Carlos Lima
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Internacional
Carlos Lima | Publicado em 22/08/2017 às 11:43:05

As crianças que sofreram ‘lavagem cerebral’ pelo EI e que estão fugindo para a Europa

As crianças que sofreram ‘lavagem cerebral’ pelo EI e que estão fugindo para a Europa "Eles me trataram bem, eu me senti como um rei e eles eram meus servos", disse Mutassim (Foto: Reprodução/BBC)

Mutassim está nervoso. O garoto de 16 anos nunca andou de avião antes. Ele olha para os outros passageiros esperando no portão de embarque no aeroporto de Atenas.

À medida que as pessoas começam a embarcar, o garoto sírio repassa na mente as frases em espanhol que aprendeu. As autoridades poderão lhe fazer perguntas, e ele está viajando com um passaporte espanhol falso. O documento custou mais de 3 mil euros (mais de R$ 11 mil) e foi comprado de contrabandistas de pessoas que o ajudaram a fugir da Síria para a Turquia e agora para a Europa.

Apenas um mês antes, ele tinha estado em Raqqa, uma cidade controlada pelo grupo autodenominado “Estado Islâmico”. O adolescente tinha sido colocado para trabalhar em um hospital local e cuidar de combatentes do EI. Antes disso, integrava uma das unidades de propaganda do grupo.

Mas essa foi uma outra vida, que ele quer esquecer. Os ataques aéreos, os gritos, as pessoas decapitadas… Tudo agora ficou para trás. Toda essa história precisa ser mantida em segredo, já que um novo começo o espera na Alemanha – mas isso só se as autoridades não descobrirem que ele foi treinado para ser um “filhote de leão”, como eram chamados os soldados mirins do califado.

O Estado Islâmico está entrando em colapso. Na Síria, no Iraque, na Líbia… Em todos esses lugares, eles estão perdendo território. Suas ambições de um califado mundial não estão se mostrando realizáveis.

Mas talvez isso já estivesse previsto. Havia um plano B, uma “política de segurança” pensada para prolongar a sobrevivência do grupo extremista depois da perda de controle sobre Raqqa, Sirte e Mosul.

Primeiro, veio o aliciamento, depois o recrutamento e o treinamento para criar um novo exército de crianças jihadistas, que poderiam virar combatentes adultos. A nova geração de ódio do Estado Islâmico.
Mutassim não tem muito perfil de guerrilheiro. Ele é baixo e nervoso. Eu o conheci no pequeno vilarejo alemão onde está vivendo agora. Estava fumando – um vício que adquiriu depois de deixar a Síria, já que isso é proibido pelo EI. E apesar de ainda não passar do meio-dia, ele me oferece uma lata de cerveja.

Ele diz que parou de rezar e abandonou suas crenças. Antes, ele havia absorvido por completo as lições do EI e seguia seu caminho extremista.

O jovem havia filmado lugares atingidos por ataques aéreos, ajudado feridos no hospital e testemunhado decapitações públicas. Ele também recebeu treinamento militar, o que é pré-requisito do grupo. No caso de Mutassim, durou apenas 15 dias – para outros, pode durar muito mais. O programa é rigoroso, começa às 4h da madrugada com orações. Exercício físico, treinamento para combate e lições sobre a sharia, a lei islâmica.

Como parte do treinamento, adolescentes tinham que saltar por pneus em chamas, rastejar sob arame farpado, enquanto balas disparadas voavam sobre suas cabeças.

Um amigo – um garoto de 13 anos do leste de Ghouta, perto de Damasco – foi atingido na cabeça por uma bala perdida e morreu. Mutassim viveu tudo isso antes de completar 16 anos.

Muitos grupos armados na África, no Oriente Médio e na América do Sul, treinaram crianças para batalhas. Recrutar crianças como soldados é um crime de guerra. Mas poucos refinaram esse treinamento de maneira tão eficiente quanto o EI.

Para se ter uma ideia, as unidades móveis de propaganda que o grupo levou a vários pontos do território mostram punições e combates. Crianças de cinco anos de idade frequentam esses lugares.

Vídeos filmados secretamente em Raqqa e enviados à BBC mostram crianças rodeando, animadas, uma espécie de jaula. Dentro dela, está um morador local, um comerciante local chamado Samir.

