Carlos Lima
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Saúde
Carlos Lima | Publicado em 18/03/2019 às 09:41:46

Tomar probiótico após tratamento com antibiótico vale a pena?

Tomar probiótico após tratamento com antibiótico vale a pena? Alimentos Probióticos garantem bom funcionamento do seu intestino — Foto: Ilustração

Os probióticos são apresentados como tratamento para uma série de condições – da obesidade a problemas de saúde mental.

Um dos usos mais comuns é a reposição da flora intestinal após um ciclo de antibióticos. A lógica é a seguinte: os antibióticos destroem o microbioma – comunidade de micro-organismos que vive no intestino – junto com as bactérias que podem estar causando a infecção, de modo que a ingestão de probióticos (micro-organismos vivos) pode ajudar a restaurá-lo.

Embora pareça fazer sentido, há poucas provas de que os probióticos realmente funcionem se utilizados dessa maneira.

Pesquisadores descobriram, na verdade, que tomar probióticos após o uso de antibiótico atrasa a recuperação da saúde intestinal.

Há probióticos melhores que os outros?

Parte do problema é a variedade de coisas associadas ao termo probiótico. Para os cientistas, pode ser uma cultura viva de micro-organismos que normalmente habitam o intestino humano saudável. Mas, para os consumidores, os produtos vendidos nos supermercados – como iogurtes e suplementos – não correspondem a essa definição.

Mesmo quando os pesquisadores usam cepas bacterianas vivas em suas pesquisas, o coquetel varia de um laboratório para outro, o que dificulta a comparação.

“Esse é o problema: não há estudos suficientes sobre qualquer probiótico específico para dizer que este funciona e esse não”, diz Sydne Newberry, da instituição Rand Corporation, que realizou um amplo estudo de meta-análise sobre o uso de probióticos para tratar diarreia induzida por antibióticos em 2012.

A pesquisa – que analisou 82 estudos com quase 12 mil pacientes – mostrou um efeito positivo dos probióticos na redução do risco de diarreia causada por antibióticos. Mas devido à variação – e às vezes à falta de clareza – com que as cepas bacterianas foram usadas, não foi possível identificar ou recomendar probióticos ou coquetéis específicos que funcionassem.

Desde o estudo da Rand Corporation, realizado em 2012, as evidências que sustentam o uso de probióticos após tomar antibióticos não mudaram muito.

“É por isso que é tão problemático. Há mais estudos do que quando fizemos a revisão, mas não o suficiente para dizer conclusivamente se os probióticos funcionam ou não. Tampouco o suficiente para dizer quais funcionam”, afirma Newberry.

Uma preocupação em particular é a falta de pesquisas sobre a segurança no uso de probióticos. Embora geralmente sejam considerados inofensivos em pessoas saudáveis, há relatos preocupantes de efeitos colaterais – como fungos se alastrando na corrente sanguínea – entre pacientes mais vulneráveis.

Probióticos em pessoas saudáveis

Probióticos — Foto: Unsplash/Divulgação

Probióticos — Foto: Unsplash/Divulgação

Uma pesquisa recente realizada por cientistas do Instituto Weizmann de Ciência em Israel descobriu que, mesmo entre pessoas saudáveis, tomar probióticos depois de um ciclo de antibiótico não era inofensivo. Na verdade, eles dificultaram os processos de recuperação intestinal que em tese deveriam acelerar.

Os pesquisadores, liderados por Eran Elinav, deram a 21 pessoas um ciclo de antibióticos de amplo espectro por uma semana. Depois disso, fizeram uma colonoscopia e uma endoscopia do trato gastrointestinal superior para examinar o estado do microbioma.

“Como esperado, muitas mudanças importantes ocorreram em relação aos micróbios – muitos morreram por causa dos antibióticos”, diz Elinav.

Os participantes foram divididos então em três grupos. No primeiro, não houve intervenção após os antibióticos – a ideia era esperar para ver. O segundo tomou um probiótico comum por um mês. E o terceiro foi submetido a um transplante fecal – uma pequena amostra de suas próprias fezes, coletada antes do início do uso do antibiótico, foi devolvida ao cólon assim que o tratamento terminou.

