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Doze filmes e documentários em que as pessoas são mercadorias

SER HUMANO COMO MERCADORIA

A arte pode ser uma excelente via para nos elevarmos ao gênero humano e refletirmos sobre o caráter mistificador do processo de produção e escoamento das mercadorias.

[Felizmente, temos um conjunto de obras cinematográficas que podem conduzir a análise a respeito de quantos países, ramos e como as pessoas estão submetidas a opressão-exploração do capital, desde a coleta do produto primário, passando pela industrialização, circulação e sua realização no suprimento de uma necessidade “do estômago ou da imaginação”, digo, histórica e socialmente determinada.

Descortinar e desnaturalizar a condição laboral nas cadeias produtivas de valor no mercado mundial é um caminho para analisarmos como o modo de produção capitalista se estabeleceu e se realiza de forma desigual e combinada, acompanhando particularidades de cada formação econômico-social e de elementos dinâmico-conjunturais do capitalismo.

Esclarecer, inclusive, que não é uma anormalidade ou falta de desenvolvimento que em países periférico-dependentes, apresentem, de modo mais evidente, formas híbridas de exploração da força de trabalho, como a escravidão contemporânea.

Na verdade, expressam a maneira como o capitalismo se irradia e se realiza distintamente, em sua dinâmica de produção e reprodução, nas diferentes formações sociais.

Assim como a opressão-exploração capitalista é diversamente sentida pelas classes trabalhadoras generificadas, racializadas, regionalizadas, em outros termos, de acordo com a sua condição na divisão social do trabalho.

A coisificação e a reificação são determinantes da sociabilidade burguesa, que se expressam na cotidiana degradação da vida humana, legitimadas e encobertas por meio do pensamento social hegemônico instrumental e pragmático, que se combina, frequentemente, com a irrazão para garantir os movimentos perenes de expropriação, exploração de mais-valor e sua realização.

Portanto, a prática social demonstra a inviabilidade de uma reforma moral para alcançarmos um capitalismo humano, sustentável e verde, porque a trama do capital em sua sanha ocorre pela violência.

Destaco isso, porque a vida real, dramatizada em ficções e historicizada em documentários, geralmente, nos revolta, emociona e traz indagações sobre como devemos enfrentar esses problemas.

Sem mais delongas, apresentamos a seguir uma lista para o final de semana com filmes e documentários sobre o que se esconde por trás das mercadorias com seres humanos violentamente objetificados.

Filmes
• 7 prisioneiros

Filme dirigido por Alexandre Moratto, com produção de Fernando Meirelles e Ramin Bahrani, e protagonizado pelos atores Christian Malheiros (Mateus) e Rodrigo Santoro (Luca).

O longa-metragem venceu os prêmios Sorriso Diverso Venezia de melhor filme estrangeiro e recebeu menção honrosa da Fundação Fai Persona Lavoro Ambiente, na seção Horizontes Extra, do Festival de Veneza.

Após seis dias de sua estreia na plataforma Netflix, “7 prisioneiros” era o segundo filme em língua não inglesa mais visto no mundo. Geralmente, quando assistimos a um filme, esperamos por um final regozijante com um “herói” ou uma “heroína” vitorioso/a diante do “mal”.

O filme vai na contramão desse falso dualismo e busca dar visibilidade a uma realidade muito mais comum do que imaginamos, que é o tráfico de pessoas, o contrabando de migrantes e as formas contemporâneas de escravização no Brasil.

(2021, Brasil, Alexandre Moratto, 90 min.)
Disponível em: Netflix  Trailer

• O Patrão: Radiografia de um Crime

A ficção, baseada em fatos reais, ganhou três prêmios da Academia Argentina, sendo um deles de melhor ator para Joaquín Furriel, que interpretou Hermógenes, homem analfabeto, que junto a sua esposa Nora (Andrea Garrote), migrou para a capital Buenos Aires em busca de trabalho.

Os dois passam a viver, em condições deploráveis, nas dependências de um dos açougues do patrão, por causa disso não recebe salário fixo e sua companheira trabalha como doméstica na casa do chefe. O drama apresenta como a face embrutecedora do trabalho pode provocar a brutalidade e a reação violenta dos subalternizados/as.