Eles encaram o prisioneiro, que está sentado no centro da jaula, com a cabeça entre os joelhos. Uma das crianças esguicha Samir com alguma coisa. De acordo a ficha de acusação, ele havia abusado sexualmente de uma mulher muçulmana. Sua punição era prover entretenimento às crianças – como um animal em um zoológico. Mas crianças como aquelas provavelmente já haviam visto muita coisa pior – como decapitações e execuções.

Os militantes têm sido cuidadosos na hora de recrutar adolescentes para a causa. Eles aliciam as crianças não apenas com promessas de salvação e paraíso, mas também com a realização de desejos mais terrenos.

A vida com o EI é difícil e perigosa, mas tem suas recompensas. Para Mutassim, prometeram uma esposa.

Quando tinha 14 anos e meio, estava muito a fim de se casar. Quando sua família recusou sua vontade, o EI entrou em cena. Eles o permitiram viver com eles, deram ao garoto responsabilidades, o ensinaram a dirigir e se comprometeram a encontrar para ele uma noiva.

Mutassim era um recruta voluntário. Ele diz que cerca de 70% dos jovens que se juntaram à organização tinham problemas familiares. “Eles usariam esses problemas contra suas famílias, então, ou elas supriam suas demandas ou eles se juntariam à organização.”

Mas conforme o tempo foi passando e a guerra se intensificando, a vida em Raqqa passou a ser mais difícil.

“Quando ocorreu o atentado ao estádio na França (novembro de 2015), ninguém podia dormir em Raqqa”, conta. “Os franceses bombardearam a cidade toda. Eu fiquei com raiva porque muitos civis inocentes morreram.”

Após outro ataque aéreo, ele ouviu crianças chorando, mulheres gritando por ajuda. “Foi uma cena que não vou esquecer nunca. Parecia um filme de ação.”

Aos poucos, Mutassim foi se desiludindo com o EI. Combatentes que antes ele via como corajosos e fortes não eram verdadeiros com suas crenças, segundo ele.

“Decidi sair quando vi um deles batendo em uma mulher. Fiquei furioso. Ele era um estrangeiro e estava batendo em uma mulher síria. Daquele dia em diante, comecei a odiar o Estado Islâmico. Foi preciso quatro meses até que eu conseguisse sair.”

Mutassim se reconciliou com sua família, que sempre o aconselhou a sair do país o quanto antes. Eles pagaram contrabandistas para ajudá-lo a escapar.

Raqqa e a área do entorno dela é um campo de batalha, com forças concorrentes em diferentes pontos de controle. Os riscos são altos – como o de ser capturado.

“Se você tentar sair, você será preso – a maioria dos que tentaram foram executados.”

Na fronteira sul da Turquia, encontrei Abu Jasen, o contrabandista de pessoas que ajudou a tirar Mutassim da Síria. Ele diz que a rota hoje é mais difícil do que era entre 2014 e 2015. Para alcançar a fronteira, a pessoa tem que passar primeiro pelas Forças Democráticas da Síria – uma aliança de curdos com árabes opositores do EI – que têm listas de nomes de recrutas do grupo extremista e estão à procura deles.

O próximo obstáculo é passar pelo território controlado pelo Exército Livre da Síria, que faz oposição ao presidente Assad e ao EI.

Mutassim descreve parte do desespero que passou durante a missão de fugir do EI. “Eles atiraram sobre nossas cabeças”, relata sobre quando cruzou a fronteira com a Turquia. Ainda que guardas sejam pagos para deixar os sírios passar, isso não torna o trajeto menos apavorante.

Depois o desafio foi cruzar a Grécia com um passaporte falso. Hoje, ele mora em um hotel para refugiados na Alemanha – e foi me contando os pesadelos que viveu na Síria e que nunca vai esquecer.

Estima-se que pelo menos 2 mil crianças já participaram de treinamento do EI para se tornar combatentes (Foto: Reprodução/BBC)

Estima-se que pelo menos 2 mil crianças já participaram de treinamento do EI para se tornar combatentes (Foto: Reprodução/BBC)

As autoridades alemãs não sabem nada sobre seu passado, nem que ele conseguiu viajar do território do Estado Islâmico até a Europa por um mês sem ser pego.

E Mutassim não veio sozinho.

Outro adolescente, que serviu o califado na Síria e em Mosul, no Iraque, conseguiu chegar até a Bélgica.

