O cinema político

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Walnice Nogueira Galvão

Terra em Transe (1967) – dir.: Glauber Rocha. Análise dos impasses constituídos pelo embate entre as diferentes linhas de força então em presença na sociedade brasileira, a caminho do golpe de 1964. Ponto alto do Cinema Novo. Um clássico. Disponível no youtube e no now.

Os Fuzis (1964) – dir.: Ruy Guerra. Um grupo de retirantes famintos acampa num vilarejo do sertão enquanto tropas protegem o armazém repleto de mantimentos. Um brado de arregimentação para abalar a passividade. Outro ponto alto do Cinema Novo.

Disponível no youtube.

Vidas Secas (1963) – dir.: Nelson Pereira dos Santos. Filmagem do romance de Graciliano Ramos focaliza uma família de sertanejos fugindo da seca. Esse diretor inaugurou o Cinema Novo com Rio 40 Graus, filmado nas favelas do Rio de Janeiro, em 1955.

Disponível no youtube e no now.

1964 – Um Golpe Contra o Brasil (2013) – dir.: Alípio Freire. O diretor, militante histórico, fez esse filme para que não esqueçamos o golpe de 1º de abril, origem do infame regime que duraria 21 anos. Minuciosa narrativa dos eventos de então.

Disponível no youtube.

O Dia Que Durou 21 Anos (2013) – dir.: Camilo Tavares. Documentação e registro do panorama internacional, sobretudo da ingerência dos Estados Unidos no golpe de 1964.

Disponível no youtube e no google play.

Jango (1984) – dir.: Silvio Tendler. O encerramento da ditadura, então recente, propiciou esse filme, que procede ao exame minucioso da carreira e particularmente da gestão do presidente deposto, detendo-se nas manobras que conduziram a sua derrubada no golpe de 1964.

Disponível no youtube

Dois outros dentre os muitos desse infatigável documentarista pedem destaque: os mais recentes Os Advogados Contra a Ditadura e Militares da Democracia, ambos de 2014. Ali é resgatada a memória do golpe de 1964, quando advogados na casa dos 20 anos defenderam os arbitrariamente presos e que corriam risco de vida. Se não fosse a coragem desses jovens advogados, muitos mais poderiam ter sido assassinados clandestinamente. Quanto aos militares, o filme informa as circunstâncias do expurgo. Assistimos ao depoimento de alguns dos 5 mil expulsos das Forças Armadas por serem de esquerda.

Disponível no youtube.

Reforma agrária

Cabra Marcado para Morrer (1984) – dir.: Eduardo Coutinho. As filmagens tiveram início em 1964 e seu objetivo era contar a história do líder da Liga Camponesa de Sapé (PB), João Pedro Teixeira, assassinado dois anos antes. Com o golpe de 1964, os militares cercaram o local das filmagens, impedindo sua continuação. Vinte anos depois, Coutinho voltou à região e reencontrou a viúva Elizabeth Teixeira e muitos dos companheiros do líder camponês. O resultado desse reencontro é um documentário único, no qual a trajetória da viúva serve de pano de fundo para traçar a trajetória do país durante os duros anos do regime militar. Para ela, a vida na clandestinidade e a dispersão dos filhos, criados longe. Na tela,os problemas dos sem-terra, com a luta pela reforma agrária, a violência e a repressão dos poderosos locais. É o documentário brasileiro mais premiado no exterior.

Disponível no youtube e no now.

Jenipapo (1995) – dir.: Monique Gardenberg. Rara ficção sobre a questão agrária: em geral, os filmes que a focalizam são documentários. Este tem por protagonistas um padre e um jornalista, que compartilham as lutas dos sem-terra no Nordeste. Ao investigar denúncias de violência, o jornalista termina por pôr em risco a vida do padre e dos ativistas da região. Selecionado para o Sundance Film Festival e outros.

Disponível no youtube.

