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Bactérias super resistentes ameaçam o futuro da humanidade

Amanhã ou depois poderá surgir uma pandemia que não será causada por um inimigo invisível que veio da floresta ou que escapuliu de um laboratório do outro lado do mundo, como fantasiam alguns, mas provocada por uma bactéria que saiu de um hospital pertinho de você.

E sinto muito: ela resistirá bravamente a todos os medicamentos nas prateleiras das farmácias.

Na realidade, embora as bactérias super-resistentes sejam bem mais frequentes no ambiente hospitalar, elas já começam a ganhar sorrateiramente o espaço das ruas. É que quase ninguém está se dando conta.

Enquanto a gente ouve “fulano pegou uma infecção no hospital” — e a cabeça logo traduz que deve ter sido algo difícil de curar —, ignora que cerca de 230 mil pessoas no mundo morrem de tuberculose multirresistente todo ano, de acordo com um relatório da ONU (Organização das Nações Unidas). Isso para eu dar um único exemplo.

Ou seja, já circula entre nós uma versão bombada do bacilo de Koch, o causador dessa doença. Parênteses: um bacilo é uma bactéria em forma de bastonete e, se esse tipinho nem sente mais cócegas com os tratamentos disponíveis, é porque foi treinado pelo uso e pelo abuso de antibióticos.

Tomar essa classe de medicamento sem a menor necessidade ou do jeito errado é comprar uma encrenca pesada. Infecções bacterianas simples ficam a cada dia mais difíceis de serem debeladas.

“Antibióticos que há dez, quinze anos eram a última escolha dos médicos, hoje se tornam a primeira opção em algumas doenças“, constata o microbiologista Leonardo Neves de Andrade, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP de Ribeirão Preto, onde também se dedica justamente ao estudo da resistência das bactérias a esses remédios.

É ele um dos organizadores do 2º Simpósio de Antibióticos e Resistência Bacteriana, que será neste sábado, dia 20, das 8 às 13 horas. O alvo principal do encontro são os profissionais de saúde.

“Mas, como esse é um tema que precisamos divulgar entre os pacientes também, ele será transmitido pelo nosso canal no YouTube para qualquer um assistir“, informa Andrade.

O evento acontece no meio da Semana Mundial de Conscientização sobre o Uso de Antibióticos, declarada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Aliás, a tal semana começa hoje, 18 de novembro. E não é à toa que a entidade se preocupa.

Um relatório encomendado pelo governo britânico sugeriu que as superbactérias matarão uma pessoa a cada três segundos em 2050. Existe a estimativa de que elas serão a causa da morte de 10 milhões de pessoas nos próximos trinta anos.

Mas aviso: essa previsão já está sendo revista, porque se admite que o problema tende a aumentar como um dos efeitos colaterais da pandemia de covid-19, uma vez que um número enorme de pessoas usou uma quantidade igualmente enorme de antibióticos durante esses meses de amarga convivência com o Sars-CoV 2.

O empurrão da covid-19

O Sars-CoV 2 é um vírus. E antibióticos são remédios que só agem quando a infecção é bacteriana.

Um erro grosseiro — e infelizmente bastante comum — é tomá-los para combater viroses.

As bactérias resistentes é que saem ganhando com isso, livrando-se inclusive da eventual concorrência de outros germes, os quais vivem no nosso organismo pacificamente. Isso porque um antibiótico nunca faz distinção e o caminho fica livre.

“Ocorre que, embora seja uma doença viral, a covid-19 faz com que pacientes em estado grave precisem ser intubados e existem pneumonias bacterianas associadas à ventilação mecânica“, justifica Andrade.

Bactérias presentes na UTI se aproveitam da brecha criada pelo procedimento invasivo. Afinal, por mais que um hospital tome todos os cuidados contra infeccções, esse é um ambiente de risco por natureza.

“Mas também é fato que, no auge da pandemia, muitas vezes foram usados dois, três antibióticos diferentes de uma vez em um paciente, antes de se ter a certeza de que ele estava com uma infecção bacteriana ou que a bactéria era sensível àqueles remédios“, reconhece o microbiologista.

Em um levantamento realizado em nove países, a OMS observou que mais de 75% dos doentes internados em estado grave de covid-19 receberam antibióticos, apesar de apenas 15% deles terem confirmada uma infecção bacteriana.

No Brasil, diz a Anvisa, o consumo de antibióticos foi para as alturas por estes tempos. Só em 2020, a venda de um deles, a azitromicina, cresceu 105%.

É que muita gente cismou que essa droga serviria para acabar “precocemente” com a festa do Sars-CoV 2.

