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PUAN – Comentário sobre o filme dirigido por Maria Alché e Benjamín Naishtat

CULTURA PUAN

A arte imita a vida ou o contrário? Em certos casos, obras cinematográficas realizam um salto que nossos olhos não se atentam prontamente, somente a possibilidade de analisar obras de grande sensibilidade para aguçar nossos sentidos da dimensão de uma crise estrutural e seus rastros de uma terra arrasada pelo capital.

As definições que se podem encontrar em tamanha profundidade se revelam com inúmeras fases, transmitidas por uma tragédia ou em certos contornos por uma comédia. Nessa última opção que os diretores Maria Alché e Benjamín Naishtat encontraram uma forma de explicar o caso argentino e sua condição sobre os aspectos políticos, econômicos e sociais com a amostra de Puan (2023).

Filme premiado internacionalmente e que retrata a vida de um grupo de professores vinculado ao Departamento de Filosofia da Universidade de Buenos Aires (UBA) através da história de Marcelo Pena que almeja a vaga para a cátedra de seu antigo mentor que veio falecer recentemente, mas seus planos não saem como esperado após a volta de outro professor, Rafael Sujarchuk, se apresentando de maneira mais carismática e gentil para o cargo. Dessa maneira, Marcelo precisará se esforçar ainda mais para concorrer ao cargo.

A trama gira em trono dessa disputa, mas a visão exterior a isso é o que mais chama atenção ao apresentar para público uma Argentina movida a crises e condições precárias. Ao retornar da Alemanha, depois de 20 anos lecionando fora do país, Rafael se mostra como um estrangeiro em sua própria terra ao não conseguir vislumbrar em um primeiro momento a condição do país e seu desastre econômico, algo que para Marcelo faz parte de seu cotidiano.

Além de professor na Universidade de Buenos Aires, para organizar as contas do mês, Marcelo precisa realizar aulas particulares e participar de projetos externos para se organizar financeiramente, por tal dinâmica o desespero e a frustração se materializam em Marcelo e se reverbera ao longo do filme.

Uma obra que tinha como objetivos a clássica comédia argentina foi mais longe disso e situou um cenário muito parecido com outros países da América Latina, conduzindo para uma investigação de suas causas e consequências ao demonstrar a precarização da carreira docente e um embate entre a forma neoliberal que se expande pelo mundo tendo como alcance os níveis individuais do sujeito e aspectos privados de sua vida.

Esse último ponto se toca pela a vida dedicada ao sustento de casa que faz com que Marcelo se ausente em momentos com sua família ao não conseguir ir à apresentação de seu filho ou dar a atenção para questões familiares, em face a isso temos a visualização da fuga de dólares da Argentina e sua situação como um retrato dessa terra arrasada, ao ponto do próprio Marcelo e sua companheira precisarem se mudar do centro de Buenos Aires ou continuarem, mas em lugares inóspitos por conta do custo de vida.

De outro lado, a situação na universidade em que inúmeras cenas, seja em reuniões de professores ou diante de comícios estudantis o atraso e a falta de pagamento dos professores, além das verbas para a manutenção da faculdade se fazem constantes.

Assim, em um ponto após o fim do concurso e a nomeação de Rafael e não de Marcelo para vaga, já no seu primeiro dia como professor titular, ao chegar em frente à Universidade de Buenos Aires ele tem uma grande surpresa: a universidade está fechada devido à crise governamental e o fechamento dos ministérios, incluindo o da educação, por falta de verba.

Aí se instaura uma grande mobilização e tantos professores como estudantes decidem realizar uma aula pública para demonstrar tal insatisfação com o corrido.

O filme vai além disso demonstrando outros tantos aspectos, mas podemos sintetizá-los pela: precarização docente, crise universitária, crise econômica, social e política, aumento das desigualdades e forte apelo ao passado de luta e resistência dos argentinos.

Poderíamos dizer que se trata de um cenário da Argentina atual, mas transmitido sobre aspectos cômicos ao longo do filme. As lições que tiramos disso é que o filme de alguma maneira passa, sobretudo em seu final como uma cena memorável e cômica de Marcelo em uma conferência na Bolívia é que apesar dos pesares a caminhada do povo argentino, tentando se conciliar nessa corda bamba entre neoliberalismo e catástrofes globais, se torna mais latentes através de um sopro melancólico e de voz para o mundo.

Um recorte pequeno desse filme, mas que chama atenção para nós brasileiros é que, mutatis mutandis, a nossa direção acena para um mesmo cenário que não podemos pensar somente através da periferia do capitalismo, mas em verdade se trata de uma condição também global.

Esse sintoma vem sendo demonstrado desde o colapso da antiga União Soviética por muitos ângulos seja pela ideia de colapso da modernização ou a ideia de brasilianização do mundo, seja como for, o Brasil já não é o país do “futuro moderno”, mas se integra somente nesse ponto pela lógica negativa que os fatos nos mostram: a brasilianização nesses termos se refere ao aumento das desigualdades, precarização das relações de trabalho, achatamento dos mais pobres para a linha da pobreza e as crises ambientais se equalizam em termos unos por todos os continentes, nesse cenário é o Brasil que oferece o modelo perfeito de como administrar o neoliberalismo para o centro do capitalismo.

Nessa forma de administração as ideais estão no lugar contemporâneo, mas sobre o risco de destruição e colapso mundial.

Essa condição histórica é transposta na arte de diversas maneiras, a condição é essa, agora resta saber quais medidas serão tomadas e mobilizadas para se pensar uma vida, como diria Iztván Mezáros, para além do capital.

A tragédia já fora anunciada há muito tempo, negar a condição atual é uma farsa que pode ter um alto custo ao qual já estamos pagando e que as gerações futuras certamente terão um grande desafio pela frente.

*Lucas Pereira da Paz Bezerra é mestrando em Estudos Culturais na EACH- USP.

Referência

Puan
Argentina, Alemanha, Brasil, França, Itália, 2023, 109 minutos
Direção e roteiro: Maria Alché e Benjamín Naishtat
Elenco: Marcelo Subiotto, Leonardo Sbaraglia. Andrea Frigerio.

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