A vida e a morte do bispo emérito de São Félix do Araguaia

Share on whatsapp
Share on twitter
Share on facebook
Share on google
Share on linkedin
Share on email
Casaldáliga pediu para ser enterrado no cemitério Karajá, à beira do Rio Araguaia, em Mato Grosso

O coração de Pedro Casaldáliga, catalão do mundo, deixou de bater no dia 8 de agosto de 2020, após 92 anos de existência terrena.

Católico ecumêmico, devoto de todas as missões de Justiça e Liberdade, bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), Pedro fez sua travessia.

O coração de Pedro, pedra e flor, poeta e profeta, “combatente derrotado de causas invencíveis” – como ele gostava de dizer -, continuará pulsando, a inspirar a caminhada dos que virão depois dele.

Dos que virão depois de nós, seus camaradas de fé, sonhos e lutas. Nunca é perdida a vida de quem dá largo testemunho.

Nas vezes em que encontrei Pedro – não foram muitas, infelizmente – eu brincava:

“você devia ser nosso papa!”. Ele respondia no mesmo tom, com seu humor bom:

“por isso mesmo, por gente como você querer, nunca vou ser; além do mais, não tenho vocação para príncipe”.

Pedro via no papa Francisco, porém, no topo da instituição monárquica mais duradoura do Ocidente, uma benção, uma tentativa de retorno ao cristianismo das catacumbas, dos primórdios.

Para Pedro, o coerente, ser cristão era ser despojado e descontente: “nada possuir, nada carregar, nada pedir, nada calar e, sobretudo, nada matar!”.

Quem quis matar Pedro foi a ditadura, foi o latifúndio.

Feriram de morte seu parceiro de evangelização, padre João Bosco Burnier, mas não o atingiram.

Tentaram expulsá-lo do país, como fizeram com padre Francisco Jentel, seu igual na prelazia, mas por intervenção do papa Paulo VI, que o nomeara bispo, não conseguiram.

Pedro foi um esperançado resistente: “somos a solidão que suportamos, que acolhemos, que partilhamos, que transcendemos!”.

É simbólico de sua solidariedade visceral com os oprimidos que o corpo de Pedro tenha se apagado no dia em que, no Brasil, chegamos às 100 mil trágicas mortes pela Covid.

Pedro está ali, luz nas trevas, confortando os aflitos, denunciando a insensibilidade dos podres poderes – como fez durante toda sua vida.

Pedro foi bispo do anel de tucum, do báculo que era um cajado ou um remo nativo, do chapéu de palha como mitra.

Pedro bispo dos comuns, do calcinado e imenso chão brasileiro, das águas profundas do Araguaia.

Pedro dos pobres e oprimidos, dos camponeses, dos índios, dos deserdados da Terra: “no ventre de Maria, Deus se fez homem. Mas, na oficina de José, Deus também se fez classe”. Pedro da Libertação!

Assim pregou, assim viveu.

Por isso a morte, quando chegou, querendo algo de seu, nada encontrou para tomar. Tudo estava doado, entregue, compartilhado.

Assim a morte foi vencida por Pedro, pedra angular.

Muito mais densas do que as nossas, as palavras vividas de Pedro continuarão a nos orientar e animar – mistérios da fé:

“Para descansar/ eu quero só esta cruz de pau/ como chuva e sol/ Estes sete palmos/ e a Ressurreição”.

Pedro pediu para ser sepultado na sua terra de adoção, no cemitério dos Carajás, à sombra de um pé de pequi, entre os túmulos precários de um peão e de uma prostituta.

Pedro sabia, como está escrito no evangelho de Mateus (21, 31), que eles nos procederão no Reino do Céu.

Pedro Casaldáliga, amigo fiel do Jesus dos pobres, fragmento de Deus na terra, está plenificado no Corpo Místico, Cósmico e Eterno do Todo Poderoso Amor, a quem ele tanto serviu.

Pedro está nas lutas de todos os povos, de todas as épocas, por sua/nossa emancipação. Glória, gracias!

Chico Alencar é professor da UFRJ, escritor e ex-deputado federal (PSOL/RJ).

OUTRAS NOTÍCIAS