Carlos Lima
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Nacional
Carlos Lima | Publicado em 28/06/2017 às 11:01:41

O golpe dentro do golpe já começou

O golpe dentro do golpe já começou Desde o dia 17 de maio os brasileiros tentam entender o que acontece em seu país

Desde o dia 17 de maio os brasileiros tentam entender o que acontece em seu país. Foi nessa data que William Bonner chamou Michel Temer de “ex-presidente.” Parecia uma gafe.

Era, muito possivelmente, uma notícia — antecipada.

 Com os dados que temos hoje, pode-se dizer que naquele momento  estávamos assistindo, ao início de um golpe dentro do golpe, pelo qual uma parcela das forças que derrubaram Dilma, em maio-agosto de 2016, se organizaram para promover a retirada de Temer do Planalto para garantir a continuidade, sem atropelos, do programa de reformas contra os direitos dos trabalhadores e pela criação de um Estado Mínimo.

 Como todos sabemos, este processo exclui a realização de eleições diretas para a escolha do novo presidente, pelos riscos óbvios que uma decisão em urnas, num ambiente de recessão econômica e recuperação de Luiz Inácio Lula da Silva, representa para um projeto impopular e anti-nacional.

 Num golpe dentro do golpe, o nome do futuro presidente é produto de negociações secretas e acertos em círculos minúsculos e exclusivos. Na hora conveniente, o povo é informado para aplaudir se for capaz, ou ficar em silêncio, se não tiver jeito. Deve conformar-se. É assim que acontece — como se o Brasil da Carta de 88 e da democracia, de repente, tivesse se transformado num estado absolutista, onde a morte de um Rei sem descendentes naturais se resolve pela guerra de morte entre os pretendentes ao Trono.

 É impossível saber, pelos dados de hoje, se foi a notícia de que Temer seria alvejado por uma delação fulminante de Joesley que foi atrás de Lauro Jardim, o primeiro a dar a notícia no Globo. Ou se foi o próprio colunista que foi atrás da novidade por conta própria.

  É certo que na noite de 17 de maio que teve início  uma virada na situação política. Temer ficou cada vez mais fraco, num ponto próximo da inanição.

  O movimento popular não exibe a mesma força de antes para defender suas reivindicações, exigir Fora Temer e pedir eleições diretas.

  Nos meses anteriores, assistiu-se a ascensão das maiores mobilizações desde as jornadas de junho de 2013. A greve geral de 28 de abril foi uma das maiores paralisações da história do movimento operário do país. Em 1 de maio, os trabalhadores reafirmavam a recuperação de suas forças para enfrentar as reformas da Previdência e o desmanche da legislação trabalhista, ocupando as ruas e avenidas das grandes cidades em cortejos imponentes. Em 10 de maio a mobilização em apoio a Lula, que prestava depoimento a Sérgio Moro, em Curitiba, atraiu um número respeitável de militantes e populares do país inteiro, anulando um provável efeito desmobilizador que poderia ter sido provocado por uma mudança de data na última hora.

  Neste ambiente, antes do Jornal Nacional terminar, em 17 de maio, já era possível ouvir o bater de panelas em vários edifícios das grandes cidades. Na avenida Paulista, uma manifestação organizada por MTST, de Guilherme Boulos, serviu de referencia para a concentração de militantes que tinham necessidade de encontrar-se para tentar entender o que estava acontecendo. A maioria acreditava, então, que vivíamos uma continuidade dos protestos e mobilizações anteriores. A perplexidade era tanta que a pergunta mais frequente era: “a Globo mudou de lado?”

