Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 17/10/2017 às 09:08:55

Um relato sobre lagoas e nascentes em Feira de Santana

Um relato sobre lagoas e nascentes em Feira de Santana lagoa Grande a única em revitalização

O acadêmico José Carlos Barreto de Santana, ex-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana, assina um dos textos do livro “Feira de Santana – Histórias e Estórias dos Séculos XIX e XX (Escritas a cinquenta mãos)”.

Trata-se de edição especial do Instituto Histórico e Geográfico de Feira de Santana, lançado em 2015.  Com o título ‘O que restou de Santana dos Olhos D’Água’? –  vale a pena ler o texto, uma releitura do trabalho “Nascentes e Lagoas de Feira de Santana”, publicado no extinto jornal Feira Hoje em novembro de 1989 (Adilson Simas).

O QUE RESTOU DE ‘SANTANA DOS  OLHOS D’ÁGUA’?

José Carlos Barreto

Itabira é apenas um retrato na parede.
Mas como dói!
(Carlos Drummond de Andrade)

A dor do poeta talvez seja um ponto de partida para um feirense que resolva, ainda que breve e superficialmente, relembrar aqueles recursos naturais que foram tão importantes para o surgimento e desenvolvimento do município: as nascentes e lagoas da nossa cidade.

Menos ainda que retratos na parede, as nascentes e lagoas vão se tornando meras citações históricas, enquanto desaparecem da nossa paisagem. Um dia, no entanto, foram tão significativas que se constituíram  fatores preponderantes no assentamento do povoado que originou a cidade de Feira de Santana, muito em função da presença da água superficial e subterrânea próximo à superfície.

Não por outros motivos estiveram presentes na primeira nominação do que viria a ser a nossa cidade. Em função das nascentes, surgências d’água comuns na nossa região, o povoado que nos originou foi chamado de “Santana dos Olhos d’Água”.

Cerca de 96% da área do município de Feira de Santana encontra-se localizado no “Polígono das Secas” e sem sombra de dúvidas foi determinante para a sua existência a presença de nascente e lagoas, em números relativamente significativos nas suas zonas de superfície topográfica rebaixadas pela erosão.

Na década de 1960 foram contadas sessenta lagoas, distribuídas sobre rochas muito antigas (pré-cambrianas) ou sedimentos mais recentes da Formação Barreiras (terciários). Algumas das lagoas contribuem com suas águas para o lençol de água subterrânea, tornando-se, portanto, secas nos períodos de estiagem; outras mantêm “espelho d’água” visível durante o ano, em decorrência do substrato impermeável sobre o qual são instaladas.

Dentre as lagoas encontravam-se as lagoas Grande, Mendes, Mangabeira, do Prato Raso, Subaé, do Peixe, Camisa, Pirrixi, Berreca, Seca, Ovo da Ema, etc. Principalmente no núcleo urbano, a captação, a poluição, o assoreamento e o aterro internacional provocada foram mais intensos, devido à concentração de edificações, lixo e dejetos domésticos e industriais e ameaçam fortemente as suas existências.

O verdadeiro complexo de lagoas do bairro Queimadinha, normalmente chamadas de Prato Raso, segue inexoravelmente o caminho da extinção através do aterro ininterrupto que sofre para construções de casas e edifícios comerciais, mesmo destino da Lagoa Subaé, mesmo com todo apelo quem o nome do corpo de água da nascente do rio de mesmo nome pudesse ter. A Lagoa Grande de São José virou depósito de lixo e entulho.

Apenas a Lagoa Grande (a da sede da cidade), que foi uma das principais fontes de abastecimento público de Feira de Santana, parece escapar à sanha destruidora que ataca as nossas lagoas, uma vez que nelas se executam, lentamente, obras que podem ressignificar a sua existência.

Os olhos d’água encontram-se em condições ainda piores que as lagoas. As nascentes drenam as suas águas para as lagoas e riachos, que se incorporam aos rios, compondo as bacias hidrográficas dos rios Pojuca, Jacuípe e Subaé. Inicialmente as nascentes serviam como fontes de água, para o abastecimento doméstico e como bebedouros para as boiadas que transitavam na nossa região.

Posteriormente, com o crescimento urbano, passaram a funcionar como referência para o assentamento e ampliação da cidade.

Algumas dessas fontes receberam a implantação de uma infraestrutura mínima, como a construção de tanques de retenção e lavanderias de cimento, permitindo um melhor aproveitamento da água, na irrigação de hortas, abastecimento doméstico e atividades de lavanderias, o que beneficiava as comunidades aos arredores da nascente, a exemplo da “Fonte do Lili” e “Tanque da Nação”.

Com o rápido crescimento populacional sem planejamento urbano adequado, que atendesse às exigências dele decorrente, algumas nascentes foram aterradas ou canalizadas, pelos interesses imobiliários ou pela ignorância de pessoas que não quiseram ou não querem reconhecer a importância delas enquanto recurso natural.

Dentre as que foram canalizadas está a “Fonte do Velado”, canalizada por baixo do condomínio Parque das Acácias, localizado no bairro Tanque da Nação. Os moradores deste condomínio ainda escutam o som das águas a correr sob um dos seus “playgrounds”.

Outra fonte canalizada foi “do Muchila”, utilizada até a década de 80, quando, por pressão de moradores da Rua Macário Cerqueira, desapareceu sob a pavimentação através de uma tubulação de poucas polegadas.

Outras nascentes com as suas benfeitorias foram abandonadas sob a alegação de que o progresso trouxe “água encanada” para todos. Aquelas cujo “milagre do desenvolvimento” não destruiu completamente continuam sendo parcialmente utilizadas pelas populações carentes dos bairros onde se localizam a exemplo das fontes “de Lili” e “do Buraco Doce”, no bairro de Queimadinha, e “dos Milagres” no bairro da Gabriela.

A “Fonte do Mato”, talvez a mais emblemática de todas, por ser a principal do bairro dos “Olhos d’Água”, considerado o mais antigo de Feira de Santana, jaz esquecido no que sobrou de quintal de casa onde ainda moram os descendentes de “Noratinho da Pamonha”.

Estes são importantes elementos para que se perceba o tamanho do descaso para com esse bem natural tão importante que é a água. Provavelmente a maioria da população de Feira de Santana desconhece que a relação dos seus moradores com esse bem natural foi muito mais direta que atualmente.

Em 23 de novembro de 1834, divulgou-se a determinação de atribuir “multa de 15$000 a quem abrir poço e fizer tanque ou qualquer obra em prejuízo das águas públicas desta Villa”. Em sessão realizada no dia 3 de fevereiro de 1872, “a Câmara dispende de 11 contos e 600 mil reis na limpeza da ‘Fonte do Valado’” aqui já mencionada.

Aos poucos, e sem maiores consequências para os que dilapidam os nossos históricos recursos naturais, as lagoas e os olhos d’água vão desaparecendo da cena feirense e em breve não restará sequer um quadro na parede para doer em nossa alma.

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