Carlos Lima
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Esportes
Carlos Lima | Publicado em 06/03/2018 às 14:44:13

Sem Neymar, os jogadores do PSG se unem para mostrar que são melhores

Será que querem derrubar o Neymar ou mostrar um bom futebol

Sem Neymar, os jogadores do PSG se unem para mostrar que são melhores Di María dedica um gol a sua filha contra o Marselha

Pessoas próximas a Nasser Al-Khelaïfi dizem que a lesão de Neymar Júnior causou uma preocupação insuperável no presidente do Paris Saint-Germain.

Al-Khelaïfi fala com pessoas do clube como se não fosse possível reverter a primeira partida da eliminatória da Champions contra o Real Madrid (3 a 1), sem o ídolo brasileiro que ele transformou na pedra angular de seu projeto.

Sem essas bicicletas, sem esses slalons, sem as impressionantes lambretas que tanto admira no atacante, o xeique entende que teriam sofrido uma goleada ainda maior no Bernabéu.

Al-Khelaïfi deixou-se dominar pela melancolia. Um sentimento de derrota que contrasta com a repentina euforia experimentada pelo time. Desde que Neymar partiu para ser operado no Brasil, o vestiário do Camp des Loges recupera o pulso.

É o que dizem técnicos, o que confirmam jogadores consultados ou pessoas que trabalham para o clube. “Com Neymar, tínhamos uma chance de 5%”, calculam. “Agora, temos 50%.”

Somente Thiago Silva e Dani Alves mostram-se céticos. Cavani, Di María, Pastore, Rabiot, Meunier, Kurzawa, Yuri Berchiche, Verratti, Draxler, Marquinhos e Mbappé acreditam que estão diante de uma oportunidade única de reivindicar o valor que lhes é negado pela direção do clube.

Estão confiantes de que podem golear o Madrid — basta um 2 a 0 —, passar para as quartas de final e deixar claro que a equipe funciona melhor sem a figura imposta pelos donos: um jogador superlativo que não deixou de tratá-los com condescendência sem suficiente mérito, segundo eles. Alguém por quem têm mais desconfiança do que respeito.

Os jogadores querem mostrar que a distância entre seus direitos como secundários e os privilégios do ídolo é desproporcionalmente maior do que a distância do futebol que os separa.

“Por acaso ganhou uma Bola de Ouro?”, perguntam, depois de calcular que estão há sete meses contemplando como os proprietários do Qatar acumulam atribuições aos pés de Neymar e revogam as regras de convivência que prevaleceram para todos até o verão europeu, permitindo que tomasse decisões sobre como treinar e planejar as partidas, que faltasse aos treinos de acordo com suas atividades pessoais ou dando-lhe voz em assuntos de política esportiva.

Em suma, colocando-o em uma hierarquia que tacitamente o equipara não já a Messi ou Cristiano Ronaldo — os melhores jogadores do século —, e sim ao próprio Al-Khelaïfi.

Isso sem falar no dinheiro e acesso a condições suntuárias. Neymar ganha 47 milhões de euros líquidos (cerca de 188 milhões de reais) por ano. O triplo do salário do seguinte no ranking, Mbappé, que recebe 17 milhões de euros (68 milhões de reais) e quatro vezes mais do que Di María.

Ángel Di María representa a situação do segundo escalão da equipe mais opulenta do planeta. Aos 30 anos, o ponta sabe o que significa a decepção profissional.

O Real Madrid o transferiu em 2014 para financiar a contratação de James Rodríguez e, em 2015, o PSG o comprou do Manchester United por 63 milhões de euros, na época a segunda contratação mais cara da história do clube, apenas um milhão de euros a menos do que Cavani. Se houve um jogador prejudicado pela onda de investimentos no verão europeu passado, foi o argentino.

Em agosto, após a compra de Neymar e Mbappé por 400 milhões de euros, o PSG enviou um intermediário para oferecê-lo a vários clubes, entre eles o Barça.

Por uma semana, Al-Khelaïfi acreditou que a UEFA o forçaria a injetar dinheiro para equilibrar o orçamento e cumprir o fair play financeiro. Bem cotado no mercado, Di María transformou-se em potencial moeda de troca, juntamente com metade da equipe, incluindo Rabiot e Marquinhos.

Di María permaneceu em Paris, já que a UEFA concedeu uma moratória ao clube para equilibrar as contas. O técnico Unai Emery pediu para que não fosse transferido.

Sem saber que seu técnico nunca o incluiu entre os transferíveis, ficou sem conversar com ele por várias semanas. Mas a presença de Neymar, Mbappé e Cavani não lhe deu muito espaço.

Di María só jogou 67 minutos nesta temporada da Champions. No Bernabéu, sequer pisou na grama. Mas seus números são notáveis. Marcou 16 gols e fez 15 assistências em 32 jogos.

Na semana passada, marcou dois gols contra o Olympique de Marselha na Copa e, neste sábado, na Ligue 1, abriu o marcador na vitória contra o Troyes.

Encara a partida contra o Real Madrid — clube que o fez se sentir injustificadamente rejeitado — como um compromisso pessoal. Busca uma revanche múltipla. Na terça-feira, não estará sozinho. Será acompanhado por vários colegas que compartilham seu propósito de reparação.

O clima de alegria que se respira no vestiário do PSG após a lesão de Neymar contrasta com a derrocada causada pelo 3 a 1 no Santiago Bernabéu, há duas semanas.

Os profissionais do clube observaram tamanho desinteresse nos jogadores diante do que parecia o colapso do projeto Neymar, que muitos temiam uma goleada diante do Real Madrid no Parque dos Príncipes. Preocupado em evitar o ridículo, Al-Khelaïfi promoveu métodos artificiais de motivação.

O presidente concordou com a entrada dos hooligans — representantes de uma das torcidas com mais antecedentes criminais na Europa — no campo de treinamento para uma conversa com os jogadores. Há jogadores que confessam que sentiram medo.

Conscientes do descontentamento existente entre Neymar e a maioria da equipe, e temendo que a opinião pública demonstre que as coisas podem funcionar melhor sem a estrela que definiu toda a estratégia do clube, os líderes do PSG se propuseram a lançar uma campanha em sentido contrário.

“Queremos dedicar a classificação a Neymar”, disse Emery no sábado em um discurso planejado. Foi seguido por Antero Henrique: “Neymar pode nos ajudar do exterior.

Por seu espírito, seu relacionamento com os jogadores, com o staff, com os torcedores… Embora não possa jogar, sentimos que Neymar está lá. Neymar é o líder da equipe e seus colegas querem dar tudo por ele”.

As palavras pronunciadas em público pelos representantes do PSG não coincidem com os comentários no vestiário, sob anonimato, de jogadores e treinadores. Até a lesão do chamado “líder”, há uma semana, o clima no Camp des Loges era pesado. Agora, reina um entusiasmo alinhado com a revolta.

DIEGO TORRES

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