Heil Jair? /por João Sette Whitaker

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O lado mais sombrio da mente de Bolsonaro flerta com a hipótese de que o vírus vá se arrefecer nos meios de mais alta renda e atacar de forma trágica os setores mais pobres, num processo de “limpeza étnico-social”.

Após a celerada manifestação do Presidente da República na noite de 24 de maio, em pronunciamento em cadeia de rádio e TV, alguma reflexão se faz necessária.

A primeira, de que a alternativa a ele ser um imbecil com parcos neurônios é ainda mais terrível: é de ele ser um psicopata apto a realizar um crime contra a humanidade.

Vamos refletir sobre a segunda alternativa.

Porque em geral tendemos a nos apequenar diante do absurdo, a achar que as coisas são impossíveis. Achávamos impossível um sujeito como ele virar presidente. E virou. Então melhor começar a nos preocupar com as alternativas mais sombrias mesmo.

O mais assustador é a possibilidade cada vez mais evidente de que Jair Bolsonaro não para de fazer política, de olhar para os cálculos eleitorais, e que isso definitivamente se sobrepõe à seriedade da pandemia que ele deveria ter que enfrentar.

Cada vez mais parece que ele não está nem aí com o coronavírus e seus efeitos. Ele está somente pensando nos desdobramentos político-eleitorais.

Está fazendo um cálculo maligno, tecendo estratégias, passando por cima de qualquer sentimento, matando se for preciso.

Em resumo: um psicopata. E seu cálculo (ou de seus assessores tão psicopatas quanto, como, por exemplo, seus filhos), aparentemente, é o seguinte.

Agora, mesmo quem não é especialista já entendeu que houve duas estratégias para enfrentar o vírus.

Uma, da China, de contenção total à transmissão, graças a um aparelho estatal fortíssimo e capaz de monitorar cada indivíduo, fechar cidades e regiões, etc. Com isso, enfrentou uma alta da mortalidade, mas que baixou após o pico.

O problema é que enquanto o vírus não arrefecer pelo mundo ou não se achar a cura, o esquema de isolamento deve ser mantido, senão o vírus volta, em uma população quase toda não contaminada. Apesar de ter zerado os casos em Wuhan, esta semana já deu no noticiário que a China via com preocupação o (re)aparecimento de um novo caso por lá.

Outra alternativa foi tentada pela Inglaterra, sob orientação de prestigiosas instituições médicas de lá: deixar o vírus correr meio solto, de tal forma que contamine pessoas jovens, a enorme maioria assintomática ou com sintomas leves, sem muitas fatalidades nessa faixa etária, e criando assim um efeito de “imunidade de rebanho”, pelo qual os contaminados vão aos poucos tornando todo mundo imune.

A ideia nesse modelo que os ingleses chamaram de “mitigação” era de proteger os mais idosos. Está claro que é essa a estratégia na qual Bolsonaro e seus asseclas parecem apostar.

Só que o que os ingleses viram é que, neste caso, a estratégia iria fracassar, porque a velocidade de contágio dos mais idosos, e mesmo dos nem tanto, é tão grande que satura rapidamente a capacidade hospitalar em UTI.

Uma coisa relativamente simples: a capacidade de oferecer respiradores mecânicos que substituam os pulmões para quem está em estado respiratório grave e que, com isso, tem boas chances de se recuperar.

Como os casos que demandam esse tratamento se multiplicaram – mesmo entre os idosos – de forma espetacular, logo se viu que não seria possível atender a todos, e que essa falha no sistema elevaria o contágio e as ocorrências fatais. Os ingleses passaram a prever nada menos que 260 mil mortes se continuassem naquela toada.

Ocorre que no Brasil, não há muita escolha a ser feita. Mesmo que se defina uma rigorosa quarentena, o modelo de “mitigação” se impõe por si só, infelizmente.

A possibilidade de adotar uma estratégia extrema como a da China, em um país continental de 200 milhões de habitantes, dependeria de muito dinheiro público e de um Estado forte. O que o Brasil não tem.

E a dificuldade em manter em casa uma classe média embrutecida pela influência presidencial, e uma parte considerável da população, geralmente de extratos mais pobres com pouca informação, parte ligada ao falso fanatismo religioso – na verdade um consciente e frio empreendimento capitalista – das igrejas “evangélicas”.

Na verdade, quase todos os países foram obrigados a adotar, em maior ou menor grau, a mesma lógica da mitigação, dependendo da capacidade de controle e intervenção do governo, o tamanho do país, etc.

No Chile, as estradas estão bloqueadas. Na França, a quarentena segue regras estritas, com salvo-condutos para determinadas situações.

Em alguns países sair na rua dá até prisão. Nos mais ricos, as perdas econômicas da população privada de trabalho são compensadas por auxílios estatais. Isso ocorreu, por exemplo, na Inglaterra, mas também na tão criticada Venezuela. No Brasil, dá para perceber que a mitigação tende a ser mais elástica. O que pensar quando o vírus chegar de vez nos países africanos.

Assim, uma quarentena mais ou menos eficaz junto a uma parcela da população poderá achatar a curva de contágio, mas o grande medo no Brasil – e o mais provável – é que o vírus se propague de forma muito rápida nos segmentos mais pobres, não especificamente porque não fizeram quarentena, mas porque a quarentena tem outra dimensão e eficácia quando começamos a falar em densidades de quase 2 mil habitantes por hectare, habitações reduzidas com famílias inteiras morando em um cômodo (inclusive os avós), falta de condições adequadas de higiene, etc.

