Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 20/01/2018 às 12:38:13

Passeando entre jornalismo e literatura

Passeando entre jornalismo e literatura Cony legou obras essenciais

 Autora analisa a trajetória do premiado escritor Carlos Heitor Cony, que era colunista da Folha e morreu no último dia 5. Para ela, o romance “O Ventre” (1958) é um dos marcos de nossa maturidade literária, por trazer a mesma angústia existencial que então era lida e admirada nos franceses Sartre e Camus.

Na fase que se seguiu ao modernismo, com a criação dos cursos de letras nos anos 1930, a crítica literária disciplinou-se.

O debate desse campo se deslocou de espaços jornalísticos ou informais e a literatura pareceu deixar de ser fonte de prazer, de provocação intelectual, de conversas entre amigos para ser parte de currículo, matéria de prova. Os primeiros professores, improvisados, eram os grandes leitores da época, críticos profissionais ou diletantes. Homens eruditos que pareciam não temer o famoso “critério do gosto”.

Criou-se então, no mundo das letras, a casta dos especialistas: notórios e competentes detentores de saberes práticos que, no entanto, Jean-Paul Sartre opunha aos intelectuais.

No ensaio “Plaidoyer pour les intellectuels” (a palavra “plaidoyer” é mais do que “defender”, guarda o sentido de “lutar por uma causa”), ele diz: “O intelectual é alguém que se mete no que não é de sua conta e que pretende contestar o conjunto das verdades recebidas e das condutas que nelas se inspiram, em nome de uma concepção global do homem e da sociedade”.

E logo nos lembramos de Carlos Heitor Cony (1926-2018), escritor abundante, distante do tema ou do formato único, exercendo o ofício de jornalista disposto a interferir na realidade ao mesmo tempo em que fazia funcionar a imaginação ficcional.

Conforme os especialistas se legitimavam por seu saber cada vez mais específico, ainda que obtido com inegável e louvável esforço, maior se tornou o abismo entre o profissional disciplinado, de um lado, e, de outro, o intelectual, aquele que ainda guarda o desejo de pensar com liberdade, de mudar de opinião, de conviver com a dúvida, de, digamos, ensaiar.

É interessante notar que Cony foi um dos escritores brasileiros que mais receberam láureas literárias: três Jabutis e o importante prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, entre diversas outras honrarias.

CONSAGRAÇÃO

“Quase Memória”, de 1995, foi uma unanimidade entre os lançamentos do ano, arrebatando vários prêmios. Cony voltava à literatura depois de duas décadas e mexia com o gênero de prestígio.

Nesse “quase romance”, o autor mexe com o modelo romanesco e seus limites. Um pacote que lhe teria sido deixado pelo pai traz memórias, cheiros e dores familiares. O livro, curiosamente, é dedicado a Mila, a cachorra do escritor, a amiga mais fiel, que melhor o conhecia.

A mim agrada que o escritor tenha levado ao livro, sem pudores desnecessários, a experiência como jornalista e cronista. A moda da autoficção e seus matizes, tão forte e interessante hoje, ainda não havia surgido, mas ficção já se mesclava à realidade, às lembranças, aos registros.

É com “Quase Memória” que, com grande atraso, Cony se consagra como romancista. Narrador que comove o leitor comum, aquele em quem os editores deveriam prestar atenção, como Lima Barreto aconselhava a Monteiro Lobato.

Seguem-se “O Piano e a Orquestra” (1996), escrita sofisticada, livro que só é possível na maturidade, e “A Casa do Poeta Trágico” (1997).

A essas alturas, Cony talvez já tivesse desenvoltura demasiada no difícil e machucador gênero do romance. As outras práticas de escrita, cultivadas com frequência, por vezes influenciavam o texto, deixavam escapar cacoetes da imprensa.

A crônica, praticada desde 1963 —e que em 1964, com “O Ato e o Fato”, teve alta voltagem política—, sempre foi, até sua morte, confortável forma de expressão. “O Harém das Bananeiras” (1999) é exemplo raro de como a crônica congelada sob a forma de livro pode resistir ao tempo e ir além do contexto imediato que lhe serviu de pano de fundo no periódico.

Quem viveu 1964 não se esquece da coragem do jornalista Cony ocupando o quanto pôde as páginas do “Correio da Manhã”. O que escrevesse servia de alento. São páginas memoráveis, sem metáforas ou subterfúgios, que deveriam fazer parte de livros didáticos sobre o período.

A coragem e a convicção de que sem liberdade não há imprensa custaram-lhe caro. As prisões sucessivas foram muitas vezes transformadas em histórias bem humoradas. Lembro uma que me foi contada: almoço de domingo; tocam a campainha e nenhuma visita é esperada; Cony logo diz —”Embrulha a carne assada!”.

