Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 25/01/2020 às 13:05:45

Lazzo critica canção ‘Fricote’ e lamenta artistas que se dizem ‘brancos mais negros’

Lazzo critica canção ‘Fricote’ e lamenta artistas que se dizem ‘brancos mais negros’ LAZZO MATUMBI

Nascido musicalmente entre os festejos de São João do bairro da Federação e influenciado pelos ritmos afro tocados no local, o cantor e compositor baiano Lazzo Matumbi está às vésperas de comemorar quatro décadas de carreira. Neste sábado (25), o artista faz uma apresentação no projeto Concha Negra, na Conha Acústica do Teatro Castro Alves.

Em entrevista ao Bahia Notícias, o músico diz que a sua trajetória é gratificante, pois, segundo ele, “cada caminhada é um aprendizado”.

“Isso me traz uma experiência tamanha que com quase 40 anos sinto como se estivesse começando. A cada dia eu aprendo com os novos, com os contemporâneos, com os mais velhos. Sou super agradecido por ter adquirido respeito de todos”, justifica.

Nos anos 1990, Lazzo foi convidado para fazer a abertura dos shows da turnê do músico jamaicano Jimmy Cliff.

Na época, ele conta que tinha dúvidas do alcance do seu trabalho. “Tinha um questionamento se minha música não estava fazendo sucesso na Bahia e no Brasil”.

No entanto, as viagens com Jimmy fizeram com que ele entendesse a sua musicalidade de outra maneira e proporcionaram a Lazzo experiências como a de conhecer o estúdio de Bob Marley e o que tocava na Jamaica.

“Notei que minha música estava muito mais próxima de algo universal do que de uma música local, e isso me deixou muito mais confortável”, relata.

Essa imersão no reggae jamaicano foi um incremento na concepção do seu trabalho, que de acordo com o artista não segue uma ordem específica.

“Não tenho critério. Quando vou gravar coloco as coisas que vão pintando e que vão me dando um feedback. Com essas coisas eu vou formando a linguagem do disco. É uma construção de tudo que está no meu entorno”, revela.

E também faz parte desse entorno o cenário de novos artistas da cena musical baiana.

Tendo participado recentemente de um projeto em que foi intitulado como um “patrono” de artistas como Luedji Luna e Larissa Luz, ele diz acreditar que é sim um “padrinho”.

Artistas como Pitty, a própria Luedji e Russo Passapusso admitem a influência de Lazzo em suas carreiras.

“É interessante porque eu comecei a perceber que tinham artistas novos que me tinham como uma referência muito grande. Isso me chamou a atenção porque eu não estava muito preocupado em ser referência, estava preocupado em fazer uma música de qualidade.

Então eu acho que essa preocupação e minha resistência dentro da música afro com um discurso político serviram de referência para esses artistas”, comemora, citando também a Ifá Afrobeat.

Quando perguntado sobre como ele visualiza as assimetrias do atual cenário musical com o boom da axé music, ele critica: “o axé music na verdade não foi um movimento, ele surgiu voltada para o Carnaval”.

“Se você fizer uma leitura mais profunda, vai ver uma questão muito ligada ao social, porque são grupos oriundos de classe média, da elite, que vão para o Carnaval e o abocanham.

Nessa época o que tocava no Carnaval era uma releitura do frevo e do que tocava no Carnaval pernambucano, e não tinha nada de novidade além dos blocos afros”, analisa.

Lazzo argumenta que canções como “Fricote”, de Luiz Caldas, acabaram atrapalhando inclusive o alcance de outros artistas negros.

“Se você observar a letra de ‘Fricote’, ela desconstrói tudo aquilo que os blocos afro fizeram. Obviamente, se desconstruiu também os artistas que poderiam surgir, e esse tal movimento mama dessa raiz afro e transfere essa representatividade para um grupo que não são os negros, a ponto de alguns artistas se considerarem ‘os brancos mais negros’ ou a ‘loira preta'”.

Para Lazzo, a principal diferença do boom da axé music para a cena atual é que os artistas estão surgindo em uma lógica para além do Carnaval.

Sobre o campo da cultura, ele se diz preocupado com as recentes declarações do ex-secretário de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, e a maneira como as políticas culturais têm se delineado.

“Me traz a impressão que esse grupo governante tem uma ideia totalmente contrária a tudo aquilo que a gente imaginava ter dizimado da nossa história, onde a gente busca um mundo melhor e mais igualitário.

A gente vive em um país que ainda não conseguiu se ver. O Brasil precisa se olhar no espelho e se enxergar”, argumenta.

As novidades para o Carnaval giram em torno de um projeto conjunto chamado “Trio Unidade”, com Os Canibais e Duda, da Diamba. “A gente vai fazer um reggae diferente, com SKA e politizado”, finaliza.

Bruno Leite

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