Damurida, cariru, caxiri, gerimu e tucupi, conheça a original culinária de Roraima

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Roraima missão indígena

Quando se fala de cultura roraimense, muita gente desconhece as origens e como a rotina se dá neste território. A jovem Roraima, de apenas 32 anos, apresenta hoje tradições e cultura alimentar herdadas de povos originários.

Denise Rohnelt Araujo, de 53 anos, é jornalista, cozinheira e vive em Roraima há 29 anos. Há 11 ela pesquisa sobre a cultura alimentar indígena, seus ingredientes, utensílios e modos de fazer.

Um dos principais focos de pesquisa da jornalista e cozinheira é o tucupi negro, ingrediente indígena ancestral já citado nos livros em meados de 1860 por Ermanno Stradelli (etnógrafo ítalo-brasileiro, 1852-1926).

“Roraima é um estado novo, já foi município do Amazonas, território e tornou-se estado com a Constituição de 1988, com seu primeiro governador eleito em 1991. Então sofremos influências da cozinha do Amazonas e muito da culinária nordestina, além da indígena”, explica a jornalista.

Casa da maior e mais populosa nação da América do Sul, e o quinto país com maior extensão territorial do mundo, o Brasil abriga uma grande diversidade de ingredientes e sabores.

Na região Norte, de forma mais marcante do que no restante do país, a culinária indígena pode ser consumida tanto nas comunidades, como no campo e nas cidades.

Rosilda da Silva, indígena da etnia Macuxi, de 54 anos, vive na região Serras, na Comunidade Maturuka. Ela explica que dentro das terras indígenas é comum comer carne de caça e peixes, mas que isso pode variar de região para região, já que em alguns territórios não há caça.

A alimentação então é composta por carnes bovinas, suínas e caprinas, além das aves. “Quando se fala de alimentos e bebidas que passam de geração para geração, temos a damurida, o beiju e o caxiri – uma bebida feita à base de mandioca”, conta.

A damurida também é citada pela pesquisadora. “Temos como principal prato indígena a Damurida, um caldo quente feito com água, uma proteína (que pode ser peixe ou caça), pimentas variadas, um verde, geralmente cariru, tucupi negro e se come com beiju de mandioca”, explica.

Segundo ela, nas cidades também existem versões utilizando temperos que não são usados pelos indígenas como cebola, alho e tomate.

Panelas de cerâmica Macuxi – as panelas de barro são um dos utensílios feitos pelos indígenas Macuxi que traz ancestralidade.

Nas comunidades indígenas, é comum que a damurida faça parte da alimentação diária junto com o caxiri, mingau de banana e gerimu com milho – nome pelo qual a abóbora é conhecida em algumas regiões do país, como no norte e nordeste.

“Consumimos bastante mandioca, arroz, feijão, cana, inhame, folhas de pimentas e batata. Já quando se trata de frutas, comemos as das estações, como  banana, mamão, laranja, coco, caju, jenipapo, taperebá, araçá, goiaba e buriti”, conta dona Rosilda.

A planta alimentícia não-convencional

(PANC) cariru também faz parte da rotina alimentar nas comunidades indígenas de Roraima. Também chamado de caruru, beldroega-graúda, lustrosa-grande, maria-gorda, erva-gorda, major-gomes é uma hortaliça herbácea amplamente distribuída pela América Tropical, que chega até 60 cm de altura e pode ser utilizada para o preparo de feijoadas especiais, patês e recheios refogados.

“Também tem bebidas, tem caxiri de batata, aluá de milho com girimu, caxiri de cará, de mandioca cozida, de beiju assado, pajuaru, então é essa variedade de bebidas que existe”, lembra Rosilda.

Pratos tradicionais com peixe

Já Araújo lembra que em Roraima há rios piscosos com variedade de peixes, o que garante à região pratos tradicionais com peixes, mas não necessariamente indígenas.

A carne de sol na nata, galinha caipira, peixes assados com baião de dois e farofa estão sempre na mesa do roraimense.

“Como a nossa miscigenação é grande, temos a carne de sol como prato principal diariamente na forma de paçoca – que é carne de sol pilada com farinha de mandioca e se come com banana pela manhã ou no final da tarde no lanche.

