Carta a Oswaldo Cruz

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Oswaldo Cruz

Caro Dr. Oswaldo,

Inicialmente, peço desculpas por incomodá-lo em seu descanso eterno, perturbando a paz celestial com assuntos de guerra.

Mas estou certo de que, como se trata de uma boa razão, e urgente, o senhor há de me compreender. Ah, sim, eu quis conversar em tempo real, utilizando meu celular chinês, mas o Anjo aí da porta do céu disse que “não, nem pensar, quem-você-pensa-que-é?” e tal e, tenho de admitir, isso me deixou intimidado e desisti do diálogo que a mim me honraria muito, claro.

Sei, porém, que o senhor gostava de cartas, então espero que não se aborreça com esta.

Mas, Dr. Oswaldo, o caso é que as coisas andam bem feias por aqui e, não tem jeito, estamos precisando muito de seus conselhos.

Está em curso uma verdadeira guerra da vacina… Não, não, Dr. Oswaldo, não é “revolta da vacina”, é guerra da vacina é muito interessante isso de o destinatário poder interromper o missivista nas epístolas celestiais, e ir esclarecendo dúvidas na medida em que vão surgindo.

Descobri isso agora, neste parágrafo. Não, Dr. Oswaldo, não é “outra” revolta da vacina, apesar de alguns admitirem que sim, mas é mesmo uma guerra política.

Uma guerra dessas pós-modernas, sem canhões, sem barricadas, sem armas de fogo. É uma guerrinha política entre o presidente da República e governadores e prefeitos de grandes cidades.

Hoje chamam isso de “guerra híbrida”. Guerra-o-quê? Híbrida, Dr. Oswaldo, híbrida. Várias táticas e meios de agressão e defesa, incluindo ‘lawfare’ e ações na internet para influenciar pessoas, sem que haja um cenário de operações com contornos bem definido. Barricada? Não, não…

Neste caso, não. Mas pode ter, sim, Dr. Oswaldo, pois isso de “guerra híbrida” é uma espécie de vale-tudo militar.

Dr. Oswaldo, eu compreendo seu interesse por esse tipo de guerra, mas não vamos nos dispersar, como diria o Tancredo Neves.

Ah, o senhor falou com o Tancredo outro dia? Bom sujeito, bom sujeito… Já o neto dele, o Aécio, nem te conto.

Mas, Dr. Oswaldo, vamos voltar ao que me fez escrever esta carta. Sim, que bom que o senhor está achando a conversa boa, mas não quero tomar mais do seu precioso tempo. Tem todo o tempo da eternidade?

Verdade, Dr. Oswaldo, estava me esquecendo deste detalhe. Mas, voltemos à pandemia.

Internet?

Para eu falar mais de guerra na internet?

Bom, Dr. Oswaldo, isso é bem complicado. Vamos deixar para outra carta?

Quem é o presidente?

Não, não é parente do Rodrigues Alves, não. O Diretor da Saúde Pública?

Bom, Dr. Oswaldo, hoje em dia é o ministro da Saúde. Soube?

É sim, é verdade que no auge da pandemia da COVID-19 o Brasil ficou quatro meses sem diretor da saúde públ…quer dizer, sem ministro da saúde.

Se eu consigo explicar isso?

Que quatro meses é muito tempo?

Não consigo, Dr. Oswaldo, rapidamente não dá. Eu teria de contar sobre muitas coisas.

Imagina, Dr. Oswaldo, que o atual presidente é contra vacinas! Pois é, mais de… Eu sei, eu sei… Sim, são mais de 100 anos depois da “revolta da vacina”.

É que o Jair Messias não é fácil, Dr. Oswaldo, ele ameaça as instituições democráticas todos os dias e se considera um defensor da liberdade.

Veja o senhor… Defensor da liberdade! Seria bom se ele pudesse ouvir uns conselhos do presidente Rodrigues Alves.

Principalmente sobre ciência, cientistas, sobre fazer as coisas com base em conhecimentos científicos e deixando a fé para o lugar da fé. Eu sei, eu sei, são pessoas de fé… Sim, eu respeito Dr. Oswaldo, eu respeito, sim, mas é que ele acredita que a pandemia pode ser enfrentada com orações e jejuns…

E pensa que, por ser presidente da República, tem de ficar prescrevendo medicamentos para a população.

E as pessoas morrendo, morrendo; aos milhares.

Se ele está fazendo alguma coisa?

Outro dia perguntaram-lhe sobre os mortos e ele respondeu: “E daí?

Eu não sou coveiro”. Doeu, viu Dr. Oswaldo, doeu ver um presidente da República não ter uma palavra de consolo para amigos e familiares dos mortos e dar de ombros quando lhe perguntaram o que ele poderia fazer.

Sim, são milhares, Dr. Oswaldo. Nada de 30 mortos como em 1904. São mais de 5 milhões de casos e mais de 160 mil mortos.

