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‘O Rei de Roma’ usará humor para discutir sobre sociedade italiana contemporânea.

Filme O Rei de Roma (Foto: Divulgação/ Pagu Pictures)

Admirador do grande humor à italiana – de autores como Mario Monicelli, Dino Risi ou Luigi Comencini –, Daniele Luchetti não define O Rei de Roma, que estreou na quinta, 7, nos cinemas brasileiros, como ‘comédia’. Prefere dizer que se trata de uma ópera-bufa. O filme estrelado por Marco Giallini baseia-se, remotamente, numa história real. Em 2014, no desdobramento do escândalo chamado de Mediaset, o todo-poderoso Silvio Berlusconi foi condenado a um ano de prestação de serviços numa instituição social.

Com pé na realidade, Luchetti começou a tecer sua fábula. O protagonista é Numa Tempesta, homem de negócios obcecado pela necessidade de ser bem-sucedido em tudo o que faz. Para garantir-se, ele infringe a lei. É condenado, o que o aproxima de um pai sem recursos, que carrega o filho a reboque. Mesmo na pior, Tempesta continua tecendo planos mirabolantes, mas precisa de um laranja.

Marco Giallini, que faz Tempesta, pode ser pouco conhecido no Brasil, mas na Itália é um mito. Elio Germano é parceiro frequente de Luchetti. Fizeram Meu Irmão É Filho Único e ele foi melhor ator em Cannes por La Vita Nostra. Interpreta o pai, Bruno.

Mais do que sobre Berlusconi, O Rei de Roma é sobre a nova confirmação social italiana. “Estamos vivendo um momento singular de nossa história”, explica Luchetti, numa entrevista por telefone. “Tem a ver com o estado do mundo. A luta de classes é considerada um anacronismo de esquerda, e hoje, no mundo dos ‘likes’, as pessoas são levadas a crer num falso democratismo. Nem todo mundo é igual, mas as pessoas creem que sim. Pelo que sei, no Brasil não é diferente, e vocês elegeram um presidente que só se comunica pelas redes sociais. Na Itália, a classe média pensante, na qual me incluo, virou o inimigo. Os muito ricos uniram-se aos muito pobres, que são sua massa de manobra. São os novos fdp.”

Na trama de O Rei de Roma, Tempesta compra, como investimento, um hotel de luxo, em cujos corredores o filho de Bruno anda de triciclo – sim, é uma homenagem ao Stanley Kubrick de O Iluminado, e justamente ontem, dia 7, completaram-se 20 anos da morte do grande Kubrick. Apesar do piscar de olhos e das possíveis referências aos grandes da comédia italiana, Luchetti admite que, para o caso particular desse filme, estudou a obra de Frank Capra.

Cinéfilos de carteirinha sabem de quem se trata. O ítalo-americano Capra, três vezes vencedor do Oscar, foi um entertainer que encarnou, no cinema, o espírito do New Deal do presidente Franklin D. Roosevelt. Com o tempo, passou a ser contestado e até virou alvo de chacota. Seus truísmos – o dinheiro não traz felicidade – e os grandes discursos sobre a democracia podem ter ficado defasados, mas ainda tem tudo a ver, nesse mundo de manipulação e aparência, com o que o diretor quer dizer sobre ricos e pobres. “Os ricos, por seu egoísmo, sempre mereceram desprezo, mas, cada vez mais, é preciso desconfiar dos pobres. Vendem-se por nada. Os ricos, pelo menos, acham que sabem quanto valem, e cobram caro.”

Luchetti faz filmes complemente escritos, mas é, como diz, pelo prazer de desconstruir o roteiros. “Meus atores sempre têm carta branca para improvisar, e me encanta ver como eles se apropriam das situações e introduzem as próprias falas.” Acostumado a trabalhar com Elio Germano, ele conta que se surpreendeu. “Marco (Giallini) é herdeiro de Gassman, Tognazzi. Foi maravilhoso ver como Elio (Germano) não se intimidou ao lhe dar a réplica. Foi uma das melhores filmagens da minha vida.”

Luiz Carlos Merten

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