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“Estamos no começo do fim da supremacia masculina”, diz neurocientista

Futuro é feminino

Melvin Konner, doutor em Medicina, antropólogo e neurocientista, trabalha na Universidade Emory, em Atlanta (EUA), após ter sido aluno e professor de Harvard. Nasceu há 75 anos em Nova York e, nesta tardia etapa acadêmica, decidiu enfrentar críticas e ameaças para mergulhar na piscina da literatura científica com um livro provocador:

Women After All. Konner, colaborador do The New York Times, da Newsweek e do Wall Street Journal, vislumbra o final da supremacia masculina, defende a superioridade biológica das mulheres e propõe um imaginário cenário futuro (“biofantasia”, como ele diz) em que seria possível a reprodução feminina sem a participação do homem.

É a supremacia masculina, segundo a pesquisadora Marta Cintas-Peña, da Universidade de Sevilla (Espanha), que encontrou no Neolítico vestígios da origem da desigualdade, “um processo social e cultural criado que consolidou um sistema injusto”.

Leonardo García Sanjuán, professor de Pré-História e Arqueologia da Universidade de Sevilla, afirma que são os excedentes que geraram os patrimônios familiares e a herança, que se transformaram “num assunto social e economicamente fundamental”.

“Para que os homens tenham a segurança de que o legado passará aos seus próprios filhos biológicos, começa a surgir uma ideologia de controle das mulheres”, afirma.

Para Konner, esse processo, que inviabilizou durante mais de cinco milênios as vantagens de uma sociedade igualitária, menos violenta e mais cooperativa e colaborativa, é também um capítulo biológico sem sentido do qual a humanidade começa a sair.

O neurocientista é pai de duas filhas e um filho de sua primeira esposa, a antropóloga Marjorie Shostak, que morreu de câncer em 1996.

Tem outra filha de seu casamento com a psicóloga Ann Cale Kruger. A esperança de que eles vivam num mundo mais justo motivou esse professor, amante da língua e da literatura espanholas, a mergulhar na biologia, na mitologia, na história, no comportamento animal, na psicologia, na sexologia e na antropologia para escrever o livro.

As mulheres são biologicamente superiores aos homens?

Antes de mais nada, quero dizer que, embora eu trate de alguns aspectos das pessoas não binárias, meu livro é principalmente sobre homens e mulheres. Entendo que existem pessoas difíceis de classificar, mas a maioria se reconhece a si mesma como mulheres ou homens.

Tive problemas por dizer que as mulheres são superiores. Me acusam de sexismo inverso, de estigmatizar um grupo de pessoas etc. Recebi e-mails de ódio de homens que obviamente se sentem ameaçados pela perda do privilégio masculino que está acontecendo diante dos nossos olhos.

Inspirei-me num dos trabalhos da antropologia mais populares da história, A Superioridade Natural da Mulher, de Ashley Montagu.

Ela afirmou que as mulheres vivem mais tempo que os homens, com uma mortalidade mais baixa em todas as idades, podem criar uma nova vida em seus corpos e, como dispõem de dois cromossomos X, têm taxas muito mais baixas de problemas genéticos como a hemofilia, o daltonismo e a síndrome do X frágil.

Nós, homens, temos um X desprotegido que, às vezes, carrega genes ruins. Acrescento a esses fatos biológicos fundamentais certos aspectos comportamentais, alguns deles também baseados na biologia.

Em especial, o de que em todos os países e culturas os homens cometem 90% da violência e 95% das agressões sexuais.

Além disso, os homens reivindicaram uma superioridade sobre as mulheres durante tantos séculos que pensei que era hora de virar o jogo e mostrar as evidências do outro lado. Vamos, rapazes, tenham senso de humor!

Por que considera que a diferença cromossômica é tão relevante quanto o impacto da cultura e da educação?

Não é apenas a diferença cromossômica: são as diferenças hormonais e cerebrais dela resultantes.

Mas fico satisfeito que sua pergunta inclua as palavras “tão relevante” em vez de “mais relevante”.

À luz da ciência moderna, devemos aceitar que a cultura e a educação são poderosas, mas a biologia também. Há enormes aspectos do comportamento humano (inteligência geral, habilidade musical, engenhosidade na escrita e na pintura, entre muitos outros) em que não há diferenças sexuais influenciadas biologicamente.

No entanto, os homens predominaram de maneira esmagadora ao longo da história.

