Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 19/12/2019 às 18:11:31

A greve negra na Bahia escravista

A greve negra na Bahia escravista Grupo de ganhadores na Bahia

Calcula-se que o tráfico transatlântico de escravos tenha consumido cerca de 12 milhões de seres humanos, que foram arrancados da África para serem escravizados nas Américas. O Brasil absorveu o maior número desses desafortunados: aproximadamente 5 milhões desembarcaram por aqui.

Distribuídos de norte a sul, os escravizados foram utilizados em diferentes serviços: da degradante rotina nas lavouras às exaustivas tarefas domésticas, era sobre ombros negros que incidia o peso da labuta diária.

A crueza dos senhores de escravos e os horrores do escravismo são de conhecimento comum. Até recentemente, os livros didáticos de História eram pródigos em construir explicações enviesadas. Apresentavam, com raras exceções, escravizados sempre em situação de açoite, penúria, submissão; em suma, vitimizados em tempo integral.

A quem servia tecer um passado no qual os negros eram coisificados e não tinham vontade própria?

Quantas crianças abriram os livros e se identificaram com seus antepassados, valorizando seus feitos?

Quantas autoestimas destroçadas por essas perversas narrativas que apresentavam o negro sempre inferiorizado?

Que a violência foi imperativa durante a escravidão é inquestionável, porém, onde houve escravidão, houve resistência. Os cativos não eram vítimas e nem heróis o tempo todo. O escravizado “acomodado” de hoje podia ser um rebelde obstinado no dia seguinte.

É um equívoco acreditar que o regime escravista se assentava apenas na violência. Pelo contrário, uma complexa teia de negociações e conflitos pautou as relações entre senhores e escravizados. Quando a negociação era desrespeitada por uma das partes, abriam-se os caminhos da ruptura, que poderiam ser castigos (dos senhores) e fugas (dos escravizados).

A fuga e a formação de quilombos (comunidade de fugitivos composta majoritariamente por negros, mas que às vezes abrigava indígenas e brancos pobres) foram uma das formas de resistência. Havia inúmeras outras, que ocorriam cotidianamente de forma miúda, discreta, até mesmo invisível.

Mesmo sob a ameaça constante do chicote ou vigiados pelos feitores, os escravizados incendiavam plantações, agrediam e matavam senhores, enganavam capitães do mato, faziam “corpo mole” no trabalho, fingiam doenças e confabulavam rebeliões.

Nas áreas urbanas, os escravizados se misturavam a outros trabalhadores e aproveitavam a agitação das ruas para empreender fugas rumo a outras regiões, inclusive para fora do Brasil. Um escravizado de nome Bento, por exemplo, subiu a bordo de um navio ancorado no Rio de Janeiro e foi achado caminhando tranquilamente nas ruas de Londres.

Os escravizados constituíram família, montaram redes de apoio mútuo, fundaram irmandades religiosas, formaram grupos de trabalho e construíram alianças para aliviar o peso do cativeiro. Apesar das diferenças entre os grupos étnicos, muitas vezes os laços de solidariedade superavam as rivalidades, numa aproximação que poderia começar nos porões dos navios negreiros durante a travessia do Atlântico.

Eles também negociavam com senhores, autoridades coloniais e com toda sorte de gente, oferecendo suas habilidades e serviços, fosse na labuta, nas artes de cura ou no trato com divindades religiosas.

Em 1857, um evento inédito marcou a resistência de negros (escravizados e libertos) que trabalhavam no transporte de mercadorias e de pessoas nas ruas de Salvador, na Bahia. Insatisfeitos com uma medida encabeçada pela Câmara Municipal, os ganhadores e as ganhadeiras (como eram conhecidos esses trabalhadores) resolveram entrar em greve.

Cruzaram os braços em pleno regime escravista, naquela que se configurou como a primeira greve da história do Brasil. O termo “ganhador” foi utilizado para os escravizados que acordavam com seus senhores a entrega semanal de determinada quantia em dinheiro pelo trabalho que realizavam; o que sobrava, podiam embolsar. Daí, portanto, a expressão “escravo de ganho”.

Estudada pelo historiador João José Reis no livro Ganhadores: a greve negra de 1857 na Bahia (Companhia das Letras, 2019), a paralisação deixou desertas as ruas soteropolitanas no primeiro dia de junho de 1857, data em que teve início.

O movimento começou como um protesto contra a obrigação de registro desses trabalhadores na Câmara Municipal. Tal medida determinava que só poderiam circular pelas ruas da cidade os ganhadores licenciados pela Câmara e que portassem uma chapa de metal pendurada junto ao corpo, com o número correspondente a sua matrícula. Aos transgressores, seria aplicada multa e prisão de oito dias.

Além dessa medida, outras desagradavam os ganhadores, como o pagamento de um imposto profissional a que estariam obrigados, bem como uma série de ações de controle policial que buscavam disciplinar e controlar suas atividades.

Os negros não se fizeram de rogados. Ante os desmandos das autoridades, pegaram todos de surpresa e simplesmente suspenderam suas tarefas. Como era um movimento inédito (reforço, jamais houvera greve no Brasil até então), inexistia legislação que os obrigasse a voltar ao trabalho.

A propósito, nem sequer havia grevistas nas ruas que pudessem ser coagidos a retomar a labuta, pois eles não saíram de suas casas.

A cidade tremeu nesses dias. Segundo João José Reis, “as autoridades ficaram desnorteadas. Não era revolta, não era quilombo, não era sequer um protesto contra a escravidão, mas uma suspensão do trabalhador africano, e não apenas escravizado, contra o Estado”. (Reis, 2019, p. 16)

Por cerca dez dias, praticamente toda a população livre de Salvador ficou agoniada com a paralisação. Os jornais noticiavam os prejuízos, cobravam medidas enérgicas das autoridades e registravam temor pelo iminente desabastecimento. As autoridades estavam aflitas, a cidade virou um caos e os ganhadores perturbaram o sono daqueles que dependiam da sua força de trabalho.

Os dias foram passando, sem muitos sobressaltos, e as necessidades do ganho, aliadas às pressões senhoriais, foram dirimindo o movimento grevista. Em 12 de junho de 1857, a greve estava praticamente terminada e o transporte nas ruas de Salvador retornava à normalidade.

Apesar de não terem conseguido derrubar a chapa de metal, já que muitos ganhadores apareceram nas ruas com o objeto exposto, a paralisação obteve êxitos: a taxa de matrícula estava abolida e outras medidas preconizadas pela Câmara foram modificadas.

A partir de então, uma série de ações foram adotadas para vigiar e controlar os ganhadores, evidenciando o pavor que esses trabalhadores despertavam nos poderosos senhores baianos.

Eventos como esse demostram que a escravidão no Brasil foi um sistema complexo e multifacetado. Reduzi-lo a explicações simplistas e maniqueístas ofuscam e contaminam o entendimento sobre o período.

Cerca de 162 anos depois da greve, o movimento paredista da Bahia ainda tem muito a nos ensinar, sobretudo num tempo em que os direitos dos trabalhadores escorrem pelo ralo, sindicatos são reduzidos a pó e as lutas intragrupos minam qualquer possibilidade de solidariedade que solape os descalabros do neoliberalismo.

É imprescindível perceber que os grilhões não impediram que os escravizados nos transmitissem preciosos ensinamentos.

O mais importante deles, talvez, foi evidenciar que, como sujeitos históricos, interagimos com o sistema, seja azeitando suas engrenagens, seja derramando areia em seus mecanismos. Ensinaram também que a solidariedade opera transformações profundas e que os sistemas são inertes, funcionando apenas para quem acredita neles.

Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos

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