Carlos Lima
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Internacional
Carlos Lima | Publicado em 12/12/2017 às 09:34:11

Autor do atentado de NY diz que reagiu à ação dos EUA na Síria

Autor do atentado de NY diz que reagiu à ação dos EUA na Síria Viaturas de polícia, ambulâncias e equipes de resgate se concentram perto do terminal rodoviário de Port Authority, em Nova York, onde houve uma tentativa de atentado terrorista com uma bomba caseira (Foto: Andres Kudacki/AP)

Um atentado terrorista sem mortos costuma despertar menor revolta. Não deveria ser assim. A explosão de ontem em Nova York só não causou uma tragédia maior por erro do terrorista, não por competência da polícia ou das autoridades.

Apenas 41 dias depois que um uzbeque, motivado pela propaganda do Estado Islâmico (EI), atropelou ciclistas e pedestres no sul da ilha de Manhattan, um bengalês identificado como Akayed Ullah entrou munido de uma bomba caseira numa movimentada passagem de pedestres que liga estações de ônibus e metrô perto de Times Square.

O artefato estava atado ao corpo do terrorista. Rudimentar, era constituído por um cano repleto de cabeças de fósforo, ativado por uma lâmpada decorativa de Natal quebrada. A explosão não obteve o efeito desejado, embora tenha ferido Ullah e três transeuntes.

A falta de mortos não obscurece o óbvio: um terrorista detonou uma bomba numa das áreas mais vigiadas e mais movimentadas do planeta. “Ficamos cegos pelo baixo número de vítimas”, escreveu a jornalista especializada Rukmini Callimachi, do New York Times. “Não esqueça: dez terroristas causaram os ataques catastróficos de Paris em 2015. Três deles só mataram a si próprios.”

Ela apresentou cartazes de propaganda do EI conclamando por ataques às vésperas do Natal na Times Square. Em seu depoimento à polícia, Ullah afirmou que atacou no local por causa de pôsteres com mensagens natalinas, numa retaliação contra bombardeios americanos na Síria. Canais de propaganda do EI no aplicativo Telegram incitam há semanas simpatizantes a adotar motivos natalinos como alvo.

É comum atribuir ataques como o de ontem a “lobos solitários”, impossíveis de deter. A rede de propaganda que instiga os terroristas, contudo, depende de uma estrutura digital conhecida, em especial o Telegram, que as autoridades falham em monitorar.

Mesmo que os grupos jihadistas nessas redes estejam infiltrados, não costuma haver – exceto nos atentados planejados em grupo, como em Paris ou Bruxelas – uma ordem direta do comando do EI para a ação. É comum que os terroristas já estivessem numa lista de suspeitos. Mas é impraticável vigiar todos.

“Ataques terroristas são frequentemente levados a cabo por indivíduos que estavam no radar”, escreve o analista militar Thomas Quiggin na última edição da Perspectives on Terrorism. “Como avaliar tais indivíduos de modo mais eficaz para evitar ataques futuros?”

A resposta do governo americano, expressa ontem pelo presidente Donald Trump, tem sido defender restrições à imigração. Sallah morava nos Estados Unidos desde 2011 e tinha visto de trabalho. O uzbeque Sayfullo Saipov, que matou oito pessoas no Sul de Manhattan no final de outubro, fora sorteado na loteria anual que concede cidadania americana e morava no país desde 2010.

Mas nem Uzbequistão nem Bangladesh integram a lista de seis países para cujos cidadãos o governo Trump vetou a entrada nos Estados Unidos. Embora o controle das fronteiras possa fazer parte de uma estratégia mais abrangente de combate ao terror, é duvidoso que, por si só, diminua o problema. Para atacar, o EI em geral não usa só imigrantes, mas nativos ou cidadãos locais.

A principal falha do Ocidente no combate ao terror, segundo Quiggin, é a falta de uma estratégia consolidada. “O crescimento rápido do extremismo islâmico no Ocidente não é aleatório”, diz. “É organizado por uma variedade de grupos bem financiados. Embora representem várias teologias, compartilham uma ideologia comum de supremacia islâmica.”

A ascensão recente do EI é apenas parte do problema. A derrota total do pretenso “califado” mantido pelos terroristas em território da Síria e do Iraque não será capaz de eliminar o terror no Ocidente. “O colapso do EI será apenas convertido em ‘martírio’ na narrativa islâmica, e a luta continuará”, diz Quiggin.

As recomendações dele para combater o terrorismo exigem uma ação conjunta das autoridades nos países ocidentais. Começam pela admissão de que “existe um problema islamista global”, disseminado pela Europa, crescendo velozmente e financiado por organizações conhecidas.

É preciso, diz Quiggin, pôr tais organizações na ilegalidade, desbaratar as redes de pregação dos extremistas (inclusive mesquitas, escolas e centros culturais que lhes servem de fachada), congelar os recursos nas plataformas de financiamento e agir taticamente para desbaratar a propaganda jihadista nos meios digitais.

A dificuldade é maior nos países europeus, onde se estima haver até 100 mil extremistas islâmicos. “Os obstáculos mais significativos a uma estratégia de combate ao extremismo islâmico na Europa são o ‘politicamente correto’ e o relativismo cultural”, escreve Quiggin. “Imprensa e polícia têm medo de discutir ou agir em relação a qualquer questão que possa identificá-las como racistas ou islamofóbicas.”

Sem adotar uma visão estratégica correta contra a ideologia supremacista mortífera, as tentativas de conter a ameaça são naturalmente limitadas. A explosão de ontem revela um fracasso muito maior das autoridades para adotá-la que dos terroristas para sabotá-la.

 Helio Gurovitz

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