A descoberta surpreendente foi que o grupo que tomou probióticos apresentou a resposta mais fraca em termos de microbioma e o que mais levou tempo para recuperar a saúde intestinal. Mesmo no fim do estudo – após cinco meses de acompanhamento – esse grupo ainda não havia atingido o nível de saúde intestinal pré-antibiótico.

“Nós encontramos um efeito adverso potencialmente alarmante de probióticos”, diz Elinav.

A boa notícia, no entanto, é que o grupo que recebeu o transplante fecal se saiu muito bem. Em poucos dias, os participantes reconstituíram completamente seu microbioma original.

“Muitas pessoas tomam antibióticos ao redor do mundo. Precisamos tentar entender melhor esse efeito adverso potencial que não havíamos percebido”, afirma Elinav.

E há cada vez mais evidência de que tomar probióticos quando a saúde intestinal está fragilizada não é uma boa ideia. Outro estudo recente mostrou que os probióticos não fazem bem para crianças pequenas internadas com gastroenterite. Em um experimento nos EUA, 886 crianças com gastroenterite com idade entre três meses e quatro anos tomaram um ciclo de cinco dias de probióticos ou placebo.

A taxa de gastroenterite moderada a grave continuada dentro de duas semanas foi ligeiramente maior (26,1%) no grupo que tomou probiótico do que no grupo com placebo (24,7%). E não houve diferença entre os dois grupos em termos da duração da diarreia ou vômito.

Mercado bilionário de probióticos

Apesar de evidências como essa, a demanda por probióticos é enorme e crescente. Em 2017, esse mercado foi avaliado em mais de US$ 1,8 bilhão, e a previsão é que atinja US$ 66 bilhões até 2024.

“Dado o envolvimento pesado da indústria, conclusões claras sobre o quão úteis são os probióticos ainda precisam ser comprovadas”, diz Elinav, do Instituto Weizmann de Ciência em Israel.

“Essa é a razão pela qual autoridades regulatórias, como a agência que controla os alimentos e medicamentos dos EUA (FDA, na sigla em inglês) e os órgãos reguladores europeus ainda não aprovaram um probiótico para uso clínico.”

Mas isso não quer dizer que os probióticos devam ser descartados por completo. O problema parece estar mais no modo de utilização do que no uso em si. Muitas vezes os probióticos são comprados no supermercado, mas os consumidores podem não saber exatamente o que estão levando para casa ou mesmo se a cultura ali ainda está viva.

Quem deve usar probióticos?

O grupo do Instituto Weizmann de Ciência também pesquisou sobre quem poderia se beneficiar dos probióticos. Ao medir a presença de certos genes relacionados ao sistema imunológico, a equipe conseguiu prever quem seria receptivo às bactérias probióticas para colonizar o intestino, e aqueles em que elas simplesmente “passariam batido” sem se instalar.

“Isso é muito interessante e importante, pois indica que nosso sistema imunológico também participa das interações com bactérias [probióticas]”, explica o pesquisador Elinav.

Isso abre caminho para o desenvolvimento de tratamentos probióticos personalizados com base no perfil genético de cada um. Um sistema assim é “realista e poderia ser desenvolvido relativamente em breve”, de acordo com Elinav.

Mas, para se tornar realidade, serão necessárias mais pesquisas sobre a adaptação probiótica e testes com mais cepas bacterianas em grupos maiores de indivíduos.

Esse tipo de personalização pode alavancar o potencial dos tratamentos probióticos para a saúde intestinal. No momento, a falta de consistência nas descobertas se deve em parte ao fato de os probióticos serem tratados como drogas convencionais.

Quando você toma um comprimido de paracetamol, pode ter quase certeza de que o princípio ativo vai cumprir sua função ao interagir com receptores no cérebro, anestesiando a sensação de dor. Isso ocorre porque os receptores de dor da maioria das pessoas são parecidos o suficiente para reagir da mesma maneira à droga.

Mas o microbioma não é apenas um receptor – está mais próximo de um ecossistema. Não é à toa que costuma ser comparado a uma floresta tropical por sua complexidade.

Consequentemente, identificar e customizar um tratamento probiótico que vai funcionar em algo tão complexo e individual quanto o ecossistema interno de alguém não é uma tarefa fácil.

Com isso em mente, não é de se surpreender que micro-organismos vivos estocados nas prateleiras do supermercado possam não funcionar.

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