Agora sabemos que isto ocorreu porque os homens não deram às mulheres a oportunidade de se sobressair em todas essas coisas que elas poderiam ter feito muito bem.

Ou porque impediram sua formação. Isto é cultura e educação. E a humanidade está saindo lentamente desse antigo erro.

Mas existem alguns traços, especialmente a violência e a exploração sexual, em que encontramos diferenças tão grandes e consistentes, independentemente da cultura, que devemos considerar a biologia.

Esses não são traços desejáveis, e temos cada vez mais evidências de que as diferenças hormonais, assim como certas formas em que os hormônios afetam o cérebro no início da vida, podem nos ajudar a responder à pergunta que tantas mulheres têm feito a si mesmas:

“O que acontece com os homens!?” Claro que nem todos somos violentos ou exploradores sexuais. Más há suficientes para que todas as mulheres necessite ser cautelosas. Tenho três filhas e uma neta, e não poderia deixá-las neste mundo sem o conhecimento desses fatos.

Qual é a relevância do que o senhor chama de síndrome de deficiência do cromossomo X?

Isso é um pouco uma piada, e no entanto… Peço aos meus alunos que pensem, brevemente, na masculinidade como uma deficiência cromossômica.

Nosso cromossomo Y parece um tanto insignificante ao lado do X, do qual as mulheres têm dois. Além disso, elas estão mais protegidas contra as doenças ligadas ao cromossomo X.

O gene Y nos priva da capacidade de desenvolver nova vida dentro de nossos corpos. E, ao nos dar andrógenos, também promove os traços ruins —que estão muito mais presentes em nós.

Às vezes levo essa piada, que não é apenas uma piada, ainda mais longe, e pergunto aos estudantes: o homem é como um vírus?

Resposta: nenhum dos dois pode fazer nova vida sem tomar emprestado a maquinaria reprodutiva de outro organismo.

Pode-se dizer que as mulheres não podem se reproduzir sem a pequena, mas importante, doação feita pelos homens. Mas devemos lembrar que a vida começou sem reprodução sexual —e existem espécies formadas somente por fêmeas! Nós, homens, somos mais ou menos uma ocorrência evolutiva tardia para aumentar a variação na vida, um objetivo digno.

E as mulheres não podem adotar atitudes masculinas, como a violência ou a competição não colaborativa às quais o senhor faz referência?

Isto ocorreu em alguns casos no passado, quando as mulheres governantes, como Isabel I, da Inglaterra, e Catarina, a Grande, da Rússia, foram empurradas ao topo das pirâmides masculinas de poder e só podiam sobreviver e governar imitando os homens.

Inclusive nos tempos modernos, algumas mulheres se masculinizaram pelo poder. Mas, à medida que as mulheres líderes se tornam menos raras, acredito que têm a oportunidade de seguir suas próprias inclinações.

Os países liderados por mulheres em geral se saíram melhor na pandemia que os dirigidos por homens.

E alguns dos países que se saíram pior, como EUA, Reino Unido e Brasil, tinham líderes não apenas masculinos, mas hipermasculinos.

Claro que essas não são diferenças em branco e preto. Nada em biologia ou comportamento é 100%. Mas parece que é mais fácil para as mulheres líderes tirar seus egos do caminho.

Os sociólogos estudaram 120 prefeitos de cidades norte-americanas, 65 mulheres e 55 homens. As mulheres governaram de forma mais transparente e incluíram mais contribuições de pessoas abaixo delas na hierarquia.

Nossa evolução futura poderia nos levar apenas a conexões sexuais femininas, ou essa é uma “biofantasia”, como o senhor diz?

Digamos que é uma fantasia biológica com certa conexão com a realidade. Acredito que, cientificamente, misturar os genes de duas mulheres será muito mais fácil de conseguir do que fazer um embrião de dois homens e depois, de alguma maneira, concretizá-lo de forma segura com suportes totalmente artificiais.

Mas, felizmente para nós, há muitas mulheres que gostam dos homens por este ou aquele motivo, então acredito que elas vão querer nos manter por perto.

Todos temos muito a ganhar mantendo ambos os sexos ao redor, sem falar de todas as pessoas que não se encaixam simplesmente nas categorias masculinas e femininas, porque a variedade faz com que a vida seja interessante…

Vive la différence! [Viva a diferença!, expressado em francês durante a entrevista]. Quanto à biofantasia, procuremos manter nosso senso de humor.

Estamos vivendo o fim da supremacia masculina?