Omar tem 17 anos, mas poderia facilmente ser confundido com uma pessoa mais nova. Ele se pinta de garoto duro e ainda tem fortes características de quem foi enviado para lutar pelo Estado Islâmico.

O jovem está vivendo na Bélgica e foi expulso de três hostels para refugiados por ter sido indisciplinado. Demorou meses para contar sua história e, apesar de alguns exageros, pintou um quadro de abusos.

À medida que vai bebendo uma cerveja, Omar começa a se abrir sobre o EI. Suas respostas são formuladas com cuidado. Seus relatos são recheados de bravatas, mas logo dá para perceber que o tempo que passou no EI foi cheio de fracassos.

Ele também é de Raqqa, onde trabalhou em uma garagem. Juntou-se ao EI quando ainda era bem novo.

“Todos os meus amigos estavam com a organização, e decidi me juntar a eles porque, sinceramente, gostava deles. Eles tinham uma reputação boa no início, mas depois isso mudou.”

Depois de duas semanas de treinamento em Raqqa, o jovem foi enviado a Mossul, no Iraque, para reforçar o EI na cidade. Lá, ele ficou em uma casa por uma semana.

“Não saíamos de lá, nos disseram para não abrir a porta para ninguém.”

Mossul foi uma experiência decepcionante. Encontrou combatentes que estavam havia dois anos na cidade, sem um único dia livre. Muitos passaram o tempo todo na linha de frente de batalha, se alimentando apenas com iogurte, pão e tâmaras.

Omar não conseguiu se tornar o combatente que esperava.

Ele foi dispensado do Jaysh al Khilafa (o Exército do califado) por faltar nas aulas. Chegou a tentar novamente, desta vez para se juntar ao IED (responsáveis pela fabricação das bombas), mas também acabou rejeitado.

O jovem acabou trabalhando como informante, uma função de nível mais baixo, responsável por espionar curdos, fumantes (o Estado Islâmico proíbe o cigarro) e pessoas com armas não autorizadas. Ele recebia em dinheiro por cada informação que passava.

Mas seus dias com o califado acabaram rápido. O ponto derradeiro veio quando foi detido por um combatente argelino do EI que o acusou de estar fumando – já era tarde da noite, e o homem o levou para um carro, onde o estuprou.

“Eu fiquei com tanto medo, e ele tinha o controle de tudo, poderia me acusar de qualquer coisa e me levar para a polícia”, disse. Foi aí que Omar decidiu sair.

Hoje em dia, ele mantém seu passado em segredo. E sobrevive graças a suas “namoradas” – mulheres mais velhas que lhe dão dinheiro.

Ele não é uma ameaça para europeus, garante. “Eles eram meus inimigos, mas agora estou vivendo entre eles, comendo e bebendo com eles. Eles me receberam e cuidaram de mim. Comecei a odiar meu passado todo e decidi construir uma nova vida.”

Nos últimos meses, a BBC soube de pelo menos mais três outros ex-soldados mirins do EI vivendo na Europa. Eles não quiseram dar entrevista. A reportagem tentou conversar com as autoridades europeias sobre os casos, mas ninguém quis comentar.

Currículo de ódio

Mas o Estado Islâmico não apenas se concentrou em recrutar crianças para serem soldados nos campos de batalha. Ele avançou fundo na sociedade, nas casas, nas salas de aula, e na mente de crianças mais novas.

Assim que elas fazem cinco anos, são introduzidas a um vocabulário de conflitos e violência, conforme os livros escolares do califado revelam. Eles são os “filhotes do Califado” e o processo de transformá-los em guerreiros sagrados começa aí.

“Ó nação, Alá é nosso senhor, seja generoso com seu sangue. A vitória só pode ser atingida pelo sangue dos mártires”, é um dos versos ensinados às crianças do Estado Islâmico.

Assim como o movimento da Juventude de Hitler doutrinou jovens a servir os nazistas na época da Segunda Guerra Mundial, o grupo extremista islâmico desenvolveu um “aparato” para renovar seus seguidores regularmente. Quando assumiu o controle de Raqqa no inverno de 2014 e a transformou em sua capital, ela criou o Ministério da Educação, que logo emitiu seu primeiro decreto: as aulas de música foram banidas, assim como as aulas de educação cívica, história, esportes e até o currículo do governo sírio sobre educação islâmica.

