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QUEM FISCALIZA A “RAÇÃO HUMANA” DE DORIA?

'Ração humana' de Doria é retrocesso de 15 anos no combate à fome

João Dória lançou a sua “ração para pobre“, um composto para famílias em situação de carência alimentar e que procurem os equipamentos sociais da cidade de São Paulo.

O produto, diz o G1,  será doado pela empresa Plataforma Sinergia, que fabrica o composto a partir de alimentos que estão perto da data de vencimento e fora do padrão de venda em supermercados. Ao que parece, também de restaurantes.

Lançou, claro, com propaganda, dizendo que vai distribuir, em breve, “às pessoas que têm fome em todo o Brasil”.

Nada contra, claro, combater o desperdício de alimentos, nem mesmo em usar produtos próximos à data de vencimento, desde que em perfeitas condições de higidez. Eu próprio compro alimentos e medicamentos em promoção nestas condições, sai bem mais barato. Uma caixa de Atorvastatina 80 mg, cujo preço varia de 100 a 150 reais, pode ser comprada a pouco mais de R$ 30, faltando dois ou três meses para vencer e, como tomo uma caixa por mês, não tenho problemas com isso, porque sei que há uma vigilância sanitária que controla lotes e prazos de validade.

Mas a história do Doria Kanin tem muito mais de propaganda do que de informação.

Diz-se que é uma ONG que produz a tal farinata (agora rebatizada de “Allimento”, com dois “l”) mas não se mostra onde e nem  como.

Não se mostra como ela é produzida, nem onde, nem quais são as matérias primas empregadas e sua condição de liofilização, que é um processo de grandes exigêncisa técnica, não pode ser feito da mesma maneira para qualquer alimento e é muito caro, pelo alto consumo de energia (aquecimento e congelamento controlados).

O que está sendo usado como matéria prima? Quem a fornece? Em que condições? Quem o controla?Como este processo se remunera?

Nenhum interesse em cobrar e apurar tais informações.

E o que são aquelas bolotas exibidas pelo prefeito? Um estímulo à perda de autoestima de quem tiver de comer aquela virtual “ração de cachorro”?

É lógico que se eu sou um “sobrevivente dos Andes” vou comer as tais bolotas e, até o saquinho que as contenha.

Mas as pessoas – a menos que os coxinhas queiram chamá-las de “luxentas” – têm hábitos alimentares que fazem parte de sua cultura.

A decisão de Doria de lançar um projeto como este desta maneira é reveladora de como ele vê os pobres, ao apresentá-lo como uma ração: os enxerga como cães.

E lambam os beiços.

Fernando Brito

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