A Revolta das Enxadas (1996) – Direção, roteiro e produção de Emílio Gallo (Brasil). Este curta-metragem adquiriu importância histórica ao registrar para a posteridade um momento épico: a primeira marcha dos sem-terra a Brasília. O filme vai entrevistando os integrantes e documentando seu cotidiano, com ênfase nessa grande experiência coletiva.

Terra para Rose (1987) – dir.: Tetê Moraes. Lavradora sem-terra, Rose, com outras 1.500 famílias, participou de um evento histórico: a primeira grande ocupação de terras improdutivas, a Fazenda Annoni, no Rio Grande do Sul. Através da história de Rose, o filme discute a reforma agrária, no período já de transição democrática, que viu irromper o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Rose é mãe do primeiro bebê a nascer durante a ocupação. O filme teve uma continuação, O Sonho de Rose – 10 Anos Depois, feita pela mesma diretora.

Disponível no youtube e no Globosat play.

Guerrilha do Araguaia

Os filmes sobre a guerrilha do Araguaia são tardios, em função da demora na descoberta e revelação do que ali se passou. A repressão clandestina baixou um manto de sigilo sobre os acontecimentos por longo tempo ocultados.

Esse é o tema, expresso no título, de Araguaya– A Conspiração do Silêncio (2004) – dir.: Ronaldo Duque. Filme dramatizado com base na história da guerrilha.

Disponível no youtube.

Outros três são documentários: Camponeses do Araguaia – A Guerrilha Vista por Dentro (2010) – dir.: Vandré Fernandes; Araguaia, Presente! (2018) – dir.: Arthur Moura e André Queiroz; e Soldados do Araguaia (2018) – dir.: Belisário Franca. Disponíveis no youtube.

Movimento operário

Dois documentários de Renato Tapajós. O primeiro, Linha de Montagem (1982), hoje um clássico premiado mundo afora, focaliza as greves na região do ABC em 1978, 1979 e 1980. O segundo é Chão de Fábrica (2018), o qual, tendo em vista as eleições que se aproximavam, procede ao histórico do movimento sindical brasileiro desde as greves daqueles anos até então.

Disponível no youtube.

Movimento estudantil

Memória do Movimento Estudantil (2007) – dir.: Silvio Tendler (2007). Testemunhos gravados por agentes da história, combinados a trechos de peças, músicas e poemas produzidos pelos estudantes. Dos anos 1930 à liberação da União Nacional dos Estudantes (UNE), cuja sede, incendiada no primeiro dia do golpe de 1964, só seria retomada em 2007, meio século depois.

Disponível no youtube.

Vocacional (2011) – dir.: Toni Venturi. O diretor, ex-aluno, fez este documentário sobre o Ginásio Vocacional do Brooklin, experimento avançado em educação democrática que acabou por despertar as iras da ditadura. Seguiu-se o desmantelamento da instituição e a prisão da diretora Maria Nilde Mascellani. Com o passar do tempo, os ex-alunos constituiriam uma associação destinada a preservar a memória e os princípios da escola. O Vocacional e o Colégio de Aplicação da USP eram as duas escolas-modelo de São Paulo.

Disponível no youtube.

A Batalha da Maria Antonia (2014) – dir.: Renato Tapajós. Documentário sobre a ocupação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP na rua Maria Antonia pelos alunos, em 1968. O diretor, ex-aluno, mostra as hostilidades entre os alunos da Maria Antonia e os do Mackenzie, foco do famigerado Comando de Caça aos Comunistas (CCC), do outro lado da rua. Os eventos foram num crescendo e resultaram na invasão, bombardeio e incêndio da Maria Antonia, com o beneplácito e o apoio das Forças Armadas.

Luta armada e repressão

Falamos do Brasil: Carlos Marighella (1970) – dir.: Chris Marker. Curta-metragem de um dos maiores documentaristas de toda a história do cinema. Um ano antes, já fizera outro curta sobre a tortura no Brasil, Falamos do Brasil: Torturas (1969), com entrevistas de presos políticos recém-libertados.