O senhor tem razão, ainda sabemos pouco sobre a COVID-19. É verdade que há mais dúvidas sobre como lidar com ela do que o senhor teve para lidar com a varíola.

É verdade, o Brasil hoje está com 212 milhões de habitantes. Não dá para comparar mesmo. São doenças e epidemias bem diferentes.

Olha só, Dr. Oswaldo, com cerca de 3% da população mundial, o Brasil registra aproximadamente 15% dos casos e 14% dos óbitos por COVID -19 em todo o mundo.

A COVID-19… Desculpa, Dr. Oswaldo, eu não sabia que o senhor estava atento, acompanhando tudo, no mundo e aqui no Brasil. Bom, de qualquer modo tem coisas que, mesmo assim, eu preciso contar, pois sei que o senhor está sendo informado pela mídia e, você sabe, esse pessoal é bem parecido com esses anjos que o São Pedro deixa aí na porta do céu.

São muito “chapa branca”, não é? Adoram puxar o saco dos poderosos e não contam tudo o que sabem.

Isso mesmo, Dr. Oswaldo, eu estou me referindo aos militares que estão no comando do SUS, sem terem se preparado para o exercício das suas funções.

Ah sim, o SUS, Dr. Oswaldo é um sist… Não preciso explicar? É mesmo, Dr. Oswaldo?

Puxa, que bom saber que você tem conversado bastante aí no céu com o Sérgio Arouca, o Davi Capistrano, o Eleutério Rodriguez e aquele pessoal da reforma sanitária.

E com as moças também?

Bom, eu imaginava que sim… Não ia mesmo ficar aí de prosa apenas com os meninos, não é?

Falou outro dia com a Cecília Donnangelo e a Regina Marsiglia?

Dr. Oswaldo, o senhor é mesmo um privilegiado. Imagina que, por aqui, teve gente que comemorou quando viu o Mandetta com o colete do SUS.

Não lembra quem é o Mandetta?

É aquele ex-ministro da Saúde que era contra o ‘Mais Médicos’, que disse que não faltavam recursos para o SUS, que bastava melhorar a gestão.

Sim, isso, aquele que votou a favor de tirar a Dilma da presidência. Isso, ele mesmo!

Muitos dizem que ele é um “golpista”. A propósito, Dr. Oswaldo, tem muita gente por aqui, que participou diretamente daquele atropelo à democracia, ou que apoiou aquilo, que hoje em dia não pode nem ouvir a palavra “golpista”.

Preferem falar em “impeachment”, pois não gostam de se ver na pele de golpistas. Sentem-se democratas. Não ria, Dr. Oswaldo.

Sim, sim, vamos ao que interessa. Desculpa aí, Dr. Oswaldo, é que esse diálogo assim com suas intervenções perspicazes me faz sentir-me quase que um Asclépio de prosa com Apolo, por um acesso qualquer privilegiado ao monte Olimpo.

O caso, Dr. Oswaldo, é que depois de recomendar orações, cloroquina, hidroxicloquina, ivermectina, aplicação anal de ozônio, nitazoxanida o pessoal está duvidando da eficácia das vacinas anti-COVID-19.

Outros então nem querem saber se as vacinas funcionam ou não, simplesmente não querem saber de vacina alguma.

Não apenas essa possível vacina anti-COVID-19, mas de qualquer vacina.

Conto que nas últimas décadas o Brasil consolidou nosso Programa Nacional de Imunizações (PNI) e o grau de cobertura vacinal em geral melhorou muito, superando o dos Estados Unidos e muitos países da Europa ocidental.

Isso, Dr. Oswaldo, o SUS oferece todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Todos os anos são aplicadas mais de 300 milhões de doses de vacinas, imunizando contra mais de duas dezenas de doenças, em diversas faixas etárias.

O PNI é um orgulho nacional e está entre os melhores do mundo. Como?

Bom, esta é uma longa história, que tem a ver com a história do SUS e o modo como nosso país foi desenvolvendo a atenção básica. Mas nada anda fácil ultimamente.

Sim, o PNI está com problemas. Tem faltado vacina nas Unidades Básicas de Saúde, as pessoas vão, não são atendidas e têm de voltar alguns dias depois, mas acabam não voltando.

As coberturas contra as principais doenças infantis estão diminuindo muito, Dr. Oswaldo.

Todo mundo no SUS e nas entidades de especialistas anda bem preocupado com isso.

Mas o presidente da República diz que “ninguém é obrigado a se vacinar”. Ele se refere à anti-COVID-19, mas as pessoas pensam que se não para uma coisa, não vale para outra, não é?

É como aquela velha conversa liberaloide do Dr. Rui Barbosa, sabe?

Calma, Dr. Oswaldo, calma.

Lembra que você tem bom coração, mas os rins nunca foram lá essas coisas.

