Carlos Lima
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Saúde
Carlos Lima | Publicado em 08/03/2019 às 09:42:28

Existe uma solução para o ‘burnout’ da geração millennial?

Existe uma solução para o ‘burnout’ da geração millennial? Indivíduos suscetíveis ao esgotamento físico e mental são encorajados a exercitar a resiliência - mas será a solução?

Em um artigo popular do site BuzzFeed, Anne Helen Petersen descreve como os millennials (pessoas nascidas entre 1981 e 1996) se tornaram a “geração do ‘burnout'”.

Ela se refere a algumas consequências gritantes do avanço do esgotamento físico e mental e identifica o que chama de “paralisia das incumbências”, caracterizada pela dificuldade de realizar tarefas simples ou cotidianas.

Muitos fatores que contribuem para esse esgotamento estão enraizados nos desafios do mercado de trabalho e da situação econômica que os millennials enfrentam, de acordo com Petersen.

Ela também cita o que chama de “criação intensiva” como um fator determinante, uma vez que os millennials foram educados e preparados sem trégua pelos pais para o mercado de trabalho. Eles internalizaram a ideia de que precisam estar trabalhando o tempo todo ou mergulhar na incessante busca do “auto-aperfeiçoamento”.

Semelhante ao ‘burnout’ profissional

burnout da geração millennial tem muitas semelhanças com o burnout comum, também conhecido como síndrome do esgotamento profissional. É uma resposta ao estresse prolongado e normalmente envolve esgotamento emocional, cinismo ou desinteresse e sensação de ineficiência.

Os seis principais fatores de risco para o esgotamento profissional são a sobrecarga de trabalho, o controle limitado, a falta de recompensas, situações de injustiça, conflito de valores e a falta de senso de comunidade no ambiente de trabalho.

Indivíduos que precisam navegar em ambientes complexos, contraditórios e às vezes hostis são vulneráveis ao esgotamento. Se os millennials estão apresentando índices mais altos de burnout, isso pode indicar que eles enfrentam ambientes mais problemáticos.

É basicamente o que estressa todo mundo, mas está ocorrendo de maneira nova, inesperada ou até mais intensa com os millennials, e não estamos prestando atenção.

Sabemos, por exemplo, que a comparação social tem influência no burnoutprofissional. Para a geração millennial, a competição social e a comparação são continuamente reforçadas online, o que já se mostrou associado a sintomas de depressão entre os jovens.

Mesmo que você evite as redes sociais, estar conectado pode ser fisicamente e emocionalmente desgastante.

Essas são apenas algumas maneiras pelas quais os millennials estão cada vez mais expostos aos mesmos fatores de estresse que podem afetar negativamente os profissionais no ambiente de trabalho.

Sabemos muito pouco sobre como os millennials lidam com o burnout. Pesquisas iniciais indicam que há diferenças geracionais. Especificamente, a geração millennial responde à exaustão emocional (geralmente o primeiro estágio do esgotamento) de maneira diferente dos baby boomers (pessoas nascidas entre 1946 e 1964).

Quando se sentem emocionalmente esgotados, os millennials são mais propensos a ficar insatisfeitos e a querer deixar o emprego em comparação com os baby boomers.

As pesquisas sobre burnout apontam que ambientes complexos e fatores de pressão, aliados a altas expectativas, criam as condições para a síndrome do esgotamento profissional. O mesmo pode ser dito em relação ao esgotamento dos millennials, que se baseia em noções semelhantes de perfeccionismo que trazem mais risco de esgotamento.

Resiliência como proteção

Uma abordagem recente para combater o esgotamento profissional é treinar as pessoas para serem mais resilientes. Esse tratamento é baseado na suposição de que indivíduos altamente competentes podem aprimorar seus métodos de trabalho para evitar o esgotamento.

No entanto, como argumentei recentemente em um editorial da revista científica BMJ, profissionais muito competentes, psicologicamente saudáveis e aparentemente resilientes são mais suscetíveis ao burnout.

Parece contraditório, mas um dos primeiros estudos sobre burnout no ambiente de trabalho mostrou que os profissionais mais felizes, menos ansiosos e mais capazes de aliviar o estresse eram mais propensos a apresentar esgotamento do que os participantes do grupo de controle que não tinham essas características.

Este estudo, que acabou esquecido, envolveu controladores de tráfego aéreo nos EUA na década de 1970 – mais de 400 deles foram monitorados por três anos. A maioria (99%) havia servido nas Forças Armadas, portanto, é de se esperar que tivessem experiência com situações de estresse extremo e, provavelmente, desenvolvido resiliência.

A pesquisa revela algumas condições para desenvolvimento do burnout dentro de um grupo aparentemente funcional e resiliente. O trabalho deles estava se tornando cada vez mais complexo, com novas tecnologias sendo introduzidas e sem o treinamento necessário para usá-las. Eles trabalhavam em um ambiente precário – em turnos longos e sem intervalos. As escalas eram desafiadoras e imprevisíveis.

Essa descrição soa provavelmente muito familiar à geração millennial e a qualquer pessoa que trabalhe na chamada gig economy – baseada em trabalhos temporários e sem vínculo empregatício.

Efeito oposto

A abordagem recente de treinar profissionais para evitar o burnout, encorajando-os a serem mais resilientes, pode acabar se tornando outro fator de estresse, pressão ou expectativa elevada. É possível que aumente o risco de esgotamento, especialmente entre os perfeccionistas autocríticos.

O que podemos aprender com o avanço do burnout é que o mercado de trabalho está se tornando rapidamente e incrivelmente mais difícil e complexo. Isso está levando a níveis mais altos de esgotamento em muitas profissões e trabalhos informais.

A solução passa por simplificar ambientes pessoais e de trabalho complexos, contraditórios e hostis, em vez de nos dar a tarefa de treinar para ser mais resistentes a esses ambientes.

*Este artigo, de autoria de Rajvinder Samra, professora de saúde da Open Universit, foi publicado originalmente no site de notícias acadêmicas The Conversation e republicado aqui sob uma licença Creative Commons.

Rajvinder Samra

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