverão estar todos nas escolas, já que o aluno está sendo prejudicado desde março. Não dá para querer cobrar tudo quando é pela ação sindical e dizer que não tem dinheiro, que a burocracia é muito demorada, quando o governo tem que responder”.

Sobre o posicionamento do secretário de que não é possível contar com aumento de investimentos em educação até o fim do governo, Helenir afirma que isso demonstra que ele já começa errando. “Fico muito receosa quando o próprio secretário diz que não acredita que vai ter investimento do Estado na Educação.

É sinal de que é um secretário fraco. Precisamos de uma pessoa que acredite na educação e venha brigar pela educação, não uma pessoa que já entra abrindo mão dessa briga”, diz.

Sobre a busca por parcerias e o foco na gestão, Helenir diz que o sindicato não se opõe a nada que busque melhorar a educação e que é “sempre bom” melhorar a gestão, mas pondera que a categoria não aceitará a terceirização ou privatização do ensino público.

“Qualquer apontamento para a privatização ou a entrega daquilo que é obrigação do estado, que é ofertar educação de qualidade, aí nós teremos uma diferença bem substancial”, diz.

Helenir disse que, na reunião desta quinta, não foi debatido o conteúdo das propostas de Krummenauer para a educação. Porém, ela teme que, pelo passado do secretário como liderança da Agenda 2020, o indicativo é que ele vá buscar uma agenda privatista e de enfrentamento com a categoria na questão da luta sindical. No entanto, ela afirma que uma prova de que o sindicato está aberto ao diálogo é justamente o fato de ter pedido uma audiência para conhecer o secretário.

Ela também afirma que a categoria pode estar aberta a discutir revisões no plano de carreira, desde que isso não representasse propostas que venham a reduzir salários, como ocorreu nas tentativas dos governos Antônio Britto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB) de revê-lo. “Se for uma proposta de achatamento salarial, não seremos parceiros. Eu quero lembrar que hoje nós temos o salário mais baixo do Brasil.

O nosso plano de carreira foi feito em 1974? Foi. É bastante antigo? É. Mas não tem nenhum outro plano de carreira no Brasil que incentive tanto a qualificação dos professores. Não é a toa que aqui no RS há um altíssimo número de professores com pós-graduação, mestrado e doutorado.

Por quê? Porque o nosso plano nos incentivou, mesmo hoje quando ele é tão atacado, quando o arrocho salarial é tão grande, ainda tem um atrativo pela estrutura do plano”, diz, lembrando que a categoria, em assembleia geral, já tomou posição contrária à revisão do plano de carreira.

“Eu espero que ele faça reflexão, que ele estude um pouco da educação pública, eu espero que ele perceba o quanto os governos têm de responsabilidade com o caos que a educação está hoje e possa esquecer o projeto de estado mínimo e realmente seja um secretário que tenha um compromisso com a educação pública, daí a gente vai poder ter um bom diálogo”, diz.

sul21

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