Essa comida também pode se dizer que tem raízes nordestinas e indígenas, já que era levada pelos fazendeiros em longas viagens pois dura muito e alimenta. Já os indígenas consomem com carne de caça”, explica Araújo.

Segundo ela, os costumes do estado foram e continuam sendo moldados não só pelas condições territoriais e climáticas, mas também pelos imigrantes da região. “O peixe faz parte da refeição diária, assim como frango. As carnes de gado também são bem consumidas por todos, mas mais pelos sulistas.

Na década de 70 com o projeto Rondon vieram muitos gaúchos e paranaenses para cá,  e temos um Centro de Tradições Gaúchas – CTG”, explica.

Influência venezuelana

A crise aprofundada pelo bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos desde 2015 à Venezuela, precarizou a vida da população no país vizinho e causou uma grande migração para o Brasil.

Segundo os últimos dados do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), 33 mil imigrantes venezuelanos residem hoje em Roraima.

Segundo a pesquisadora, já é possível encontrar nos mercados ingredientes e alimentos venezuelanos em Roraima.

“Os venezuelanos também influenciam a cultura alimentar uma vez que nos mercados já encontramos ingredientes deles, como a arepa, que é feita de milho, e o pepito, sanduíche tradicional do país vizinho, também é servido em diversos lugares”, explica.

“Uma coisa interessante também, é que eles comem muito frango, então aumentou a oferta e demanda desse ingrediente no estado”, completa.

Ela destaca que também há outras influências como a árabe, que se apresenta através do quibe de arroz, existente apenas em Roraima e no Acre.

Culinária para o corpo e a alma

Rosilda conta como o processo de passar uma receita de geração em geração mantém as famílias unidas. “Ensinamos como preparar molho de pimenta, como preparar damurida, caxiri, ma’pi, sardinha indígenas, kai’pu, mingau de milho com gerimu.

É um momento de nutrir o corpo e, conforme a vivência, fortalecer a alma junto aos nossos antepassados.

Eles nos cobram que ensinemos nossas crianças para que elas não cresçam sem espírito de ser indígena mesmo sendo indígena. Isso é muito forte pra gente.

É nossa mentalidade, é nossa forma de honrar as crianças e jovens, para o bem da família”, explica.

Já Araújo conta que seu núcleo familiar é composto por quatro pessoas, ela, o esposo, o filho e a mãe.

Quando adolescente, aprendeu as receitas que vieram das avós e depois, já na vida adulta, criou um grande laço com a cozinha.

Além das receitas passadas de geração para geração, seu filho também nasceu com alergia alimentar à proteína do leite de vaca, o que fez com que ela buscasse outras alternativas para o pequeno.

“A alimentação é tudo. É nosso alimento e nosso remédio, pois nessa época de pandemia tenho elaborado uma dieta para aumento da imunidade de todos e que tenha todos os nutrientes.

Eu descanso quando vou para cozinha, é um prazer cozinhar todos os dias para alimentar a família. E sim, é uma forma de honrar os antepassados quando fazemos uma receita de família”, diz a jornalista.

Reconhecimento e valorização da cultura indígena

Ao fim da entrevista, a pesquisadora e cozinheira faz uma importante consideração sobre o fortalecimento e reconhecimento da cultura indígena no Brasil.

“Aqui em Roraima os alimentos indígenas não eram algo que se encontrava fora das comunidades há mais de 10 anos. Então quero acrescentar que quando começamos a falar sobre esses ingredientes, levamos para outros cozinheiros de outros lugares do país e fora, as pessoas começaram a olhar mais para eles”, conta.

“Temos em Roraima um projeto do Instituto Socioambiental (ISA) que nos trouxe alguns ingredientes da floresta como os cogumelos desidratados Yanomami, o chocolate Yanomami Iekuana, o tucupi negro dos Wapixanas e fora de Roraima do Alto Rio Negro no Amazonas a pimenta Jiquitaia dos Baniwas.

Conseguimos ver nas feiras alguns ingredientes indígenas como as farinhas de mandioca, de tapioca, a goma de tapioca, o beiju de mandioca, as pimentas em pó jiquitaia”, finaliza Araújo.

Martha Raquel

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