   A Venus Plantinada estava em campo, num engajamento que só se via quando combatia os adversários de sempre — Lula; Dilma; Leonel Brizola. Num sintoma desse engajamento, a pressa de noticiar, típica dos momentos de tensão política, cobrou seu preço.  Na primeira versão da notícia, tudo era claro e explícito: dizia-se que o próprio Temer fora gravado autorizando o pagamento para comprar o silêncio de Eduardo Cunha e que havia imagens da entrega do dinheiro. Diante do que seria uma denúncia sem escapatória, nasceu e cresceu o rumor de que o presidente já preparava um pronunciamento para anunciar sua renúncia. Não era conversa de botequim, mas discussão de gente grande, que influencia jornalistas e lideranças de várias fatias do espetro político. Quando — finalmente — as imagens e sons foram exibidos, viu-se que eram diálogos graves, incompatíveis com um presidente da República — mas nem 100% claros, nem 100% explícitos. Não se tratava do célebre batom na cueca, irrespondível, mas imagens e palavras que podem receber mais de uma interpretação.

   Mesmo a cena da mala sendo retirada pelo assessor Rodrigo Loures do estacionamento de uma pizzaria em São Paulo, para ser colocada num táxi, é menos conclusiva do que se sugeriu. A delação informava que aquele dinheiro — meio milhão de reais — seria a prova de que, em março de 2017, Temer estava recebendo a primeira parcela de um suborno multimilionário.

  Quarenta dias depois, quando o PGR Rodrigo Janot apresentou denúncia contra Temer no Supremo, o jornalista Rubens Valente, conhecido pelo caráter minucioso de suas apurações, escreveu um artigo cético na Folha de S. Paulo. Cabe notar que ele também avalia que a pressa em fazer a denuncia ajudou a comprometer a qualidade do trabalho de Janot:

 Os problemas para a tese da acusação começam quando associa Temer ao recebimento ou ao pedido dos R$ 500 mil. A investigação foi curta, durou apenas dois meses. É comum grandes investigações da PF durarem até mesmo anos antes de uma denúncia.

Uma das consequências da pressa em concluir o caso –a justificativa é que há um investigado preso, Loures, e por isso os prazos são mais curtos– é a ausência, na denúncia, de laudos bancários ou tributários para comprovar conexões financeiras entre Loures e Temer. O “caminho do dinheiro” não foi desenhado na denúncia.

Sem as quebras de sigilo e sem uma confissão do ex-assessor palaciano –ele se manteve em silêncio quando depôs à PF–, a PGR não conseguiu demonstrar, nas 60 páginas da acusação, como seria a suposta operação monetária que beneficiaria Temer depois da chegada da mala a Loures.

(Folha, 28/6/2017)

 A coreografia de um golpe dentro do golpe prevê que a população seja retirada das ruas. Quando não há razão aceitável para isso, provoca-se.

 Foi o que se viu no último grande protesto de trabalhadores, em Brasília, uma semana depois do Jornal Nacional de 17 de maio. À baderna fora de qualquer padrão para uma velha e boa baderna política, desta vez estrelada por supostos sindicalistas com musculatura de halterofilistas, seguiu-se uma repressão brutal, com 49 pessoas feridas e oito prisões.  No fim do dia, Temer assinou um decreto convocando as Forças Armadas para cuidar da segurança pública. Não foi a primeira vez que isso ocorreu depois da Constituição de 1988. Mas foi a primeira vez que se chamou o Exército para manter a ordem numa manifestação política — o que sempre será preocupante.

 A verdade é que depois do 17 de maio a luta contra Temer mudou de foco. O endereço político e geográfico dos combates agora é outro. Envolve a defesa das reformas — único eixo das acrobacias recentes de Fernando Henrique Cardoso, entre eleições antecipadas e apelos a Michel Temer.

Se até então a luta era travada em movimentos em praça pública, acabaram deslocados para os gabinetes políticos, a Polícia Federal, o Ministério Público e o Supremo Tribunal Federal, ambientes ideais para uma decisão que se pretende resolver longe da população. Considerando que a eleição direta não está prevista na Constituição e exige uma mudança legal de envergadura, toda desmobilização é útil  para o golpe dentro do golpe.

 

PAULO MOREIRA LEITE

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