Carlos Lima
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Literatura
Carlos Lima | Publicado em 19/12/2017 às 16:32:12

Uma carta de amor vale por mil nudes

Uma carta de amor vale por mil nudes Nada contra a urgência do desejo pornográfico, mas o lambe-lambe dos selos postais marca uma vida- Agência dos Correios em Brasília. MARCELLO CASAL JR. ABR

Nesse tempo avexado, em que ninguém lê mais e-mails, defender a carta, de amor ou de amizade, é uma utopia digna de uma lambida em velhos selos postais.

Venho por meio desta, porém, insistir em tal campanha. Uma carta, munheca firme assentada sobre o papel, é capaz de milagres amorosos e de firmar o afeto entre amigos para todo o sempre, amém. Vale o escrito com a demora e o vagar que exige uma declaração, um pedido em casamento ou mesmo um pé-na-bunda com citações de Clarice Lispector — como os mistérios de Clarice encorajam os protagonistas da rejeição e do desprezo.

Tente escrever uma carta de amor, meu jovem, nada é mais infalível e surpreendente, é como botar o empoeirado vinil de Roy Orbison para ela(e) ouvir na madrugada. É como deixar a agulha da vitrola cair, como não quer nada, sobre a faixa Love making music do Barry White. Vale também aquela do Al Green, Love and Happiness. Isaac Hayes é sacanagem!

Escreva uma cartinha, caro leitor, nem que seja em solidariedade ao papai Noel apedrejado em Itatiba (SP). Pode ser também uma carta-bomba de desabafo, pragas e impropérios com destino ao Palácio do Planalto — não esqueça das mesóclises e recomendações à estimada quadrilha. Importante é a retomada da cultura epistolar, tenho dito. Mire-se no exemplo das Cartas Brasileiras, uma coletânea de correspondências organizada pelo jornalista e escritor Sérgio Rodrigues. Impossível sair do livro sem os dedos coçando. Mande pelo menos um bilhete ao síndico, quem sabe.

Por amor, todavia, sai tudo bem melhor, mesmo quando não correspondido. Mesmo que você mande até os selos para a resposta e a desalmada — ah, insensatez, coração mais sem cuidado! — jamais rabisque as suas mal traçadas linhas. A covardia amorosa, lembre-se, não é privilégio dos corações epistolares. O silêncio pode acontecer também nos mais histéricos grupos de WhatsApp.

Bonitas correspondências amorosas não faltam na antologia de Rodrigues. Inspire-se em um Torquato Neto derramado por Ana Duarte ou nas epístolas felinas do gato de Nise da Silveira para a gata de Marco Lucchesi. Um ronronar de gemidos e dengos. E assim outros carinhosos missivistas em afagos ou momentos históricos: Getúlio Vargas, Lampião, Roberto Marinho, Mário de Andrade, Lima Barreto, Paulo Freire, Leminski, Clarice Lispector, Olga Benário, Zuzu Angel, Graciliano Ramos, Drummond, Caio Fernando Abreu etc.

Do vice para a ainda presidente Dilma, com rancor. Óbvio que não poderia faltar, opa, o latim golpista: “Verba volantscripta manent” — as palavras voam, os escritos permanecem. Ganha um botijão de gás para assar o peru natalino quem adivinhar a autoria. O mais genial da cartinha republicana: “Desde logo lhe digo que não é preciso alardear publicamente a necessidade da minha lealdade”, escreve um melodramático Michel Temer em 7 de dezembro de 2015. Deu no que deu. Só ficou faltando, caríssimo Sérgio Rodrigues, a singela missiva de Dona Lúcia para a comissão técnica da Seleção Brasileira, depois da tragédia dos 7×1 para a Alemanha. Foi mal, Parreira.

Jovens, às armas. Exemplos e modelos abundam na literatura e nos arquivos familiares. Na correspondência amorosa, acho o lambe-lambe de selos entre os escritores Simone de Beauvoir e Nelson Algren imbatível. Coisa linda de se ler, recomendo.

Você aí, que vive um amor à distância, nada como uma carta fumegante, daquelas capazes de queimar os dedos dos carteiros. Uma carta jamais atenderá apenas à urgência masturbatória do desejo à queima roupa. Uma carta erótica vale por mil nudes. Viva a imaginação e até a próxima crônica de um amor louco.

XICO SÁ

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