Carlos Lima
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Saúde
Carlos Lima | Publicado em 06/04/2019 às 11:41:28

Por que comer é tão caro para quem tem alergia alimentar.

Por que comer é tão caro para quem tem alergia alimentar. Apesar da crescente ofertas de produtos livres de alérgenos, manter uma dieta especial não é barato Foto: Alamy

Por quase toda a minha vida, não percebi que tinha dor de estômago.

Pode parecer insano – e talvez, olhando para trás, (provavelmente) seja. Mas, quando você tem uma condição autoimune como a doença celíaca, muitas vezes não sabe como é viver de outra maneira.

Um exame de sangue confirmou meu diagnóstico, no final do ano passado, aos 31 anos de idade. Antes disso, sempre sentia dor quando pressionava meu intestino. Nunca pensei duas vezes sobre como meu estômago doía com frequência, sem qualquer aviso. Mas quando passei duas semanas sem conseguir sarar de uma terrível intoxicação alimentar, meu marido me disse para procurar um médico.

Assim descobri que meu sistema imunológico estava atacando meu organismo toda vez que eu comia glúten.

A doença celíaca é uma reação autoimune às proteínas encontradas no trigo, cevada e centeio. Isso não é o mesmo que uma intolerância ao glúten. Indivíduos diagnosticados com ela sofrem danos intestinais e, se não for identificada e gerenciada corretamente, a doença celíaca pode ser um precursor do câncer.

A reação das pessoas para quem conto sobre minha nova dieta sem glúten, por indicação médica, é sempre algo como: “Pelo menos você tem tantas opções sem glúten agora!”.

E embora nunca haja um bom momento para se ter uma alergia alimentar, eles têm razão: a crescente conscientização sobre alergias alimentares levou a uma maior variedade de opções. Há nas prateleiras leite de nozes sem lactose, cerveja sem glúten e biscoitos sem nozes. Muitos mercados hoje têm seções inteiras de produtos “livres de”.

No Reino Unido, esse mercado conhecido como “free form” cresceu mais de 133% nos últimos cinco anos. Estimativas apontam que ele movimentou US$ 1 bilhão (R$ 3,9 bilhões) em 2018.

Apesar da crescente onipresença das ofertas “livres de”, manter uma dieta especial para quem tem alergias alimentares, intolerâncias e reações autoimunes não é barato. Analisando especificamente os alimentos sem glúten, um estudo de 2018 no Reino Unido mostrou que alguns itens custam, em média, 159% a mais do que os convencionais.

Meus próprios gastos no supermercado dispararam: um saco de palitos de pretzel pelos quais costumava pagar no máximo US$ 3 (R$ 11,60) agora custa US$ 4,50 (R$ 17,40) na versão sem glúten; gastava cerca de US$ 2,50 (R$ 9,60) com pão de forma e, hoje, pago US$ 4,50 (R$ 17,40) por um congelado sem glúten; e o macarrão de US$ 0,99 (R$ 3,80) que costumava estocar na despensa agora gira em torno de US$ 4,50 (R$ 17,40). Se jantar fora, não posso escolher pelo preço – tenho que pedir a única opção sem glúten, mesmo que seja um dos pratos mais caros (como geralmente é).

Há, é claro, muito outros custos associados a uma alergia alimentar. Em 2012, pesquisadores da Associação Médica Americana entrevistaram 1.643 cuidadores de crianças com alergias alimentares e descobriram que seus pais gastam US$ 4,184 (R$ 16 mil) a mais com a criança por ano.

Os pesquisadores concluíram que o tratamento para as estimadas 8% de crianças americanas com alergias alimentares totalizou quase US$ 25 bilhões (R$ 96,75 bilhões) por ano. Desse número, os custos médicos pagos do próprio bolso (incluindo copagamentos a médicos, hospitais e medicamentos como injeções de epinefrina), bem como creches e dietas especiais, totalizaram US$ 5,5 bilhões (R$ 21,3 bilhões). No mesmo ano, pesquisadores finlandeses estimaram que o custo médio anual com gastos específicos com uma criança alérgica a alimentos foi de US$ 3,6 mil (R$ 14 mil).

É difícil encontrar dados concretos especificamente sobre o dinheiro gasto com alimentos “livres de”. Ainda assim, esses custos extras são indispensáveis.

“Evitar o alimento desencadeante (ou alimentos) é fundamental para um autogerenciamento eficaz da alergia”, diz Audrey DunnGalvin, que dirige o programa de estudos infantis na Universidade College Cork, na Irlanda, e também ensina pediatria e doenças infecciosas infantis na Primeira Universidade Médica Estatal de Moscou, na Rússia. “A ingestão acidental é comum e causa reações frequentes e, por vezes, letais.”

Um estudo em Illinois, nos Estados Unidos, mostrou que a hospitalização por anafilaxia induzida por alimentos, uma reação grave comum à exposição a alérgenos, disparou cerca de 30% entre 2008 e 2012 (independentemente de raça, etnia e status socioeconômico do paciente).

O pico parece ser devido a um número crescente de diagnósticos de alergia alimentar, que, de acordo com os Centros para Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos, aumentaram 50% em crianças entre 1997 e 2011. Não está claro por que mais pessoas estão desenvolvendo alergias a alimentos, embora as teorias sejam abundantes.

