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Comentário sobre o filme Bertha Lutz dirigido por Guto Barra e Tatiana Issa.

Bertha Lutz

Dois diretores brasileiros, Guto Barra e Tatiana Issa, tiveram a boa ideia de filmar Bertha Lutz: a mulher na Carta da ONU.

As câmeras seguem duas pesquisadoras na faixa dos 20 anos, uma argelina e outra norueguesa, quando topam com documentação em Londres que as levou a “descobrir” Bertha Lutz.

A cientista brasileira, afora ser bióloga e diretora do Museu Nacional, foi também sufragista e fundadora de uma associação feminista pioneira, com sede no Rio de Janeiro, tão cedo quanto 1919.

Delegada do Brasil, Bertha Lutz participou das reuniões que criaram a Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945, em São Francisco, ao fim da Segunda Guerra.

O filme mostra o papel relevante que teve ao reivindicar que a igualdade das mulheres figurasse na Carta da ONU. Dos 850 delegados apenas 8 eram mulheres, mas assim mesmo ela insistia que os direitos das mulheres deveriam ser mencionados separadamente.

E que, como mostrava a experiência, quando se falava em direitos “humanos”, passava-se a entender que eram só dos homens e não das mulheres também. Outras delegadas lhe disseram que deixasse de apelar para argumentação feminista, que era um comportamento vulgar….

Na continuação, depois de muita luta e muita discussão, conseguiu impor seu ponto de vista e a mulher aparece separadamente na Carta, com paridade de direitos explícita.

Mas as coisas não ficaram por aí. O filme mostra como Bertha foi posteriormente apagada da memória da ONU, esse momento crucial da luta por emancipação ficando creditado às americanas e inglesas, que à época eram contra o que ela queria impor.

As posições avançadas vinham do hemisfério Sul e eram sistematicamente contraditadas pelo hemisfério Norte, a política imperialista predominando.

Aumenta o interesse do filme sua atualização, com o foco narrativo centrado no presente, ou seja, nas duas pesquisadoras e em sua via crucis por Genebra, Nova York, Brasília e Rio de Janeiro, procurando consertar o erro histórico e reabilitar Bertha.

Ninguém liga a mínima, nem na ONU nem na diplomacia brasileira, todos escudados em conversinhas simpáticas e absolutamente inoperantes, todos treinados em enganar os outros com promessas vazias, que não pretendem cumprir.

As duas pesquisadoras espantam-se por não encontrar em lugar nenhum uma menção especial ao nome dela, um busto, um retrato que fosse, naquela imensidão de representações masculinas.

Mas todos respondem que é muita gente ilustre, que não daria para contemplar todo mundo etc. Elas têm um objetivo prático: corrigir o site da ONU, que mostra quatro mulheres (a brasileira, a dominicana, a chinesa e a americana) assinando a Carta da ONU.

Como se não bastasse, a americana é aquela que se manifestou contra a inclusão de vulgaridades feministas…

E o site ainda traz uma enorme fotografia de Eleanor Roosevelt, esposa do presidente americano F. D. Roosevelt, segurando a Carta, como se fosse sua autora – e ela sequer esteve na Conferência de São Francisco.

Assim o imperialismo foi usurpando a grande jornada militante de Bertha e atribuindo seus feitos às americanas.

As duas pesquisadoras ficam perambulando por três anos, sem convencer ninguém. Entretanto, seus esforços tiveram final feliz. No embalo de movimentos como Me Too (Eu também) e Time’s Up (Agora chega), conseguiram que o desempenho crucial de Bertha fosse reconhecido, embora com relutância e em pequena medida, tanto pela ONU como pelo Brasil.

De passagem, é com dor no coração que vemos as duas pesquisando o acervo de Bertha por ela legado ao Museu Nacional, para em seguida vermos imagens do criminoso incêndio de nosso principal museu, em que esse acervo inteirinho, e da importância desta extraordinária pessoa, foi reduzido a cinzas, juntamente com os tesouros ali guardados.

Fazem falta mais filmes mostrando mulheres que sirvam de modelo para as novas gerações, mulheres que foram tornadas invisíveis para a memória coletiva por ações de silenciamento deliberado, como é o caso de tantas delas em vários setores da vida cultural e política do país.

Constata-se mais uma vez que o trabalho corrosivo do patriarcado, e ainda mais quando reforçado pelo imperialismo, consegue usurpar a militância das mulheres mesmo a posteriori.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH da USP. Autora, entre outros livros, de Lendo e relendo (Senac/Ouro sobre azul).

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