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Brasil precisa de fertilizantes para garantir safra 2022-23, diz especialista

Falta fertilizantes no Brasil

O Brasil precisa garantir o fornecimento de fertilizantes para assegurar a produtividade da safra de 2022-2023, sob pena de forte inflação de alimentos no ano que vem, alerta especialista.

A operação militar russa na Ucrânia deve remodelar as relações comerciais e econômicas não só no Leste Europeu, mas também na América Latina. O Brasil será uma das economias mais afetadas pelo conflito, principalmente em função de sua importação massiva de fertilizantes agrícolas russos.

Para garantir o suprimento interno em meio ao aumento dos preços internacionais, a Rússia suspendeu a exportação de fertilizantes para países considerados hostis. O Brasil, graças à sua posição moderada em relação ao conflito, não foi incluído nesta lista.

Apesar da garantia russa de que não haverá suspensão no fornecimento, dificuldades colocadas pelas sanções econômicas impostas pelos EUA e seus aliados contra Moscou estão dificultando a exportação de fertilizantes russos para o Brasil.

“A retirada da Rússia do sistema de pagamentos SWIFT impôs, na prática, um isolamento financeiro do país. Qualquer comprador do Brasil que queira acessar produtos russos vai ter que construir a relação comercial do zero, para viabilizar as formas de compra e pagamento”, explicou à Sputnik Brasil José Carlos de Lima Júnior, sócio e diretor da Consultoria Markestrat, especializada em Estratégia de Agronegócios.

O transporte dos fertilizantes dos portos russos para o Brasil também passa por momento de indefinição.

“Os armadores estão com dificuldade para fazer a precificação do trajeto, pois precisam saber o tempo de permanência no porto e de viagem”, relatou Lima Júnior.

“Também houve aumento no preço dos seguros e a disparada no preço do petróleo, que impacta o custo do óleo com baixo teor de enxofre utilizado por essas embarcações.”

Nesse contexto, o especialista revela que o setor de fertilizantes está com dificuldades para “precificar o produto e até mesmo assegurar a chegada e distribuição aqui no Brasil”.

Em nota enviada à Sputnik Brasil, a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (ANDA) declarou que “monitora com atenção o fornecimento de insumos importados do Leste Europeu”.

“O Brasil importa da Rússia mais de nove milhões de toneladas por ano de insumos para fertilizantes, ou seja, em torno de 25% de tudo o que compramos no exterior”, revela a nota da ANDA.

Lima Júnior explica que o maior problema neste momento é garantir que fertilizantes cheguem a tempo de garantir a produtividade da safra 2022-2023, cujo plantio deve ter início entre setembro e outubro.

A aplicação de fertilizantes no campo deve ser feita antes do plantio, para que o solo tenha os macronutrientes essenciais para o sucesso da safra.

“Precisamos garantir que o fertilizante chegue no Brasil no momento adequado. Os produtores precisam fazer o planejamento de qual tecnologia vão aplicar no campo. Do que adianta utilizar a melhor semente, se não terei os macronutrientes mínimos para garantir a produtividade?”, questiona Lima Júnior.

A incerteza em relação aos fertilizantes pode levar produtores a rever o produto que vão aplicar no campo, o que pode reduzir a produtividade da safra 2022-2023.

“O receio de ter ou não fertilizantes impacta no nível tecnológico que será colocado no campo. Qual o resultado disso? Menor produção, menor produtividade e inflação de alimentos daqui a um ano”, explicou Lima Júnior.
O que fazer?

A ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do Brasil, Tereza Cristina, realiza uma série de medidas para garantir o fornecimento de fertilizantes para a agricultura brasileira.

A ministra obteve o apoio de seus homólogos da Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai para solicitar à Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) que fertilizantes sejam declarados isentos de sanções econômicas.

Neste sábado (12), a ministra participou de um evento com embaixadores de países árabes para prospectar novos fornecedores de fertilizantes para o Brasil. No mesmo dia, a ministra seguiu para o Canadá, onde permaneceu até esta segunda-feira (14) em busca de potássio.

“A viagem é para conversar com canadenses para ver se conseguimos uma quantidade maior do que eles já nos mandam, para suprir esses possíveis gargalos de fornecimento que a gente possa vir a ter, devido ao conflito entre a Rússia e a Ucrânia”, disse a ministra, em nota divulgada pelo Ministério da Agricultura.

Lima Júnior concorda que “toda diversificação é bem-vinda”, mas tem dúvidas sobre a capacidade canadense de suprir a enorme demanda brasileira por fertilizantes.

“Partindo do pressuposto de que o Canadá tem excedente para exportar, eles precisariam mais do que dobrar o volume de exportações para o Brasil para atender a nossa demanda, considerou Lima Júnior”.

O especialista explica que o Canadá exporta grande parte de sua produção de fertilizantes para os EUA, em função do acordo de preferências comerciais Nafta.

“Os EUA são um concorrente direto do Brasil na agricultura. Será que o Canadá vai exportar para um concorrente direto [dos EUA], sendo que Washington compra 83% do potássio canadense?”, questiona o especialista.

Além disso, Lima Júnior lembra que “uma nova relação comercial não se constrói do dia para a noite. E precisamos suprir a demanda de uma safra que começa em poucos meses”.

Olhar pra dentro

A crise no fornecimento de fertilizantes pode ser um incentivo para que o Brasil aumente a produção interna desse produto essencial para a economia nacional.

“O que acontece nesse instante é o fechamento de um grande player de fornecimento, em função de um conflito. É uma coisa pontual”, garantiu Lima Júnior.

“O principal incentivo que isso vai gerar é para que cada governo olhe para dentro de si […] e faça investimentos para ter o mínimo de abastecimento”, considerou.

Com o aumento da área plantada na última década, o Brasil passou a depender cada vez mais de fertilizantes produzidos fora do país.

“A realidade é que o Brasil preferiu importar ao invés de produzir, porque era uma facilidade garantida pela globalização dos mercados”, disse Lima Júnior.

A nova realidade, no entanto, impõe que o país tenha “pelo menos um plano B” e “uma política de Estado efetiva em relação ao agronegócio”.

Mesa do brasileiro

Segundo o especialista, a crise atual terá reflexos na mesa do brasileiro. O aumento no preço do petróleo leva a um maior custo de transportes, enquanto a escassez de fertilizantes poderá agravar a inflação de alimentos.

“Tudo isso em um ano como 2022, que já era de incertezas em função de eleições em vários países produtores de commodities”, lembrou o especialista.

Para garantir a segurança alimentar na população e, eventualmente, o futuro eleitoral do presidente Jair Bolsonaro, o governo terá que adotar medidas para reduzir os danos desse ano turbulento.

“Mas o governo tem pouca margem de manobra em termos de caixa e capital. A tentação dele será usar a máquina pública e o dinheiro que tem”, considerou Lima Júnior. “O meu medo é que o governo gaste muito mais do que poderia.”

O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura nacional. Cerca de um quarto desse montante é oriundo da Rússia, que se encontra sob sanções econômicas impostas pelos EUA e seus aliados.

De acordo com o instituto Pensar Agropecuárias, os estados de São Paulo e Minas Gerais são os que registram maior dependência de fertilizantes importados de Moscou.

Ana Lívia Esteves

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