Carlos Lima
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Polícia
Carlos Lima | Publicado em 11/09/2018 às 00:36:39

Apoiadores de Bolsonaro esticam corda do extremismo após atentado

Apoiadores de Bolsonaro esticam corda do extremismo após atentado Ao que leva o extremismo, foto de arquivo

As reações ao esfaqueamento do candidato Jair Bolsonaro foram deprimentes, lamentáveis, um reflexo do estágio miserável em que se encontra nossa democracia.

Enquanto muitos nas redes de esquerda defendiam com toda a certeza que tudo não passaria de uma armação de Bolsonaro e sua turma, bolsonaristas já davam o veredito de que o PT seria o mandante do crime.

Todos embriagados por suas convicções, dando pouca atenção aos fatos.

O fato de as imagens não mostrarem sangue jorrando não quer dizer nada além de que não se tratava de uma cena de filme do Hitchcock.

Mas os peritos “Molinas” das redes sociais logo emitiram seus laudos, comprovando que tudo não passava de encenação. Vários vídeos “comprovando” que não havia sangue e que a faca era falsa pipocaram nas redes sociais.

Para se forjar um crime desse porte, seria necessário combinar com dezenas de pessoas que estavam em volta de Bolsonaro, com os socorristas da ambulância, com seguranças, e torcer para que nenhuma das dezenas de câmeras que estavam filmando flagrasse os detalhes.

Depois, uma grande cena seria montada com hospital, envolvendo cirurgiões, assistentes, enfermeiros e outros funcionários. É claro que uma tramóia dessa grandeza deveria ser considerada a hipótese mais remota de todas, mas foi tratada como a mais provável por muita gente.

Seria impossível controlar todos os palcos e atores dessa farsa. E nós sabemos que os possíveis autores dela não teriam esse nível sofisticação.

Já houve candidato que passou por uma tomografia computadorizada após ser atingido por uma bolinha de papel, então um certo nível de desconfiança é aceitável.

Mas as pessoas foram tomadas por certezas e resolveram expressá-las publicamente, mesmo sem haver nenhuma prova que as sustentassem.

A racionalidade tem passado longe nessa eleições. Acreditar nisso é como acreditar no boato que diz que a seleção brasileira vendeu a Copa de 98 para a França.

No campo oposto, as redes bolsonaristas reagiram com a usual tosquice. Encheram as redes sociais com informações mentirosas e imagens falsas. Inventaram que o criminoso era filiado ao PDT, depois ao PT.

O fato é que Adélio Bispo de Oliveira foi filiado ao PSOL por 7 anos e se desfiliou há 4, o que não diz absolutamente nada além disso.

Foi filiado a um partido político como também foi missionário evangélico. Atribuir ao PSOL ou a qualquer partido político responsabilidade pelo ataque não passa da mais pura canalhice.

Não há o mínimo indício de que Adélio agiu sob o comando de terceiros. Sua página no Facebook indica uma pessoa perturbada, o que foi confirmado por sua sobrinha ao El País.

Ele ataca políticos em geral, a maçonaria, e é adepto de teorias conspiratórias dos mais diversos tipos. Na delegacia, disse que cometeu o crime por ordem divina.

Tudo indica se tratar de um homem com distúrbios psicológicos, vivendo em um ambiente com os ânimos acirrados pelo radicalismo político.

Não há dúvidas de que a vítima do crime é Jair Messias Bolsonaro. Ponto. Dito isso, é preciso dizer as coisas sem medo de ser acusado de relativização. O ambiente beligerante instalado no país é, em boa parte, de responsabilidade de Jair Bolsonaro e seus aliados.

Não, não estou culpando a vítima pelo esfaqueamento. Estou colocando os fatos em perspectiva e analisando o contexto político.

O ambiente de extremismo é propício para a ação de alguém que não esteja com suas faculdades mentais em ordem.

E esse ambiente é construído quando um político afirma abertamente que irá “fuzilar” seus adversários políticos, como se essa “figura de linguagem” tivesse sido feita em uma conversa de bar sem maiores consequências.

Quando o ônibus da caravana de Lula foi alvejado por tiros de revólver, Bolsonaro disse que “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro e agora está por aí colhendo ovos por onde passa”.

Depois, em comício, simulou arma com a mão e deu tiros na cabeça de um boneco inflável de Lula, levando seus seguidores à loucura. Afirmou ainda que estava “na cara que alguém deles (PT) deu os tiros.

A perícia vai apontar a verdade”, mesmo sem ter o mínimo indício disso. Bolsonaro nunca respeitou os ritos civilizatórios mínimos do jogo democrático. Isso faz com que ele mereça a facada? Não! Isso cria um clima de guerra na disputa política? Sim!

Enquanto todos os candidatos à presidência, sem exceção, repudiaram o crime e foram solidários com Bolsonaro, seus aliados e simpatizantes não perderam tempo e se apressaram em atribuir a autoria do crime aos partidos políticos de esquerda e aos esquerdistas em geral.

Gustavo Bebianno, escolhido por Bolsonaro para presidir o PSL, costuma resolver conflitos internos aos berros e a chamar aliados com os quais diverge de “viadinho”.

Diante do esfaqueamento do seu candidato, declarou: “agora é guerra!”. Ele não disse contra quem, mas não somos ingênuos a ponto de não entender que se trata da mesma “petralhada” que Bolsonaro deseja fuzilar.

A irresponsabilidade se estendeu ao General Mourão, o vice de Bolsonaro, que resolveu o caso aos moldes do regime militar e apresentou o culpado.

“Eu não acho, eu tenho certeza: o autor do atentado é do PT”, afirmou, com todas as letras, sem apresentar um mísero indício que sustentasse essa certeza. Mas não parou aí. O general fez questão de derramar mais gasolina na fogueira: “Se querem usar a violência, os profissionais da violência somos nós”.

Janaína Paschoal, candidata estadual pelo PSL em São Paulo, falou hoje pela manhã para jornalistas: “a imprensa não está mostrando ele (o agressor) com a camiseta ‘Lula Livre’ nas redes sociais. Ele faz parte do grupo.

Quem cometeu o crime foi gente do lado deles e isso ninguém mostra”. É mentira. Não há nenhuma foto de Adélio vestindo essa camiseta. A não ser que Janaína esteja falando de alguma das “trocentas imagens fabricadas que foram espalhadas pelas redes“.

João Filho

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