Eu sei que só de ouvir o nome do Rui Barbosa seu coração ainda acelera, embora você não o necessite mais, mas digo que estou mencionando o Dr. Rui porque essa carta vai ser publicada no site A Terra é Redonda…

Como? Isso: a terra é redonda. Não ria, Dr. Oswaldo. Sim, tem muita gente, e não só no Brasil, que acredita piamente que a terra não é redonda… Que risada boa, Dr. Oswaldo!

Bom saber que aí no céu também se pode sorrir. Pois é Dr. Oswaldo, tivemos que criar um site, desculpa outra vez. É que de 1917 para 2020 é muito tempo e fico tentado a explicar esses termos. Tá… tá bom. Quando o senhor quiser, pergunta. Combinado.

Bem, eu falava do Dr. Rui Barbosa, e lembrava que ele assegurava que “a lei da vacina obrigatória é uma lei morta.

Assim como o direito veda ao poder humano invadir-nos a consciência, assim lhe veda transpor-nos a epiderme”.

Ele dizia – lembra Dr. Oswaldo? – que “não tem nome, na categoria dos crimes do poder, a temeridade, a violência, a tirania a que ele se aventura, expondo-se, voluntariamente, obstinadamente, a me envenenar, com a introdução no meu sangue de um vírus sobre cuja influência existem os mais bem fundados receios de que seja condutor da moléstia e da morte.”

O senhor diz que ele estava equivocado, mas era um homem culto, um brasileiro patriota?

Sim, Dr. Oswaldo, mas conto que eu me lembrei dele porque o atual presidente é um néscio, um sujeito que pensa ser patriota, mas que está entregando todo o patrimônio dos brasileiros para empresas estrangeiras. Já sabia disso?

Ah, o Monteiro Lobato já contou sobre o petróleo, a Petrobrás?

O Getúlio e o João Goulart tinham dito que a Eletrobrás foi privatizada?

Pois é, que diferença não é Dr. Oswaldo, que diferença! Bem que o Dr. Rui Barbosa podia dar umas lições aqui para o pessoal da Esplanada, numa daquelas reuniões ministeriais.

Não-de-jeito-nenhum ele toparia?

Bom, faz sentido. Dá pra entender que ele tenha ficado horrorizado com aquele vídeo em que um ministro disse que tinha colocado uma granada no bolso do inimigo – que no caso eram os servidores públicos – enquanto o outro disse que usaria o medo causado pela pandemia para mudar regras de proteção ambiental e autorizar o desmatamento, abrindo caminho para madeireiras e mineradoras em áreas de preservação.

Ele tem razão em não se misturar com esses tipos. Outro bom sujeito esse Rui Barbosa.

Claro, claro, Dr. Oswaldo, vamos ao que interessa. Desculpe as minhas digressões.

Bom, escrevo pedindo seus conselhos porque temos a possibilidade de contar com uma vacina anti-COVID-19(5), mas o presidente não a quer, por ser chinesa. “Comunista”, como tem dito.

Ele não gosta e não quer nada criado, planejado, organizado, produzido por comunistas. O que fazer, Dr. Oswaldo?

Entendo. Entendo… Sim, entendi. Está bem, Dr. Oswaldo. Então, vou dizer isso aqui pro pessoal. Sim, pode deixar, Dr. Oswaldo, serei cuidadoso. Sim, direi que, então, coerentemente, o presidente deveria sair imediatamente do Palácio da Alvorada e de qualquer outro lugar de Brasília.

Direi que tendo Brasília sido criada por um comunista (Oscar Niemeyer) e um humanista (Lúcio Costa), a cidade é, como a vacina “comunista” chinesa, incompatível com o atual presidente. Certo, direi que ele pode não saber (provavelmente não sabe, Dr. Oswaldo, o sujeito é bem chucro), mas está morando em uma casa – um palácio, no caso, o Alvorada – que foi criado pelo Niemeyer, um notório comunista, daqueles bem vermelhos. Que ele, portanto, saia o quanto antes. Direi, pode deixar.

Envio meu cordial abraço, Dr. Oswaldo, desejando que fique bem por aí e prometendo que, por aqui, seguiremos nas lutas pelas vacinas, pelo direito à saúde e pelo SUS.

*Paulo Capel Narvai é professor titular sênior de Saúde Pública na USP.

P.S.: Puxa, Dr. Oswaldo, quase ia me esquecendo de contar. O ‘Instituto Soroterápico Federal’, que você criou em 1900, passou a se denominar Instituto Oswaldo Cruz em 1918, um ano depois da sua partida. Em 1970 foi transformado em Fundação e em 1974 ganhou o nome de Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Hoje a Fiocruz é outro orgulho nacional, Dr. Oswaldo, pois com 21 unidades no Brasil (11 no Rio de Janeiro e 10 em outros estados, em todas as regiões brasileiras) e uma unidade em Maputo, Moçambique, está entre as principais instituições mundiais de pesquisa em saúde pública.

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