O remédio é, sim, usado para tratar outras infecções respiratórias. Mas sempre bacterianas, bem entendido.

Pressão seletiva

“Antibióticos não fazem surgir bactérias resistentes“, faz questão de esclarecer o professor Andrade. Portanto, vamos tirar da mente a ideia de que dariam superpoderes a esses germes.

Na verdade, as bactérias superpoderosas já existiam.

Mas digamos que estavam em minoria e perdidas entre outras mais vulneráveis. E estas são as primeiras que desaparecem quando o antibiótico entra em ação, deixando para um segundo momento aquelas que seriam as mais preparadas.

Ora, se o antibiótico não foi a melhor escolha para derrotá-las ou se alguém esquece os horários de tomar a medicação ou, ainda, se abandona o tratamento antes do fim, isso só servirá para acelerar o processo de seleção natural, sobrando os exemplares resistentes.

Eles, na sequência, se multiplicarão, dobrando sua população a cada 20 ou 30 minutos. A minoria irá virar maioria — e uma maioria difícil de se abalar.

O ataque dos antibióticos e o contra-ataque das superbactérias

Segundo Leonardo Andrade, os antibióticos agem por diversos mecanismos, fazendo uma bactéria ou morrer ou simplesmente parar de crescer — daí, nesse caso, há ao menos uma boa chance de o próprio sistema imunológico dar conta do recado.

“O remédio pode destruir o que chamamos de envoltório, que seria uma membrana de proteção da bactéria“, exemplifica o microbiologista.

“Também pode entrar em sua célula e, ali dentro, impedir que ela produza proteínas e outras substâncias essenciais à sua existência.”

Mas aí é que está: muitas vezes, as superbactérias conseguem literalmente ejetar algo nocivo ao seu funcionamento. Ou modificam os receptores por onde o remédio entraria e, daí, é como se ele desse com o nariz na porta. Outra estratégia de resistência é liberar substâncias que neutralizam as moléculas do antibiótico antes mesmo de ele chegar perto.

Mais dia, menos dia

Muita gente já carrega superbactérias em seu organismo, depois de passar por longos períodos de hospitalização ou de ter tomado antibióticos várias vezes ao longo da vida. E aí, como diz o ditado, a ocasião faz o ladrão.

“Em mulheres, estamos vendo vários casos de infecções urinárias bacterianas resistentes“, aponta Leonardo Andrade.

“Nelas, uma superbactéria deve ter colonizado o intestino e, quando essas mulheres se tornam mais velhas, têm obesidade ou se ficam muito tempo sentadas, por questões até anatômicas, ela consegue migrar para o trato urinário.”

A importância da vacina

Diversas outras infecções têm demonstrado maior resistência aos antibióticos de sempre.

O microbiologista destaca as meningites bacterianas, perigosíssimas. “Mas, para elas, há vacina. Se a pessoa está imunizada, não ficará doente e, consequentemente, não experimentará a frustração de ver o remédio não funcionar.”

O mesmo vale para a tuberculose. Vacina já. A vacinação ignora se uma bactéria é resistente ou não a antibióticos. Funciona e pronto.

Água e sabão comum

Tudo o que impede a gente de ficar doente e precisar do remédio é válido para diminuir o risco da resistência bacteriana. Assim, lavar as mãos com frequência é medida prioritária.

“E nada de usar sabonetes bactericidas“, avisa Leonardo Andrade. “Além de serem desnecessários, porque o sabão comum já elimina as bactérias, eles ajudam a selecionar aquelas que também são mais resistentes aos antibióticos.”

O resto da receita, espero, você já sabe. Nunca se automedique.

Se receber a receita de um antibiótico, siga à risca as orientações sobre doses, horários e duração do tratamento. Sobrou remédio na caixa? Não guarde, nem compartilhe. Mas também não descarte em qualquer canto — leve o que restar até uma farmácia.

Finalmente, jamais pressione o seu médico a prescrever um antibiótico. Se ele vê que a garganta está vermelha, mas sem pus, sabe que provavelmente é uma infecção viral. Idem, se o hemograma mostra alterações sugestivas de virose.

Quando existe uma bactéria por trás, o ideal seria fazer um antibiograma, exame que acusa a que antibióticos ela seria sensível.

Se não agirmos assim, de cirurgias pequenas e comuns a transplantes de órgãos, passando por quimioterapia, diversos procedimentos que garantem o nosso bem-estar ou que salvam vidas se tornarão extremamente arriscados. Porque, sim, hoje há seres invisíveis e quase invencíveis entre nós.

Lúcia Helena

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