Carlos Lima
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Polícia
Carlos Lima | Publicado em 28/07/2019 às 12:43:46

Sem indignação não se tem alma

Sem indignação não se tem alma

Não se lê, nos jornais de hoje, quase nenhuma reação diante da ameaça absurda feita ontem por Jair Bolsonaro de que o jornalista Glenn Greenwald pode “pegar uma cana” e que não será expulso porque foi “malando” e (curioso, “malandro” 14 anos atrás) casou-se com um brasileiro, adotando duas crianças.

Isso não é uma questão política, nem mesmo apenas uma questão de liberdade de opinião de um jornalista.

É, de uma parte, o direito do público à informação e, de outra, da obrigação do detentor do mais alto cargo da República de conter-se, pelo que sua palavra representa em meio a um processo investigativo da Policia Federal.

Pouca coisa houve, entre elas a nota da Associação de Jornalistas Investigativos, a Abraji, e da ABI repudiando a fala presidencial.

É pouco, pouquíssimo.

É verdade que era um sábado, depois do meio-dia, quando as edições estão praticamente fechadas. É verdade que muitos se encontravam, como é normal para a maioria e deveria ser para todos, em suas atividades privadas, com amigos ou família.

Mas, convenhamos, com a Internet, nem é preciso mais o dramático “parem as máquinas”. E sobre estarmos disponíveis, considerar que possamos ser diferentes dos médicos, que não importa onde estejam, devem acorrer aos casos graves?

Será que somos tontos suficiente para não perceber que a batalha da informação e do jornalismo, não se trava mais esperando a folha de amanhã?

“Morreu o papa!” era gozação comum nas redações, nos anos 70, quando algum colega ia saindo, a significar : “volta, vem trabalhar que o mundo não parou por sua causa”. Eu estava na redação de O Globo, em 1978, e não me recordo se com Paulo VI ou João Paulo I, a história tornou-se real.

Ontem – e parece que não nos demos conta – aconteceu uma torpeza ( e não apenas uma, pois chamou-se de idiota uma profissional que realizava seu trabalho) contra o exercício do jornalismo e do direito constitucional deste ser feito com a proteção do sigilo de fonte.

Temos um Presidente e um Ministro da Justiça que se posicionam claramente pela prisão de um jornalista por exercer seu ofício, como esperar que meros policiais não se associem a isso, se os chefes são explícitos assim?

O jornalismo brasileiro, tão arrogante, no qual os figurões não hesitam em apontar a outros como “blogueiros sujos”, não pode seguir se omitindo.

Não pode dizer que “foi passar o final de semana fora” e que “segunda-feira entra no assunto”.

Honra e dignidade profissional não são coisas para deixar para o dia seguinte.

Fernando Brito

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