Elas foram substituídas pela “doutrina jihadista” do EI e livretos sobre a sharia.

Como ainda não possuía livros para o currículo próprio, o grupo usava livros sírios existentes, só que estes eram censurados. “Exemplos que falavam sobre juros bancários, democracia, eleições ou darwinismo precisam ser apagados”, dizia um decreto do ministério. Professores foram orientados a preencher as lacunas do material apagado usando exemplos que “não contradizem nem as leis islâmicas, nem a política do Estado Islâmico”.

Em julho de 2014, o califado assumiu o controle sobre a cidade iraquiana de Mossul, seis vezes maior que Raqqa, e que tinha muito mais a oferecer em termos de recursos humanos e infraestrutura. Com isso, o Estado Islâmico passou a ter a expertise e os recursos para fazer todo seu currículo escolar desde o início.

Na escola primária, o material religioso incluía textos que instigavam as pessoas contra não-muçulmanos, além de propagandas para jovens enxergarem o EI de maneira positiva.

Foto do vídeo 'Treinando Futuros Leões', de propaganda do EI (Foto: Reprodução)

Foto do vídeo ‘Treinando Futuros Leões’, de propaganda do EI (Foto: Reprodução)

O currículo escolar do grupo extremista ficou pronto entre 2015 e 2016. As crianças se matriculariam aos 5 anos e se formariam aos 15, eliminando quatro anos da escola normal que existia até então. Elas seriam educadas em 12 disciplinas diferentes, mas todas em acordo com a doutrina do Estado Islâmico. Ser jihadista era algo institucionalizado e o inimigo estaria em qualquer lugar além das fronteiras do califado.

Agora, mesmo com a queda do Estado Islâmico em Mossul, e com a capitulação de Raqqa sendo esperada nos próximos meses, o EI continua ensinando seu currículo de ódio nas escolas de territórios que mantém sob seu controle na Síria.

Durante os anos no ensino primário, nas aulas de leitura em árabe, as crianças aprendem que há um fluxo de “inimigos” tentando profanar a dignidade dos muçulmanos – os xiitas, os sunitas que não seguem a doutrina do EI, os iranianos, o Ocidente, a aliança judeu-cristã (a coalizão militar que enfrenta o EI), a ONU… Desde cedo, o EI doutrina suas crianças sobre a guerra necessária contra os infiéis, que precisam ser “vencidos”.

Esses livros também estão atados aos ensinamentos controversos de Ibn Taymiyah e Ibn Al-Qayyim, estudiosos medievais cujos escritos se tornaram o alicerce do islamismo ultraconservador contemporâneo e da ideologia judaica salafista. Os textos revelam que crianças de seis a 11 anos estavam sendo repetidamente ensinadas sobre os conceitos de “amar os que amam Alá e odiar o resto”.

Mas talvez as subversões mais maquiavélicas do Estado islâmico estejam nos seus ensinamentos do Alcorão. O grupo instrui seus professores a vincular versos a conceitos jihadistas não convencionais em suas aulas. “Prepare-se para ensinar este versículo ensinando aos alunos que o objetivo de um jihadista em nome de Alá é conseguir a vitória sobre os infiéis ou morrer por Ele”, diz uma das instruções.

Os efeitos desse currículo extremista nas crianças podem ser sentidos no “Treinamento dos Futuros Leões”, um vídeo de propaganda do EI.

“Quem é seu emir (comandante)?”, pergunta o narrador.

“Abu Bakr al-Baghdadi (líder do EI)”, responde Abdullah, uma formosa criança do Cazaquistão, que não deve ter mais de 10 anos.

“O que você quer ser quando crescer, inshaallah?”

“Eu serei um matador. Serei um mujahid (combatente), inshaallah”.

Três meses depois, Abdullah aparece em outro vídeo exibindo uma arma e executando dois supostos espiões.

Formando um jihadista

E o que ocorre quando a jornada de um filhote do Estado islâmico na aprendizagem primária chega ao fim? Seu futuro status talvez possa ser melhor retratado pela capa de um livro de leitura para jovens de 11 anos. Ela apresenta uma criança com um rifle pendurado sobre seu ombro, embarcando em uma viagem cinza e nebulosa, o que provavelmente leva à guerra, onde sua determinação irá forjar ou quebrar.

