Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 23/12/2017 às 14:02:51

Da Vinci, um ecologista no século XV

Da Vinci, um ecologista no século XV El libro del agua. Leonardo da Vinci.

“Como a água num cesto”: o líquido impossível de segurar e fugidio que se vai —e isso inclui estigmas da seca—, o todo flui de Heráclito porque nenhum rio é o mesmo… e a fúria criadora de Leonardo da Vinci (Vinci, Itália, 1452 – Amboise, França, 1519), aquele pintor de madonas, maravilhas e meios-sorrisos, urbanista, arquiteto, astrofísico, escultor, filósofo, anatomista, geômetra, utopista aéreo… também aquele escritor caótico que fazia anotações da direita para a esquerda, e também um obsessivo navegante da água em todas as suas expressões: o pai da Mona Lisa deixou escritos ou desenhados 7.000 fólios sobre o elemento líquido. Um mundo de letras e rabiscos em códices renascentistas, uma obsessão sem corpus estável que agora renasce em forma de livro, El Libro del Agua (o livro da água, lançado na Espanha por Abada Editores), graças à perseverança de Juan Barja e Patxi Lanceros.

Há somente dois precedentes da obra. O primeiro deles remonta a nada menos que 1643 e é de autoria de Luigi Maria Arconati, que em Del moto e Misura dell’Acqua (sobre o movimento e a medida da água) se dispôs a unificar os escritos de Leonardo sobre a questão. É possível dizer que aquele livro nasceu como consequência do sucesso editorial —se é que se pode falar desse conceito em referência aos séculos XVI e XVII— do célebre Trattato della Pittura (Tratado de Pintura), que reunia todo o saber artístico do gênio. A outra referência é um pouco mais recente, de 2012 para ser preciso, e é intitulada Das Wasserbuch (o livro da água). O livro foi publicado pela editora alemã Schirmer und Mosel.

Em múltiplos manuscritos de Da Vinci são encontradas referências à água em todas as suas variantes, mas são duas as obras que os especialistas consideram sementes do livro que sempre quis escrever e nunca fez: o Códice Leicester, de 1508 e hoje propriedade de Bill Gates; e o Códice F, de 1504, mantido no Instituto da França. “Sabemos que sempre houve em Leonardo a intenção clara de fazer este livro, mas nunca conseguiu. Nós não quisemos encerrá-lo, mas sim deixá-lo aberto, para que suas entranhas sejam vistas, reunindo os textos que ele escreveu sobre o tema da água e que estão dispersos por diversos códices”, explica Fernando Guerrero, responsável pela editora Abada.

Patxi Lanceros e Juan Barja dedicaram cerca de dois anos de trabalho a este ambicioso projeto editorial. Grande parte desse tempo passaram estudando e traduzindo os códices (manuscritos em madeira) de Da Vinci espalhados pelo mundo inteiro, desde o Castelo de Windsor até a Biblioteca Nacional da Espanha, passando pela Biblioteca Vaticana, pela coleção Gates, pelo Instituto da França e pelo Museu Britânico, entre outros.

Uma obra inexistente
“Este é um livro que nunca existiu, embora o próprio Leonardo Da Vinci falasse sobre ‘il mio libro del acqua’, daí que o que fizemos foi construí-lo. Da Vinci passou toda sua vida tomando notas, da direita para a esquerda e de forma muito desordenada, uma folha aqui, outra ali, e esses fragmentos estão espalhados pelo mundo”, explica Juan Barja. Em sua opinião as teses metamórficas que Da Vinci expõe ali são comparáveis às expressas 200 anos depois.

“E há uma certa ideia ecológica do fim do mundo, seu caráter premonitório é assombroso.” Leonardo ecoa aqui uma velha tese medieval: a do homem como microcosmo e o mundo como macrocosmo. “Mas ele torce o conceito, e assim defende que o fluxo da água seja as veias do mundo, e que o mundo, contrariamente ao que disse Aristóteles, não será eterno, e sim que terminará, e que o fará pelo esgotamento da água”, afirma Barja.

Nesse sentido soa particularmente premonitório um dos textos, incluído no Códice Arundel, do Museu Britânico (1504-1516), e que os responsáveis por esta edição usaram como um epílogo, sob o título Final: en seco (o fim: a seco). Nele escreve um Leonardo da Vinci disfarçado de ativista ecologista avant la lettre: “E os rios perderão suas águas, e a frutífera terra não conseguirá gerar de si nenhum broto, e não crescerá sobre os campos a inclinada beleza da espiga; e assim morrerão os animais, não podendo se nutrir com as frescas ervas dos prados; (…) e os homens, depois de múltiplas tentativas, de igual forma perderão a vida, morrendo por fim a espécie humana. E a terra fértil, rica em frutos, será transformada num deserto…”.

Os fluxos da vida
Mas não é só de ecologia retroativa que há faíscas nas 260 páginas deste livro. Se Da Vinci estudou, desenhou e escreveu sobre anatomia, mecânica, cinemática, geometria, arquitetura, urbanismo, botânica, filosofia, natureza, física e mil e um outros campos, este livro constitui um compêndio —às vezes um ponto de partida— de outras tantas disciplinas. Juan Barja defende que os escritos de Da Vinci sobre a água servem como chave para interpretação da teoria do tempo, da teoria da memória, da consciência, da mudança e dos movimentos de massas.

É impossível encontrar provas a esse respeito, mas cabe refletir sobre os hipotéticos paralelismos, concomitâncias, analogias e metáforas estabelecidos por Da Vinci na hora de utilizar a imagem dos fluxos da água como espelho de outros fluxos da vida real: políticos? Econômicos? Culturais?

“Sem dúvida, creio que ele tivesse muito claro o poder da metáfora”, diz Patxi Lanceros, professor de Filosofia Política e de Teoria da Cultura na Universidade de Deusto e coeditor do livro. “A grande metáfora do fluxo, do grande rio, do movimento, da maré, das ondas, todas essas imagens que servem para abarcar o que não pode ser abarcado… agora por exemplo falamos de ondas de migração, ou de maré da globalização… e Da Vinci, para falar do movimento, empregava, claro, a metáfora da água, que é o mais móvel de todos os elementos.”

BORJA HERMOSO

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