261 mil brasileiros morreram de ‘mimimi’ e de ‘frescura’

Covas para os mortos pelo coronavírus

O Brasil viveu mais um capítulo da “Era do Foda-se”, quando o presidente da República, discursando em São Simão (GO), nesta quinta (4), falou:

“Vocês [produtores rurais] não ficaram em casa, não se acovardaram. Nós temos que enfrentar nossos problemas. Chega de frescura, de mimimi. Vão ficar chorando até quando? Temos que enfrentar os problemas. Respeitar, obviamente, os mais idosos, aqueles que têm doenças, comorbidades. Mas onde vai parar o Brasil se só pararmos?”

Perdemos as contas do número de vezes em que ele menosprezou a pandemia e incentivou aglomerações, sapateando sobre a montanha de cadáveres – que hoje está em 261 mil, mas subindo.

Tudo isso é repetitivo – o que faz com que as reclamações sobre seu comportamento pareçam presas, junto com Bill Murray, num Dia da Marmota.

É sensação de déjà vu a cada tentativa de interpretar um novo lance cheirando a mofo da necropolítica presidencial.

Donald Trump, cujo negacionismo foi menor que o de Jair Bolsonaro, adotou o mesmo método de minimizar as mortes para forçar um retorno da economia à normalidade.

A forma como lidou com a pandemia ajudou a minar sua reeleição. Mesmo assim, o seu discurso encontrou eco.

Enquanto Joe Biden recebeu 81,3 milhões de votos, Trump ficou com 74,2 milhões – muitos dos quais concordaram com sua forma de enfrentamento ao problema e, portanto, sua visão de mundo.

Parte acredita que os Estados Unidos poderiam ter perdido muito mais do que 518 mil vidas (até agora) se o presidente fosse outro. Outra parte, que não havia nada que ele poderia ter feito para impedir a catástrofe – comportamento semelhante ao que ocorreu por aqui.

Levantamento do Datafolha, divulgado no dia 24 de janeiro, aponta que 47% dos brasileiros afirmam que Bolsonaro não tem culpa nenhuma pelas mortes, 39% dizem que é um dos culpados e 11% que é o culpado principal.

Com a atual escalada de mortes, os números podem ter mudado, mas ainda assim, esse é o resultado após quase um ano de pandemia.

O que lembra que nossos presidentes são causas de tragédias, mas também fruto de uma parte de nossas sociedades que neles se enxergam.

No Brasil, temos o bolsonarismo-raiz, representando de 12% a 16% da população, mas também outros grupos oportunistas – que não pulam do penhasco se o presidente mandar, mas querem aproveitar a sua administração autoritária para conseguir o que não seria possível numa democracia.

Sempre me lembro disso ao ouvir rigorosas palmas quando ele diz coisas que ferem a dignidade humana, como as desta quinta.

Bolsonaro fez a mesma aposta que Trump ao longo do ano passado. E, agora, diante de recorde atrás de recorde de óbitos, dobra a aposta.

Acredita que a morte de 0,12% da população pela pandemia atrapalha menos seu caminho à reeleição do que uma economia em apuros e seus mais de 14 milhões de desempregados.

Simultaneamente, investe na tática de culpar governadores, prefeitos, a imprensa, o destino por aquilo que era sua responsabilidade – de preservar vidas a compras vacinas.

Como há tempo e as realidades são diferentes, Jair pode ser mais bem sucedido que Donald.

Sem dúvida seria mais uma vergonha nacional.

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