Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 10/05/2017 às 11:33:39

“História da Menina Perdida”, de Elena Ferrante, chega às livrarias nos próximos dias

“História da Menina Perdida”, de Elena Ferrante, chega às livrarias nos próximos dias Epílogo da cultuada tetralogia napolitana já está em pré-venda pela internet

Com chegada prevista para os próximos dias nas livrarias brasileiras (e já em pré-venda pela internet), História da Menina Perdida é o aguardado capítulo final da chamada tetralogia napolitana – publicada originalmente entre 2011 e 2014 com a assinatura da escritora italiana Elena Ferrante.

Ao longo das 1,7 mil páginas dos quatro volumes é narrada a história de uma amizade cheia de conflitos entre duas mulheres, da infância, nos anos 1950, aos dias de hoje. Por meio da relação de afeto e competição entre Elena (apelidada Lenù) e Rafaella (Lina ou Lila), bem como por um cativante elenco de coadjuvantes crescidos no bairro napolitano de origem das duas amigas, Ferrante constrói um amplo panorama histórico e social da Itália do pós-guerra, sem nunca perder de vista a dimensão íntima fundamental da narrativa: a ambiguidade cheia de arestas entre as personagens principais.

Elena Ferrante é a escritora italiana em atividade com maior reconhecimento internacional hoje. Provavelmente nasceu e cresceu em Nápoles, dada a riqueza de detalhes e cores com que apresenta a cidade em quase todos os seus livros. Embora esta última hipótese pareça improvável para quem leu seus livros, ela pode ser até mesmo um homem. Elena Ferrante é um pseudônimo por trás do qual uma escritora que prefere não revelar sua identidade vem construindo, desde os anos 1990, com seu primeiro romance, O Amor Incômodo, uma das obras mais consistentes da literatura contemporânea.

Antes do reconhecimento internacional, Ferrante consolidou uma carreira de sucesso na Itália. Seus romances O Amor Incômodo e Dias de Abandono (os dois já publicados no Brasil) foram adaptados para o cinema.

Mas o ponto de virada que a tornou best-seller internacional se deu com a publicação, a partir de 2011, dos quatro volumes da tetralogia napolitana, que já venderam, alegadamente, mais de quatro milhões de exemplares – no Brasil, onde A Amiga Genial, primeiro romance da série, foi publicado em 2015, a conta estaria em mais de 100 mil exemplares, razão da corrida das editoras para colocar praticamente toda a obra da autora em circulação no país.

Embora Ferrante escreva com pseudônimo desde o início, a aclamação com que A Amiga Genial e os romances subsequentes foram recebidos atiçou os interessados em desvendar seu mistério. No ano passado, um jornalista italiano, Claudio Gatti, alegou em artigos para o New York Review of Books e para o italiano Il Sole 24 Ori haver descoberto a identidade da autora: a tradutora italiana Anita Raja.

Gatti analisou extratos da Edizione E/O e concluiu que Anita era a beneficiária das grandes somas de direitos autorais dos bem-sucedidos livros. A revelação provocou imediata repulsa pública por parte dos leitores fiéis da autora – que, afinal, tem direito a escrever sob pseudônimo, uma longa tradição literária, aliás. Para os admiradores de Ferrante, vale a declaração com que justificou seu anonimato pela primeira vez aos editores: os livros podem caminhar sozinhos sem a figura de seu autor.

A tetralogia napolitana ainda é apresentada, na superfície, como uma história da amizade entre duas mulheres. E é, mas esse é apenas o ponto de partida. Para embarcar, não é preciso ser mulher, ter ascendência italiana ou acreditar que conhecimento é um passaporte a outras vidas.

Nos quatro volumes, Elena Ferrante traça um dos mais humanos e impiedosos retratos da civilização ocidental contemporânea. O que começa com duas meninas brincando de boneca segue emaranhando os fios da competição e do companheirismo ao longo da vida, com todas suas contradições.

Transborda para o bairro, para a cidade, para o país e para o mundo, percorrendo além do stradone, a busca pelo saber, a economia, a política, a transformação digital, o espanto com a transformação de amigos e amores de infância.

O quarto volume não poderia chegar em momento mais oportuno. O capítulo final de Elena e Lila passa pela Operação Mãos Limpas, inspiradora da Lava-Jato. É difícil detalhar o feroz fecho da saga sem cometer spoilers. A expectativa depois de A Amiga Genial era grande.

A História da Menina Perdida não frustra um grama, ao contrário da balança da charcutaria onde Lila constrói A História do Novo Sobrenome. As cenas finais ecoam todas as escolhas até o volume anterior, A História de Quem Foge e de Quem Fica. Será preciso se preparar para uma revisão dos papéis de Tina e Nu, as bonecas das protagonistas que, como toda criança sabe, representam bem mais do que brinquedos.

Por: Carlos André Moreira

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