Estamos no começo do fim da supremacia masculina, que poderia levar décadas, mas acho que estamos no processo. Minha neta Hannah, chamada assim por minha mãe, terá uma vida que será tão diferente da vida de sua xará, com muitas outras possibilidades, que minha mãe ficaria assombrada e a observaria com orgulho.

Minhas avós não puderam votar até mais ou menos os 40 anos. Minha mãe precisou se impor para aprender a dirigir.

Quando estava na universidade, cerca de 5% dos graduados das faculdades de Medicina, Direito e Negócios eram mulheres. Agora elas são cerca de 50%.

Há um longo caminho pela frente, sobretudo nos níveis superiores de liderança. Mas as tendências são favoráveis em muitos países. Claro que em alguns isso é muito menos certo.

No Afeganistão, provavelmente veremos o retrocesso de duas  décadas de progresso para as mulheres. Mas as tendências em muitos outros lugares (Taiwan, Coreia do Sul, Europa ocidental, EUA) são positivas.

A vida seria muito mais segura com esse fim da supremacia masculina?

Sem dúvida, a vida será mais segura para as mulheres. Elas terão mais capacidade de fazer frente ao abuso, terão mais educação e oportunidades econômicas para proteger sua saúde e segurança, criarão coalizões entre elas que as tornarão menos vulneráveis a certos tipos de homens.

Desde que saiu a versão norte-americana do meu livro, vimos o movimento #MeToo derrubar homens poderosos em muitos âmbitos da vida por assediar ou agredir as mulheres.

Perguntei a muitas que conhecia se isso era uma mudança cultural real ou uma moda passageira. A maioria considera que isso marcará uma diferença no longo prazo.

Vimos Andrew Cuomo, ex-governador de Nova York, tentar se esquivar da gravidade de seus maus-tratos e falta de respeito às mulheres. Ele perdeu no final, e pode apostar que a mulher que conseguiu isso não estará abusando dos homens.

Além de minhas três filhas e minha neta, também tenho um filho e dois netos. Quero que eles tenham sucesso, uma boa vida. Mas acredito que o mundo será um lugar mais seguro para eles se as mulheres ganharem mais influência.

Pode haver menos guerras. Isso não poderia acontecer sob uma única rainha Isabel ou Catarina. Mas, se imaginamos um mundo em que as mulheres estejam bastante representadas em altos cargos, acho que será menos provável que um choque de egos leve à violência.

Qual será o papel dos homens?

Parceiros. Colaboradores. Às vezes líderes, às vezes seguidores. Contribuirão com ideias e soluções que são diferentes das que as mulheres podem encontrar, não porque tenham melhores mentes, mas porque homens e mulheres, por muitas razões, pensam de forma um tanto diferente. Minha forte perspectiva evolutiva me leva a mencionar duas espécies que estão mais estreitamente relacionadas conosco: os chimpanzés e os bonobos.

Se você não se sente confortável com a evolução, tome isso como uma parábola baseada na história natural.

Os machos de chimpanzé são fortemente dominantes sobre as fêmeas, têm relações rápidas e superficiais e são muito violentos entre si.

Os bonobos, igualmente relacionados conosco, têm coalizões femininas que praticamente controlam suas comunidades. Estas se baseiam, em parte, no sexo entre as fêmeas. As coalizões mantêm o controle sobre a conflitividade masculina.

E os machos? Têm uma grande vida. Têm muito sexo lento e pausado com as fêmeas, à vezes cara a cara. Têm pouco a temer de outros machos, porque o nível de violência é muito baixo.

Fazem o possível para se dar bem. Temos ambas as espécies em nós, mas durante muito tempo expressamos principalmente o lado dos chimpanzés de nossa natureza.

Creio que poderíamos avançar rumo a uma bonobização da espécie humana, um mundo em que todos estariam mais seguros porque as clássicas “virtudes” masculinas do passado, baseadas em ter que enfrentar outros homens, seriam menos necessárias e teriam menos sentido.

Houve um best-seller chamado Homens são de Marte, mulheres são de Vênus. Minha resposta a isso foi: “Os homens são de Marte, e as mulheres são da Terra.”

As mulheres serão melhores protetoras da Terra, mas também acredito que melhores guardiãs da humanidade.

Sim: sem nos deslocar ou dominar, elas podem nos ajudar a criar colaborações de homens e mulheres que inclusive poderiam, no final, proteger os homens dos piores aspectos de nós mesmos.

Raúl Limón, ElPaís

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