Mas, para essas pessoas, dietas especiais não são uma questão de preferência, mas de vida ou morte.

Uma receita para preços mais altos

Os fabricantes, por sua vez, explicam que instalações dedicadas para alimentos “livres de” são muitas vezes caras de se desenvolver e manter. “Cada ingrediente deve estar livre de contaminação, do campo para processamento à fábrica de embalagens”, diz DunnGalvin. Ela acrescenta que os fabricantes têm custos para implementar diretrizes rígidas. Depois que os produtos estão prontos, podem ter de fazer um recall ou lidar com um processo judicial se um consumidor passar mal.

Também é improvável que os fabricantes de alimentos consigam explorar uma economia de escala para produtos “livres de”.

“A fabricação de alimentos para dietas especiais em grandes quantidades não é necessariamente fácil”, diz Miranda Mugford, professora de economia da saúde da Escola de Medicina da Universidade de East Anglia, na Inglaterra. “Isso mantém os preços elevados, porque os altos custos fixos de fabricação não podem ser distribuídos entre muitas vendas.”

Além disso, embora possa parecer contraintuitivo, muitos alimentos isentos de alérgenos contêm mais ingredientes do que suas versões regulares. Por exemplo, a Associação Nacional de Fabricantes de Farinha Britânicos e Irlandeses explica que um pão sem glúten pode ter mais de 20 ingredientes em sua receita, principalmente para compensar a falta de trigo. Esses ingredientes geram um custo duas a três vezes maior do que o de um pão convencional.

Em alguns casos, novos ingredientes e substitutos começaram a aparecer na formulação de alimentos “livres de”. “As inovações, incluindo novos tipos de farinha, levaram os produtos sem glúten praticamente ao nível de seus equivalentes com glúten”, escreve o analista de alimentos e bebidas da consultoria Mintel, William Roberts Jr.

No entanto, embora o pão sem glúten possa ter melhorado de sabor, o mesmo não aconteceu com os preços desse tipo de produto.

O impacto da baixa oferta

Para 64% dos consumidores, o preço é um dos dois principais fatores de compra de alimentos, de acordo com uma pesquisa de 2018 da ONG International Food Information Council Foundation.

Quem tem alergias alimentares é tão sensível a preços quanto outros consumidores – talvez até mais “devido ao fato de que muitos deles também estão gastando com medicamentos”, diz Robyn O’Brien, ex-analista da indústria de alimentos e autora do livro The Unhealthy Truth (‘A Verdade Não Saudável’, em tradução livre).

Ainda assim, pessoas alérgicas a alimentos raramente têm o luxo de fazer escolhas alimentares com base no preço. O mesmo estudo que analisou o custo total dos alimentos sem glúten também mostrou que os cereais para celíacos eram em média 205% mais caros, e os produtos de padaria, 267%. Não são apenas alimentos sem glúten que esvaziam a carteira: na Finlândia, o leite de vaca mostrou ser a alergia alimentar mais cara.

DunnGalvin cita uma pesquisa que diz que indivíduos de baixa renda podem ter maior dificuldade para acessar alimentos livres de alérgenos. “Os custos representaram barreiras que foram percebidas como especialmente salientes para os trabalhadores pobres, imigrantes, jovens que vivem na pobreza e usuários de bancos de alimentos”, diz ela.

As comunidades rurais e aquelas com poucas opções de compras também sentem o aperto. Analisando especificamente os alimentos sem glúten, os pesquisadores do Reino Unido observaram que 82% dos alimentos para celíacos eram “vendidos online significativamente mais caros se comparados com os supermercados comuns” e concluíram que o “deserto de comida (termo que define uma área, especialmente com moradores de baixa renda, que tem acesso limitado a alimentos acessíveis e nutritivos) em lojas de conveniência e supermercados econômicos continuará a impactar desproporcionalmente grupos socioeconômicos, idosos e deficientes físicos”.

Os fabricantes de bens de consumo embalados estão conscientes das disparidades de preço para alimentos de dietas especiais em relação às suas versões tradicionais, diz O’Brien. Apesar das limitações da indústria, ela diz que preços são elásticos, sujeitos a oferta e demanda, o que significa que provavelmente vão cair no futuro.

“À medida que o mercado crescer, o setor irá além da mercearia e dos restaurantes”, diz ela. A especialista observa que grandes fabricantes internacionais, incluindo a Danone e a Nestlé, estão “capitalizando fórmulas de produtos ‘livres de'”. “A Nestlé Health Science diz que seus produtos livres de alérgenos são algumas de suas linhas que mais crescem.”

DunnGalvin diz que outros fatores que podem reduzir os preços incluem melhores métodos de produção, testes de alérgenos mais eficientes e maior conscientização dos consumidores que devem (ou desejam) seguir uma dieta especial.

Não posso dizer que algum dia vou gostar de massa de couve-flor tanto quanto eu amava uma fatia da minha pizzaria favorita. Mas o crescimento da oferta de alimentos “livres de” me proporcionou – e a milhões de outras pessoas que sofrem de alergia alimentar – certos alívios: saúde melhor, menos medo de contaminação e esperança de ainda mais progresso.

BBC

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