Carlos Lima
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Carlos Lima | Publicado em 08/09/2017 às 11:08:31

O dedo duro quase sempre aponta o caminho errado

O dedo duro quase sempre aponta o caminho errado O dedo duro

Nos tempos de colégio, a garotada tinha uma regra: “cagüete merece cacete”, assim mesmo porque sem o trema a redução de alcaguete perde o sabor dos velhos tempos.

Alcaguetagem  era palavra, ao menos no uso prático, diferente de “denúncia”, que se referia a alguém que, ofendido nos seus direitos , ia reclamar onde podia.

Era, o “cagüete”, diferente: era o “da turma”, o partícipe, o cara que estava “metido no meio” também e, para se “limpar” com a diretora, o síndico ou a vizinha chata da rua ia dedurar.

Com a ditadura, a “deduragem” ficou ainda pior: era o colega de trabalho ressentido, fanático ou despeitado, quem ia eliminar como “elemento ativo” da concorrência e ganhava, por isso , desprezo e medo, o que faz ás vezes de sentir-se admirado.

A temporada de delações premiadas, que há tempos vivemos sem cessar, está mais para alcaguetagem que para denúncia.

Aliás, ela é pensada para isso, para a errônea ideia de que podemos fomentar a honestidade com os desonestos falantes, prometendo o perdão – ou uma tornozeleira – para os pecadores que sussurrem arrependimentos e gritem acusações, apontando o dedo para onde querem ou para onde lhe mandem apontar.

Não veio do nada, este clima. Foi chegando, precedida de andorinhas isoladas de perdão que vieram de Curitiba no caso do Banestado, sintomaticamente presidido por Sérgio Moro.

Um dos primeiros ombros em que pousaram estas andorinhas, aliás, foram os de Alberto Youssef, libertado por Moro para delinquir, quem sabe, onde se pudesse tirar um bom proveito político de novas confissões.

Lúcio Funaro, o notório, foi outro, já no caso do chamado Mensalão. E também deu no que deu, porque o milagre da conversão do mal para o bem é milagre cem vezes mais apregoado que realizado.

A delação premiada transformou o que era regra na lei – os atenuantes de pena – em negócio carregado de altas doses de subjetividade.

O que o delator diz é menos importante  do que o investigador quer que se diga, quando este não investiga, mas tem os olhos brilhando por uma moralidade peri-religiosa, quando não (auto) messiânica.

Daí, de partes opostas – o criminoso que quer se safar e o homem da lei que o quer punir – passam a uma relação promíscua, quando o delinquente quer sair do embrulho a qualquer preço e o investigador o quer como lenha para assar a um terceiro, pelas vantagens que isso venha a lhe render: fama e, a seguir, naquilo em que ela se converte: dinheiro.

Como disse ontem um moça que ganhou o tal “Master Chef”, “um dia fazendo publicidade vale um mês na cozinha”.

Os diálogos imundos entre Joesley Batista e Ricardo Saud –  algo que ainda não me desceu goela abaixo ser mero acaso, pois ficar brincando com um gravador onde há outro em pó, a gravação de Temer, feita dias antes –  mostram que este “negócio” instalou-se dentro da Procuradoria Geral da República.

O braço direito de Janot, detalha hoje a Folha de S. Paulo, recebeu a oferta de ser – pasme – “diretor anticorrupção” da JBS em escala mundial e virou sócio de um escritório contratado pela própria empresa.

Por quanto?

Ah, sim, sigilo profissional, contra o qual nenhuma providência foi tomada.

Pior, sem que lhes tenha sido posta nenhuma “pressão” além de umas doses de uísque, os dois delatores-cagüetes dizem que “Janot sabe  tudo” e que vai trabalhar, quando sair da PGR com o outro procurador, o que estava “no bolso” da dupla.

Cheguem onde chegarem, são indícios que, no mínimo, teriam de ser investigados.

E não há por quem, pois se tratam de possíveis ilícitos sobre o próprio chefe da investigação.

Há três anos este país vai afundando e mais ainda afundará enquanto não sairmos do policialismo – que dá cobertura a todo este submundo – e voltarmos à democracia, onde se investigam denúncias e não as delações-cagüetagem, que transformam bandidos em heróis com base, frequentemente, em nada mais do que a deduragem.

Quer um exemplo prático, do qual não posso sequer ser acusado de “lulismo”?

E se Geddel, depois dos R$ 51 milhões, disser que estavam ali porque Temer mandou guardá-los?

Quem vai duvidar?

Tinham os meios, a intimidade, as circunstâncias, o compadrio

Como não é improvável que seja, não precisa ser provado, não é?

Fernando Brito

 

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