Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 11/06/2019 às 11:32:37

Livro cria ladainha poética a partir de miudezas esquecidas

Livro cria ladainha poética a partir de miudezas esquecidas Foto: Eduardo Knapp/Folhapress

Os historiadores talvez não escrevam sobre as migalhas. Não darão bola para o fato de que, no passado, todo mundo acreditava que menino que brincava com fogo fazia xixi na cama. Que Garrincha, para explicar por que só usava o pé direito, dizia: “Se eu chutar com os dois, eu caio”. Ou que o urso, mascote da sapataria, morria de calor em Copacabana.

Mas é de fragmentos assim que é feito o livro “Memorando”, de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles, que volta às livrarias 26 anos após o lançamento de sua primeira edição. São pedacinhos de lembranças que tentam reconstituir o que viveu uma geração que passou a juventude no Rio de Janeiro entre os anos 1950 e 1970.

Moreira Salles, 73, resolveu acrescentar memórias à nova edição. Diz esperar que cada fragmento seja uma madeleine para o leitor, em referência ao bolinho que faz o protagonista de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Proust, recordar sua infância. O romance do autor francês tem como seu principal tema a ideia de que o passado não pode ser resgatado pelo intelecto. Isso só poderia se dar involuntariamente.

“É um exercício despretensioso sobre a memória, mas não é um exercício nostálgico. É a história de uma geração num espaço carioca e um pouco paulista”, diz Moreira Salles.

“Memorando” é inspirado em “Je Me Souviens” (eu me lembro), livro de Georges Perec, membro do grupo literário Oulipo e um dos precursores do chamado nouveau roman, escola francesa de literatura experimental -Perec, por exemplo, escreveu um romance inteiro sem a letra “e”, a mais comum no francês.

O resultado é que cada fragmento começa com a frase “eu me lembro”, como se fosse uma ladainha poética.

“Tem migalhas que a gente aprendeu a esquecer, mas que eventualmente podem contar uma parte recôndita do que fez dessa geração um pouco o que ela é”, afirma Moreira Salles.

Mayrink, escritor e jornalista com passagens por diversos veículos, morreu em 2009 -os dois foram amigos até o fim da vida. As novas gerações talvez o conheçam pelo vídeo, disponível no YouTube, de um episódio do programa Vox Populi, em 1972. Nele, Caetano Veloso se irrita com uma pergunta do jornalista e o xinga de burro.

Moreira Salles teve passagens pelo jornalismo, como quando editou a revista Istoé, nos anos 1980, e quando foi resenhista de livros da Playboy. Ele, que também é poeta, foi sócio e diretor da Companhia das Letras por cerca de 30 anos -deixou a casa no ano passado, quando a Penguin Random House comprou o controle majoritário da editora.

Ele diz que só acrescentou memórias que lembrava de ter discutido com o amigo, mas que, por qualquer motivo, não haviam entrado na edição final da obra. Os dois se encontravam em restaurantes de São Paulo para discutir o que incluir –em 1995, virou um monólogo interpretado por Irene Ravache, com direção de Ulysses Cruz.

“Olhar a realidade que gente carrega e, às vezes, machuca é difícil se você estiver olhando aquele fulgor de frente”, diz Moreira Salles. “A migalha, aquilo que você esqueceu nos bancos da escola, a cançãozinha que você cantava com os amigos e de repente faz lembrar que a infância não é uma coisa tão alegre e divertida -a gente tenta trazer isso.”

 FolhaPress

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