Neste caso, a estratégia de quarentena pode até amenizar a curva, e terá mais efeito em quem tem onde morar e se isolar, assim como proteger os mais velhos, mas de qualquer forma parece ser claro que a tal curva há de subir, e bastante, em algum momento, já que – como os ingleses perceberam – a ideia de “mitigação” não parece ser suficiente para esse vírus.

Se não foi lá, país desenvolvido, imagine-se o que pode acontecer por aqui. Dados da Abin, obtidos pelo The Intercept Brasil, deixam prever o pior: fala-se ali em um pior cenário de 200 mil infectados e oito mil mortes.

É aqui que o lado mais sombrio da mente de Bolsonaro aparece.

Seria possível que ele esteja calculando que o vírus vai se arrefecer nos meios de mais alta renda, e atacar de forma trágica os setores mais pobres da sociedade e que, por causa disso, ele esteja amenizando a questão, porque, conscientemente, acha isso mais “aceitável”?

Eu não duvidaria. Neste caso, a estratégia de Bolsonaro é quase uma estratégia de “limpeza étnico-social”.

Em certo sentido, essa lógica faz coro com as declarações recentes de alguns empresários dessa turma da extrema direita que apoia o presidente (Havan, Madero, Roberto Justus e Cia.).

Todos falam que a pandemia vai fazer “alguns milhares de mortos”, mas que “isso não é nada” para o tamanho do país, e que pior do que isso são os efeitos econômicos negativos.

Esse discurso só ganha sentido porque, no fundo, esses sujeitos sabem que os “poucos” milhares de mortos não serão gente de seu entourage.

Se essa lógica francamente fascista é de arrepiar, ela ainda pode piorar. Pois sobre isso, Bolsonaro parece fazer um frio cálculo político, baseado em duas alternativas:

(1) passada a pandemia, se com algum efeito da quarentena e um achatamento da curva, que afetará, sobretudo, os mais pobres, a economia estará em fragalhos e ele poderá dizer: “viram, eu bem que avisei, era só uma gripezinha, e vocês histéricos e a mídia acabaram com o país”.

Ele sabe que nossa sociedade, do jeito que hoje está aceitando os valores da selvageria, é capaz de fingir que não vê milhares de mortes, desde que sejam dos mais pobres, e pode muito bem embarcar em uma retomada da aventura “patriótica” encampada pelo mito. Se, por milagre, sair rapidamente um remédio, “o mito” será sem dúvida o grande vencedor dessa batalha.

(2) A mais provável?

A mitigação não dá certo, a curva explode e temos uma tragédia ainda maior. Os milhares de mortos podem ser centenas de milhares, e afetar também classes mais altas que já o apoiaram e hoje o renegam cada vez mais frente à sua desastrosa conduta da crise.

Nesse caso, a radicalização de seu discurso, como se vê em algumas análises, pode gerar uma crise institucional grave entre os poderes, colocando-o em confronto direto com o legislativo e o STF.

Nesse caso, estará com todas as condições necessárias para dar um passo a mais: um golpe. Só que desta vez não aquele golpe ardilosamente orquestrado pela sofisticada elite de direita – a quem o capitão comeu pelas bordas – com o parlamento, parte da justiça e a grande mídia para tirar “elegantemente” uma presidente.

Um golpe mesmo, de fechar o STF e o Congresso com um cabo e dois soldados. Com o caos estabelecido, não interessará mais de quem foi a culpa, mas apenas o faro pela oportunidade do poder absolutista.

Qualquer alternativa fará um enorme estrago na economia.

Nas empresas e no grande capital, sem dúvida, mas em um país em que quase metade da população ativa trabalha na informalidade, com milhões de vendedores ambulantes e pequenos negócios informais, a quebra elo do consumo, que é o âmago do sistema capitalista, irá afetar primeiro – já está afetando, aliás – quem depende diretamente da presença do consumidor. Do motorista de Uber ao entregador, do vendedor ambulante ao pequeno produtor. Bolsonaro sabe disso, e está pensando como fazer o malabarismo de não levar a culpa.

Mas ambas as alternativas nos desnudam um psicopata, alguém à altura dos grandes facínoras que já vimos chegar ao poder na recente história do mundo.

O coronavírus vai fazer muito estrago.

Enquanto nossas mentes inocentes se preocupavam em vê-lo chegar tendo à frente do país um sujeito incapacitado para enfrentá-lo, o que se desvenda é alguém que parece ser capaz de transformar a pandemia no seu atalho para o tão sonhado poder ditatorial.

Se o primeiro cenário já era aterrorizante, o segundo é mais ainda.

Nesse limiar, estamos na sinuca de ter que esperar agilidade política e postura de estadistas de gente como Maia, Alcolumbre, Dória, Tóffoli e até Witzel.

O problema é que até agora o STF só deu mostras de que o que sabe fazer é se apequenar.

Mas da reação dessa gente é que está o futuro do nosso país e da nossa democracia por um fio. De tanto deixar o sujeito brincar com todos os valores que ainda poderiam segurar essa catástrofe, em nome de um antiesquerdismo irresponsável, corre-se o risco de deixar que ele se sinta como se estivesse à frente do Terceiro Reich.

Meus amigos, a coisa não está fácil.

Mas há uma esperança. Uma escolha de Sofia. Porque não há saída boa, mas quem sabe uma que se mantenha “só” no âmbito dos horrores da pandemia. É a de que, ao apressar esse movimento, Bolsonaro esteja furando o fundo de seu próprio navio, e não sobreviva, como mandaria a lógica civilizatória, à sua incapacidade face ao coronavírus.

João Sette Whitaker. Professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP

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