Capa de um dos livros do currículo escolar do EI (Foto: Reprodução)

Capa de um dos livros do currículo escolar do EI (Foto: Reprodução)

O Estado Islâmico saiu de Mossul, mesmo assim ainda se ouve crianças cantando músicas enaltecendo ataques jihadistas contra o Ocidente.

“Vocês verão um conflito épico. Nós estaremos em suas casas. Nossos combatentes vão aterrorizá-los. Não há escapatória, senão a morte”, dizia uma das letras.

Usma e Yabcoub, de 12 anos, por exemplo, cantam essas músicas no pátio da escola ou em casa.

Eles se lembram de voltar andando para casa e ver cadáveres pendurados em postes. E se lembram também dos vídeos das decapitações.

Usma sorri quando me conta que seu novo corte de cabelo, raspado nos lados e mais longo em cima, teria lhe rendido 15 chibatadas sob o EI.

Yacoub não sorri quando passa o dedo pela própria garganta. “Eles não eram legais, eles decapitavam pessoas” ,diz.

Quando recrutava crianças, o EI apelava principalmente para suas emoções.

“O EI não se aproximava dos alunos de maneira violenta”, disse Yousef, um tutor. “Eles apelavam para seu lado emocional dizendo: somos sua família e vamos ajudá-lo a conseguir sua independência e liberdade.”

A primeira vez que falei com Yousef foi há dois anos, pela internet, quando ele nos passou informações sobre a ocupação do EI em Mossul. Ele me passou todo o currículo escolar do grupo extremista.

Yousef viu a doutrina do EI tomar conta das salas de aula e alguns dos seus alunos desaparecerem. Seus pais morreram ou lutando pelo grupo extremista ou pela mão de seus combatentes.

“As crianças são um solo fértil. É mais fácil para o EI fazer uma lavagem cerebral com elas quando ainda são jovens do que quando adultos”, diz Yousef.

Em alguns casos, segundo ele, famílias chegavam a ceder suas crianças ao grupo para proteger outros parentes.

Segundo a ONU, não importa a forma como as crianças acabam nos grupos armados do Estado Islâmico  – seja de maneira voluntária, por sequestro ou coagidas, todos os “soldados mirins” são vítimas.

Aquelas que foram retiradas muito cedo de suas famílias não têm lembranças de uma infância normal e são as mais difíceis de serem “salvas” dos extremistas.

'As crianças são um solo fértil. É mais fácil para o EI fazer uma lavagem cerebral com elas quando ainda são jovens do que quando adultos', diz Yousef (Foto: Reprodução/BBC)

‘As crianças são um solo fértil. É mais fácil para o EI fazer uma lavagem cerebral com elas quando ainda são jovens do que quando adultos’, diz Yousef (Foto: Reprodução/BBC)

Os crimes do EI são muitos: estupro, destruição, genocídio e terror. Um dos seus legados mais prejudiciais é justamente o das crianças deixadas sem qualquer futuro, as que viveram sob seu comando e acabaram perdendo seu passado e presente para viver o caos da guerra.

É difícil ter números exatos, mas estima-se que 2 mil crianças se tornaram “Filhotes de Leão do Califado”, crianças-soldado para a máquina de guerra do EI – e milhares de outras delas foram aliciadas pela propaganda jihadista das salas de aula.

Elas são vítimas – e algumas são ameaças. Quase todas acabam às margens de qualquer sociedade que acabem frequentando quando adultas.

E há também o problema da reincidência. Especialistas apontam que alguns deles acabam na criminalidade, já que já desenvolveram todas as habilidades para isso.

Identificar os mais afetados por tudo isso é difícil. Tratá-los, por um fim a seus pesadelos e traumas será custoso e levará tempo. Eles perderam muito tempo longe de uma escola apropriada, e encontrar empregos para quem cresceu dessa maneira é outro desafio. Além disso, retornar à fé real, àquela que não está poluída pela ideologia jihadista, exige perseverança.

Pode ser que seja possível trazê-los de volta à sociedade e para ajudar o Iraque e a Síria a se reconstruírem. É importante também tratar aqueles que conseguiram fugir para o Ocidente, para evitar que eles se tornem criminosos.

Mas não será fácil. Talvez os especialistas do Estado Islâmico já imaginassem tudo isso quando criaram esse sistema.

Porque apesar da boa vontade, quem quer ajudar um menino que sonhava em ser um suicida jihadista?

BBC

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