Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 02/06/2017 às 10:57:38

O roteiro que antagoniza Zidane e Buffon chega à cena 3: a final da Champions

O roteiro que antagoniza Zidane e Buffon chega à cena 3: a final da Champions Tal qual uma boa trama, as histórias de duas lendas se entrelaçam desde 1997 com dinheiro, delação, afago, recordes e títulos em jogo. Quem será que leva a melhor neste sábado?(Foto: Mario Alberto)

Vamos brincar de entrecruzar a história de duas lendas da história do futebol. De personagens de respeito recíproco: para Zidane, Buffon “nasceu líder”; para Buffon, Zidane era “um jogador de classe”.

Mas separados pelo antagonismo que data de 20 anos atrás, quando ocorreu o primeiro confronto entre eles, e que dá à final da Liga dos Campeões deste sábado outro charmoso atrativo. Juventus x Real Madrid será, também, mais um capítulo desse roteiro de dinheiro, denúncia, títulos, carinho e alguns recordes.

A mais leve menção a “Zidane x Buffon” nos leva imediatamente a 2006, final da Copa do Mundo. O craque da França impediu o paredão italiano de atingir uma marca histórica com aquela cavadinha na cobrança de pênalti, você sabia? Pois Buffon também soube ser vilão: foi ele o delator da cabeçada em Materazzi.

O perdão da licença poética dá a brecha para que o duelo particular seja dividido em três cenas, sendo a terceira a decisão em Cardiff.

CENA 1 – Juve vende Zidane e compra Buffon

Buffon no Parma, Zidane na Juventus. A história de confrontos entre os dois começa em 1997. Com a camisa de dois dos mais tradicionais clubes italianos, é claro que os personagens tomaram a rivalidade como hábito desde cedo.

Em quatro anos, foram nove encontros: duas vitórias para Buffon, duas para Zidane e cinco empates.

Só que, em 2001, o francês, eleito o melhor jogador do mundo no ano anterior pela Fifa, pôs em prática o plano de mudar os ares. E o novo destino era claro como um dia ensolarado: o Real Madrid, disposto a pagar 73,5 milhões de euros. Com o fim da temporada, o anúncio era uma questão de tempo.

– Se fosse por mim, eu já estaria no Real – dissera certa vez.
A montanha de dinheiro do Real Madrid sequer havia chegado, e a Juventus, tida como um clube cauteloso no mercado, tratou de dar um destino a ela. Com outros 37 milhões de euros da venda de Inzaghi para o Milan no caixa, acertou a contratação de três jogadores na janela: Lilian Thuram, Pavel Nedved e Gianluigi Buffon. O primeiro ficou na equipe por cinco anos; o segundo, por oito; e o terceiro dispensa apresentação.
Pelo goleiro de então 23 anos, a Juve pagou a exorbitante quantia de 52,88 milhões de euros, até hoje o valor mais alto por algúem da posição. Zidane, logo depois, foi anunciado pelo Real e se tornou o jogador mais caro do mundo, posto entregue em seguida para Cristiano Ronaldo (United – Real, 2009), depois para Bale (Tottenham – Real, 2013) e que pertence atualmente a Pogba (Juventus – United, 2016).

CENA 2 – A final da Copa, a cabeçada e o dedo-duro

Cada qual no seu respectivo novo clube, mais quatro embates ocorreram desde então: duas vitórias para a Juventus de Buffon, duas para o Real Madrid de Zidane. Nesse meio tempo, inclusive, o francês marcou seu primeiro gol em cima do goleiro.

No dia 14 de maio de 2003, ele recebeu passe dentro da área e bateu cruzado com a perna esquerda para vencer o rival. Um lance inútil, no entanto, já que a Juve venceu por 3 a 1 e avançou para a final da Liga dos Campeões.

A Copa do Mundo de 2006 chegou, e o confronto mais relevante entre a dupla, também. Zidane e Buffon eram incontestavelmente os pilares de França e Itália, as seleções finalistas. E o italiano ainda alcançou a decisão podendo se tornar o goleiro com mais tempo sem sofrer gols na história da Copa do Mundo.

Bastava manter as redes intactas até os 20 minutos do segundo tempo para que ele ultrapassasse os 517 minutos de outro italiano, Walter Zenga.

Pênalti para a França, Zidane na cobrança, e a cavadinha ainda tocou o travessão antes de entrar como que num capricho. Buffon viu sua possibilidade de recorde (que pertence a Zenga até hoje) devastada logo aos sete minutos de jogo.

Na prorrogação, lá estava ele novamente frente à frente com o camisa 10. Mas, desta vez, desviou a cabeçada para fora com a ponta dos dedos.

Isso foi pouco antes de Zidane abrir mão da imagem de bom samaritano e da própria presença na final para responder as provocações de Materazzi com uma cabeçada, uma das cenas mais inolvidáveis de todas as Copas.

No momento da agressão, todos os olhos estavam do outro lado do campo.

Nem o árbitro argentino Horácio Elizondo testemunhou o acontecido, nem os dois assistentes, tampouco os jogadores. O único espectador com a visão clara era Buffon.

– Quando eu cheguei ali, eu percebi que os jogadores não sabiam o que tinha acontecido, com exceção de Gianluigi Buffon, que estava protestando com o assistente. Mas os outros viram quase nada, assim como eu – relatou o árbitro na época.

Buffon roubou a cena. Seu primeiro ato foi dirigir-se ao bandeirinha e cobrar a expulsão do colega. Com o dedo nos olhos, ele gesticulou “você viu, você viu!”. Depois do longo bate-papo da arbitragem, Zidane foi expulso.

Foi então que o goleiro decidiu consolar o desolado colega, o abraçou. Pediu desculpas, mas retificou que o vermelho era merecido .

CENA 3 – A final da Champions

Entre a segunda e a terceira cenas, o protagonista é o tempo. Foram quase 11 anos de espera, mas, neste sábado, Buffon e Zidane voltarão a se encontrar em um campo de futebol.

A temática é a mesma: a disputa por um troféu e uma história para ser escrita. No novo capítulo, entretanto, as situações estão um pouco diferentes.

Na época em que a primeira cena se desenhava, era comum falar que Zizou jogava de terno, tamanha a elegância de seu talento. Dessa vez, não será figurativo: o jogo em Cardiff será o primeiro entre os dois com o francês como técnico.

O encontro também marca uma possibilidade de “troco” mútuo. Se Zidane impediu o italiano de conquistar o posto de goleiro com mais tempo sem sofrer gols na história das Copas, com o gol de pênalti na final de 2006, Buffon pode acabar com a sequência de 64 jogos seguidos do Real balançando as redes adversárias.

O recorde mundial é do Santos de Pelé, que marcou ao menos um gol em 75 partidas consecutivas entre 1961 e 1962.
Por outro lado, o treinador pode conquistar seu primeiro título em cima de Buffon, que saiu vencedor na única decisão entre eles – a da Copa de 2006.

Quer mais? Gigi ainda busca sua primeira “orelhuda” depois de dois vices (em 2003 e 2015), enquanto Zizou está atrás de sua terceira: ganhou em 2002 como jogador – como esquecer o voleio sem-pulo contra o Bayer Leverkusen? – e no ano passado como técnico.

Façam as suas apostas.

Por Matheus Palmieri*, Mário Alberto e Tébaro Schmidt

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