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Como se fosse um 2º pré-sal’: especialistas apontam energia nuclear como saída para o Brasil

Usina nuclear paralisada

Reserva de urânio do país é uma das maiores do mundo, segundo especialistas do setor. Em entrevista à Sputnik Brasil, eles indicam as usinas nucleares como solução essencial e segura no momento, criando as condições para fontes renováveis no futuro.

Um dos grandes desafios globais no século XXI é reduzir o uso de fontes de energia poluentes. E o Brasil vai nesse caminho ao indicar interesse em investir na construção de usinas nucleares.

A energia nuclear é obtida a partir da fissão do núcleo do átomo de urânio enriquecido e é uma alternativa limpa por não emitir dióxido de carbono na atmosfera.

Embora não seja um recurso renovável, o urânio não contribui para o aquecimento global, diferentemente dos combustíveis fósseis, como petróleo, carvão e gás natural.

Atualmente, o Brasil possui apenas duas usinas nucleares, Angra 1 e 2, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Juntas, elas são responsáveis pela geração de apenas 3% da energia distribuída no território brasileiro.

Por isso, em 2022, o governo federal deseja avançar em duas frentes visando aumentar sua capacidade energética no segmento.

Primeiro, a Eletrobras aprovou a retomada das obras da usina de Angra 3, na sexta-feira passada (28).

Com isso, a Eletronuclear, sua subsidiária, já pode assinar o contrato com o consórcio vencedor da licitação, liderado pela empreiteira Ferreira Guedes, com as participações da Adtranz e da Matricial, conforme noticiado pela CNN Brasil.

As obras de Angra 3, iniciadas em 1984, estão paralisadas desde 2015 após denúncias de corrupção.

Na sequência, o governo já mira a construção de uma nova usina nuclear, com início de operação prevista para 2031. Sua instalação já consta no Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE), que serve de base para o planejamento do setor.

A previsão oficial é que a nova usina tenha capacidade de gerar um gigawatt (GW) de potência, o suficiente para abastecer uma cidade com 1,5 milhão de habitantes, conforme publicou o jornal Extra.

O professor de Engenharia Nuclear da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Aquilino Senra lembra que a energia está diretamente relacionada ao crescimento econômico. Ele afirma que, após um período de recessão, intensificado pela pandemia de COVID-19, a energia nuclear ajudará o Brasil a entrar em um novo ciclo virtuoso.

Apesar de a participação do segmento na matriz energética brasileira ser baixa, o especialista ressalta que o país já possui infraestrutura – ainda que de pequeno porte – montada nas últimas décadas para o setor, além de organizações para licenciamento e empresas com projetos ligados à energia nuclear.

“Há um ambiente formado, com um domínio tecnológico e matéria-prima. Não tenho dúvidas de que o Brasil terá que contar com a energia nuclear no futuro, para substituir as hidrelétricas, por questões ambientais, principalmente ligadas ao sistema de barragens”, destacou o professor, que leciona na Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia).

Para o chefe do Departamento de Desenvolvimento de Novos Empreendimentos da Eletronuclear, Marcelo Gomes, o país também precisa investir no segmento para não depender da boa vontade das forças da natureza com chuvas, que abastecem as hidrelétricas, em um momento de mudanças climáticas constantes.

Ele lembra que, com o período de estiagem recente, o país teve que elevar a atividade de termelétricas. Além de produzir mais gases de efeito estufa, a medida provocou o aumento de tarifas de energia.

“Teria ajudado muito nesse momento se já tivéssemos mais usinas nucleares. E economizaríamos água dos reservatórios, de forma a poder superar anos com afluência menor de chuvas”, afirmou Gomes.

O especialista diz ainda que a energia nuclear vai permitir que o país possa começar a investir de forma segura em fontes de energia renováveis, como a eólica e a solar.

“A energia nuclear é muito mais estável e dá segurança de abastecimento. Uma base sólida permite a entrada de fontes eólicas e solares, tornando o sistema muito mais robusto”, apontou ele.

“As fontes são como ingredientes que o cheff de cozinha tem para preparar um prato, cada uma com suas características e especificidades. Juntas, elas compõem um prato que é da melhor segurança energética, com menor custo para o consumidor final”, completou.

Uma das maiores reservas de urânio do mundo
Os especialistas fizeram questão de lembrar que o país é rico na matéria-prima utilizada para a produção de energia nuclear. O professor da Coppe/UFRJ Aquilino Senra diz que o Brasil flutua entre a sétima e a nona maior reserva mundial de urânio.

“Mas não basta ter a reserva, tem que extrair o minério”, frisou Senra.

Para Marcelo Gomes, da Eletronuclear, o urânio é uma “riqueza imensa” que o país precisa usar para “o bem do povo brasileiro”.

Ele aponta que o Brasil tem potencial para utilizar a reserva com “qualidade, bom custo e de forma segura para a população”.

“O Brasil tem uma das maiores reservas de urânio do mundo. É como se fosse um segundo pré-sal. A expansão é muito importante, porque cria um mercado e dinamiza toda a indústria de exploração desse combustível”, avaliou Gomes.

Sputnik/Reuters

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