Carlos Lima
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Educação
Carlos Lima | Publicado em 02/03/2018 às 10:08:32

Recuperação, aulas no contraturno e novo modelo

Recuperação, aulas no contraturno e novo modelo Samy Ferreira

Em um país que tem a missão de aumentar o nível de proficiência dos alunos e diminuir a evasão, o único consenso é que especialistas criticam tanto a aprovação automática quanto a reprovação de alunos.

Escolas de São Paulo ao Ceará que adotam diferentes estratégias contra a reprovação: aulas no contraturno, recuperação paralela e contínua e até mesmo a organização das séries em “ciclos escolares”.

Especialistas recomendam alternativas que busquem recuperar o aprendizado do aluno e evitar defasagens.

“Não vejo a questão da repetência como uma medida pedagógica positiva. Considerando todas as metodologias e correntes que valorizam o aluno e o processo de aprendizagem, podemos pensar em outras soluções” – Débora Jeffrey, professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

Os ciclos escolares

A docente da Unicamp cita a proposta de “ciclos escolares”, formulada na década de 1990, em que a divisão por anos (1º ano, 2º ano, por exemplo) é abolida e substituída por etapas mais longas. “O tempo de aprendizagem passa a ser maior e é possível avaliar um estudante de diferentes formas ao longo de cada ciclo. Os mesmos professores ficam acompanhando os alunos por vários anos e têm condições de analisar o desempenho deles, evitando a reprovação. O acompanhamento é contínuo”, afirma Débora.

Ela conta que a dificuldade desse modelo de ciclos é seu custo – envolve formação continuada de professores, estudos do meio e contatos com tecnologia. A única instituição que adota a proposta em sua essência no Brasil é a Escola Plural, em Belo Horizonte.

Recuperação paralela e contínua

Outra alternativa, mais viável nos modelos tradicionais de escola, é a recuperação paralela. Mas atenção: isso não significa que o aluno só terá de fazer novas provas para alcançar a nota mínima, nem que passará por apenas uma semana de aulas extras.

“Se o aluno não deu conta do conteúdo durante todo o ano, não vai ser em uma semana que acontecerá um milagre. Ter a consciência de que o estudante está em constante aprendizagem é função do colégio” – psicopedagoga Jane Rapoport, orientadora educacional da escola Dínamis (RJ).

O jovem precisará ter aulas durante o ano inteiro, com uma metodologia diferente da que já foi apresentada. “A escola precisa pensar em novos meios para o aluno aprender. Não adianta repetir o que já foi feito nas aulas”, afirma Raquel Lazzari, professora do departamento de educação da Unesp de Assis.

“A reprovação deve ser sempre a última opção. Se o adolescente teve um problema em um ano letivo, os professores precisarão fazer a recuperação também no ano seguinte, com a metodologia nova. Não adianta aprovar uma pessoa e esquecer que a dificuldade dela existiu” – Raquel Lazzari.

Contraturno

No Colégio Rio Branco, em São Paulo, existem os chamados “núcleos de apoio” – encontros no contraturno escolar, com professores assistentes, para tirar dúvidas, fazer exercícios e rever conteúdos.

Os docentes devem observar, por meio das diferentes avaliações e das aulas, quais estudantes não estão absorvendo o conteúdo ensinado. Quando é detectada alguma dificuldade, o aluno e seus pais são chamados pela coordenação. “Damos o feedback e recomendamos o núcleo de apoio. Agora em 2018, por exemplo, a gente está chamando aqueles alunos que não terminaram 2017 muito bem”, afirma Renato Júdice, doutor em educação e diretor do colégio. “Se o aluno, mesmo assim, não atinge as expectativas, ele é retido. Mas esse não é o nosso objetivo. Queremos que ele aprenda.”

As aulas no contraturno também são a alternativa encontrada pela Escola Emílio Sendim de Ensino Fundamental, colégio público em Sobral, no Ceará. O município é referência em educação no país – possui 19 instituições de ensino fundamental I, para pessoas de baixa renda, consideradas excelentes. A Emílio Sendim, inclusive, se destaca há anos no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

“A nossa recuperação dura o ano todo e acho que esse é nosso ponto forte. Assim que percebemos a dificuldade de algum aluno, já sugerimos que ele vá para as aulas do contraturno.” – Joelma Faustino, coordenadora pedagógica.