Nos anos de arbítrio do governo militar, a escrita de Cony multiplicou-se em formas diversas: traduções, adaptações (modo bem agradável de defender algum dinheiro nos anos de chumbo, praticado por escritores que eram também importantes leitores dos clássicos da literatura), textos jornalísticos mais longos, como “O caso Lou”, roteiros.

Enfim, o que aparecesse, como fizeram muitos outros intelectuais por aqui ou no exílio.

Paulo Roberto Pires, em artigo recente, comentou a frequência com que Cony foi “visitado pela musa incontornável da encomenda”, o que não é forçosamente um problema. O crítico francês Roland Barthes, perto do fim da vida, afirma que tudo que escreveu de sua vasta obra foi por encomenda.

UM MARCO

Não foi, porém, pelos deslizes, inevitáveis em quem escreveu tanto e por tanto tempo, que os especialistas não lhe abriram as portas do cânone acadêmico, dos programas de estudos literários.

A interdição parece ter outras razões. Talvez seja pela dificuldade que ainda existe no convívio entre professores e jornalistas quando tratam do literário.

Por um lado, os limites de convento com que a universidade pensa se proteger; na outra ponta, a agilidade e a rapidez às vezes excessivas que a reflexão na imprensa permite. Sei que, de modo geral, não são bons convivas para a mesma mesa, e nos banquetes dos estudos literários Cony nunca foi lá muito bem-vindo.

É na revisão, agora oportuna, de seu papel na literatura brasileira que precisamos voltar aos extraordinários primeiros romances.

“Informação ao Crucificado” (1961) talvez seja, dentre seus primeiros livros, o mais conhecido. A vida provocou a obra. Os muitos anos de internato em seminário consolidaram sua recusa à religião, ao catolicismo, mas foi uma convicção racional que incluía o debate.

Penso, porém, que não se pode avaliar a trajetória de nossa literatura, as influências que sofreu, os diálogos que estabeleceu, sem que nos debrucemos sobre “O Ventre” (1958), narrativa que é um dos marcos de nossa maturidade literária.

Em 1943, o leitor brasileiro conhecera um novo modelo de romance urbano com “Perto do Coração Selvagem”, de Clarice Lispector. Era uma nova escrita, sobretudo uma nova subjetividade. Nada mais seria como antes nas terras de Machado de Assis.

Nos anos 50, porém, o existencialismo era um pensamento filosófico e uma forma de escrita restrita aos escritores franceses que tanto admirávamos: Camus, Sartre. A náusea parecia precisar de guerra e pós-guerra. De cigarros Gitanes e gola rolê.

Por aqui poderíamos experimentar outros sentimentos mais concretos, buscar na fé o que a psicanálise, iniciante, tentava nos mostrar. Medo, ciúme e pobreza existiam. Mas o inexplicável da náusea não chegara à literatura.

Quando Ênio Silveira, com sua extraordinária sensibilidade editorial, recebeu os originais de Cony, percebeu que a mesma angústia existencial europeia estava ali, na náusea presente no nosso cotidiano tolamente simplificado de país colonizado, importador de emoções. O livro foi considerado forte demais para ser premiado.

Nesse primeiro livro, a epígrafe do escritor que rejeitara Deus cita são Paulo: “Aqueles cujo Deus é o ventre e cuja glória está na confusão deles mesmos”. Só isso: ventre é sexo e é mulher, e Deus é ventre. O autor afirma um materialismo integral, nascido no mesmo ventre que o concebeu.

Rendidas as homenagens a Machado de Assis, que dissera que o menino é o pai do homem, Cony constrói uma narrativa de ódio, da impossibilidade da compaixão, onde se afirma que não há nenhum motivo para morrer, mas também nenhum para viver.

Como em romances de Machado, um irmão rival, o calor de uma personagem chamada Helena ou um adultério são bem mais do que referências retomadas. São indicações de que o bruxo passara o bastão. É a nulidade do mundo contemporâneo que o escritor lega ao leitor. Em certo momento, diz o personagem:

“Estava consciente de que essa viagem era coisa minha, um câncer escondido em algum lugar dentro de mim, e que cresceria, cresceria, mas não me mataria, pelo contrário, me faria viver mais livremente, talvez mais intensamente. Um câncer no ventre. A mãe também tivera um.”

Difícil compreender a literatura no Brasil, o que ela mostra de nosso sangue, nossos tumores, nossas dores que não passam, nossas heranças, sem mergulhar em “O Ventre”.

BEATRIZ RESENDE

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