(2015, Argentina, Sebastián Schindel, 99 min.)
Disponível em: Netflix  Trailer

• Estômago

Raimundo Nonato, interpretado de forma irretocável pelo ator João Miguel, emigra do Nordeste para conseguir uma vida melhor.

O drama, inspirado no conto “Presos pelo estômago” do Livro “Pólvora, Gorgonzola e Alecrim”, de Lusa Silvestre, tem muitos momentos de comédia e é uma crítica nada palatável das relações sociais burguesas em suas opressões regionais e patriarcais.

O foco não são as condições precárias de trabalho, a que Raimundo se submete como faxineiro num bar, mas toda a sua ascensão como um  chef de cozinha e sua derrocada.

O longa-metragem, que reverbera profícuos debates sobre privilégios e a coisificação humana, recebeu muitos prêmios como os de Melhor Ator, Roteiro Adaptado e Revelação no prêmio Guarani de Cinema Brasileiro; Melhor Filme e Ator no Festival de Punta Del Este; Melhor Filme no Festival do Uruguai; Melhor Filme e Ator na Semana Internacional de Cinema de Valladolid, na Espanha; e os prêmios de Melhor Filme pelo Júri Popular, Direção, Ator e Ator Coadjuvante, para Babu Santana, no Festival do Rio.

(2008, Brasil, Marcos Jorge, 112 min.)
Disponível em: Netflix e Claro|Now Trailer

• Vinhas da Ira

Uma adaptação do livro homônimo de John Steinbeck, o clássico longa-metragem estadunidense apresenta o período da grande depressão nos EUA e a necessidade de famílias arrendatárias, despejadas de suas terras, a migrarem para a Califórnia, onde supostamente haveria oportunidades de empregos.

No entanto, se veem em condições laborais piores daquelas que foram forçadas a abandonar e sofrem a violência de capatazes e policiais corrompidos, quando tentam se organizar e reivindicar por justiça.

O filme ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante para Jane Darwell e de melhor diretor para John Ford e concorreu a outros prêmios da Academia, os de melhor filme, roteiro e ator principal (Henry Fonda).

(1940, EUA, John Ford, 129 min.)
Disponível em: Youtube (Dublado)

• Pureza

A ficção “Pureza”, dirigida por Renato Barbieri e atuação comovente e primorosa da atriz Dira Paes, é uma obra cinematográfica inspirada em fatos reais.

O longa-metragem, vencedor de 28 prêmios nacionais e internacionais, salienta elementos da terrível situação de grande parte das classes trabalhadoras rurais brasileiras, além do avanço do combate a escravidão contemporânea, graças à força e ao empenho de Dona Pureza na saga em encontrar e resgatar seu filho Abel (Matheus Abreu).

A maranhense Pureza Lopes Loyola, desde 1997, é reconhecida mundialmente como uma das principais abolicionistas.

(2022, Brasil, Renato Barbieri, 101 min.)
Em exibição em cinemas de todo o Brasil. Trailer
> Leia ‘Pureza e o drama da escravidão contemporânea no Brasil’, de Marcela Soares

Documentários
• Nas terras do Bem-Virá
Este documentário, dirigido por Alexandre Rampazzo, ganhou vários prêmios nacionais e internacionais, retrata os conflitos agrários e as formas contemporâneas de escravização fomentada, principalmente no período da ditadura empresarial-militar, pelos processos de expropriação dos meios de vida dos/as trabalhadores/as rurais que migram em busca de terra e trabalho.

(2007, Brasil, Alexandre Rampazzo, 110 min.).
Disponível em: Youtube

• Escravidão no século XXI
Em cinco episódios, com a direção geral de Bruno Barreto, inspirado pela leitura do livro “Pisando fora da própria sombra: A Escravidão por Dívida no Brasil Contemporâneo” do padre e professor da UFRJ, Ricardo Rezende.

Os episódios tem duração média de uma hora e apresentam a dinâmica da escravidão e as suas diferentes formas contemporâneas no Brasil, desde os tradicionais latifúndios até a indústria da moda.

(2014, Reino Unido, The Guardian, 19 min.)
Disponível em: Youtube

Marcela Soares

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