Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 11/07/2019 às 09:47:31

Ciência e poesia se misturam em livro para crianças enxergarem o invisível

Ciência e poesia se misturam em livro para crianças enxergarem o invisível Ilustração do livro 'Assim eu vejo'. Foto: Editora Brasil

 Quanto de poesia cabe na ciência? Ou melhor: quanto de ciência cabe na arte?

Há quem diga que nada, que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Que a ciência orbita o campo da razão, enquanto a arte pertence ao campo oposto, onde estão os sentimentos e o sublime.

Mas como negar que foi o reflexo da lua na água –portanto, um fenômeno físico, mais especificamente ótico– que deu origem a um dos poemas mais bonitos da língua portuguesa, “Ismália”, de Alphonsus de Guimaraens: “Quando Ismália enlouqueceu,/ Pôs-se na torre a sonhar… /Viu uma lua no céu,/ Viu uma lua no mar […]”.

Ou que um fenômeno complexo como o deslocamento de areia do Saara em direção a outras partes do mundo tenha inspirado a música “Reconvexo”, de Caetano Veloso: “Eu sou a chuva que lança a areia do Saara/ Sobre os automóveis de Roma […]”.

Pois há inúmeros outros exemplos –e um dos mais interessantes para crianças é o livro “Assim Eu Vejo”, dos ucranianos Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv, que foi publicado por aqui pela Editora do Brasil.

A obra se debruça sobre o universo da visão e da ótica e, como todo bom livro ilustrado, apresenta diferentes níveis de leitura. Dois são os eixos principais: de um lado está o texto, com alta carga poética; de outro, as ilustrações, que servem de base para curiosidades e informações puramente científicas.

Enquanto o texto embala o leitor com delicadezas. como “todos têm vontade de se esconder de vez em quando” ou “os olhos me ajudam a encontrar verdadeiros tesouros”, pequenas frases conectadas aos desenhos e espalhadas pelas páginas abrem mão das metáforas para fazer as vezes de almanaque.

Informam, por exemplo, que os primeiros espelhos surgiram entre o terceiro e o primeiro milênio antes de Cristo. E que as pupilas funcionam como diafragmas de uma câmera fotográfica. Dizem ainda coisas mais malucas: você sabia que, por alguns dias depois do nascimento, os bebês enxergam o mundo de ponta-cabeça? Isso dura até que o cérebro se acostume.

É desse choque entre o quente e o frio, o sublime e o concreto, a ciência e a arte, que o livro extrai sua potência. Isso sem falar das ilustrações.

Especializados em design editorial, os autores criam desenhos com cores vibrantes e formas chapadas que se mesclam a colagens e fotos para criar um verdadeiro mergulho.

É como se fosse preciso ler o livro pelo menos três vezes para absorvê-lo completamente. Na primeira, presta-se a atenção no texto. Na segunda, nas informações científicas. Na terceira, nas ilustrações. Para, só assim, compreender não apenas o que está visível aos olhos –mas, sobretudo, o que está invisível.

ASSIM EU VEJO

Autor e ilustrador: Romana Romanyshyn e Andriy Lesiv

Tradutora: Flora Manzione

Editora: Editora do Brasil

Preço: R$ 61,20 (2018, 64 págs.)

Indicação: Leitor intermediário + leitura compartilhada

FolhaPress SNG

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