No começo do ano, também fazemos um diagnóstico de leitura, compreensão e matemática, para selecionar aqueles que precisam de mais apoio”, explica.

“No 3º ano, por exemplo, são 117 alunos e 30 deles estão no reforço. À medida que recuperam o conteúdo, não precisam mais vir para essas aulas.”

Reforma nas avaliações

Todas essas alternativas podem ser melhor aplicadas quando o sistema de avaliação é “formativo”, como explica Raquel Lazzari, da Unesp. Isso significa que todas as atividades e provas vão ajudar o professor a fazer um diagnóstico do processo de ensino-aprendizagem. Ele poderá saber, por exemplo, se a metodologia usada está sendo eficaz para aquela turma. Caso detecte algum problema, pode rever a forma como as aulas estão sendo ministradas.

“Uma avaliação formativa promove a reflexão. Mas o que acontece, em geral, é que as escolas aplicam provas classificatórias, com o objetivo de dar uma nota e concluir se o aluno está apto ou não para ser aprovado”, afirma Raquel. “É preciso rever isso.”

Se os docentes conseguirem rever a relação com os alunos e a forma como o conteúdo está sendo ensinado, a chance de que todos aprendam será maior. A escola perde esse caráter de punição e foca na aprendizagem.

Apoio emocional

Além de todas as alternativas pedagógicas para evitar a reprovação, é necessário também que a escola estabeleça uma relação próxima com a família do aluno, segundo especialistas. Os pais precisam saber o que está acontecendo ao longo do ano – antes de o boletim chegar. Também necessitam estar atentos aos sinais psicológicos que o jovem emite. Pode ser que o mau desempenho escolar esteja ligado a algum problema emocional.

“A reprovação não acontece de uma hora para outra, então não pode ser uma surpresa nem para os pais, nem para os alunos. Se a família e a escola estiverem próximas, é possível diagnosticar o que está acontecendo antes do resultado final”, afirma a psicóloga Rita Calegari.

“Um divórcio, uma perda de alguém querido ou casos de bullying podem afetar o desempenho do aluno.”

Estudantes que foram reprovadas contam que sentiram falta de um apoio emocional na escola. Bianca Garoiu, do Rio de Janeiro, estudava em uma escola pública tradicional, considerada uma das melhores da cidade.

“No ensino médio, era muito puxado, muitas provas difíceis, problemas de infraestrutura, ventilador pegando fogo, professor afastado. A rotina pesada me levou a um esgotamento mental absurdo, que foi se somando à depressão”, conta.

“Não conseguia mais estudar nem ir às aulas. Vomitava todo dia de manhã. E em nenhum momento, houve um acompanhamento da escola. Fui várias vezes para a enfermaria, passando mal, e ninguém nunca me deu apoio. Tudo que fizeram foi me reprovar”, relata.

Nanda Braciak, de Florianópolis, passou por uma situação semelhante. Ela não conseguiu se dedicar aos estudos porque sofria bullying.

“Foi a pior época da minha vida. Quando fui reprovada no 1º ano do ensino médio, desisti e fui fazer o Encceja (exame que pode dar o certificado de conclusão escolar para quem não se formou na idade correta). A ideia de começar tudo de novo naquele colégio me dava pavor”, conta.

“Acho que tinha de ter mais ajuda nas escolas, algum educador ou psicólogo vendo se algum problema emocional está afetando o desempenho dos alunos. Eu concordo com a reprovação em último caso. De resto, acho que, com mais apoio, ajuda e conversa, muita coisa seria resolvida”. – Nanda Braciak

Além de dificuldades emocionais, é possível que o estudante tenha também algum distúrbio neurológico, como déficit de atenção, dislexia ou discalculia. Foi o que ocorreu com a filha de Patrícia*, reprovada no 1º ano do ensino médio.

“Procurei ajuda, mas a escola não abriu as portas. Só se preocupava em manter alunos com notas altas, que entrariam nas melhores faculdades. Minha filha tem déficit de atenção e ninguém nunca desconfiou. Isso só contribuiu para ela ficar com a autoestima baixa. Começou a se automutilar e precisou se tratar”, diz a mãe.

 Luiza Tenente

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