Marighella (2012) – dir.: Isa Grispun Ferraz. Documentário sobre a vida e atos do líder máximo da luta armada. Traz testemunhos de sua viúva Clara Charf, do filho e de companheiros de militância na Aliança Nacional Libertadora (ALN). Em 2019, Wagner Moura dirigiu um filme também intitulado Marighella, que ficcionaliza a trajetória do líder (sem data para estrear). Atenção para a música de Mano Brown.

Disponível no youtube.

Lamarca (1994) – dir.: Sérgio Resende. Retrata o capitão do Exército Carlos Lamarca, a mais alta patente militar a desertar para ingressar na guerrilha contra a ditadura, em 1969. Foi uma das mais importantes lideranças da luta armada. Seu grupo se chamava Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Foi caçado pelo Exército e sumariamente executado no sertão da Bahia, em 1971.

Disponível no youtube.

Em Busca de Iara (2013) – dir.: Flávio Frederico. Documentário que levanta a história de Iara Iavelberg, jovem professora da Faculdade de Filosofia da USP, que entrou para a luta armada em 1970, passando para a clandestinidade e se tornando um dos mais procurados inimigos públicos do país, com seu retrato em cartazes afixados em todo o território nacional. O filme narra sua história de amor com o capitão Lamarca, até o amargo fim de ambos, assassinados pela repressão.

Disponível na Netflix.

Cidadão Boilesen (2009)– dir.: Chaim Litewski. Documenta a vida do alto executivo da Ultragás, dinamarquês naturalizado brasileiro, que, além de financiar generosamente a tortura, também gostava de participar dela, e que acabaria por ser justiçado pelos guerrilheiros.

Disponível no youtube.

Em Que Bom te Ver Viva (1989), a diretora Lúcia Murat entrevista mulheres que foram presas e torturadas durante a luta armada, como ela própria, e conseguiram sobreviver – quando tantas ficaram pelo caminho.

Disponível no youtube.

Mais tarde, Lúcia Murat faria o filme de ficção Quase Dois Irmãos (2005), sobre dois amigos de infância, um negro pobre e outro pequeno-burguês, ambos destinados à mesma cadeia, um por crime comum e o outro por crime político.

Disponível na Globoplay.

Toni Venturi contribuiu para o resgate desses tempos sombrios com Cabra-Cega (2005), filme de ficção sobre guerrilheiros obrigados ao confinamento na clandestinidade. Recebeu cinco prêmios no Festival de Brasília.

Disponível no youtube.

Silvio Da-Rin dirigiu Hércules 56 (2007), documentário que registra as negociações e a libertação de presos políticos brasileiros em troca de um embaixador sequestrado. Disponível no youtube.

Vlado – Trinta Anos Depois (2005) – dir.: João Batista de Andrade. Documentário sobre o assassinato sob tortura de Vladimir Herzog, em 1975, justificado como suicídio pela repressão. Mas D. Paulo Evaristo Arns, rezando missa por Vlado na Catedral da Sé, lançou o anátema da Igreja sobre os assassinos. A missa, que congregou multidões, foi a primeira grande manifestação pública contra a ditadura.

Zuzu Angel (2005) – dir.: Sergio Resende. Ficcionalização da vida da estilista Zuzu Angel, que dedicou sua vida a procurar o filho Stuart Angel, desaparecido. Passou a inserir nas roupas que fazia certos signos, que visavam uma denúncia durante os desfiles. Conseguiu entregar uma carta ao presidente da República americano. Acabou assassinada num atentado nunca esclarecido. Chico Buarque fez uma canção para ela.

Disponível no youtube.

O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006) – dir.: Cao Hamburger. Mauro, um menino de 12 anos, é surpreendido pela novidade da viagem de férias de seus pais, que o deixam sob os cuidados do avô. Na realidade, os pais militantes estavam fugindo à perseguição política. A vida do menino nesse transe, para ele incompreensível.

Disponível no youtube, na Netflix e no now.

Atuação da Igreja

Coragem – As Muitas Vidas do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns (2017) – dir.: Ricardo Carvalho. Documentário que faz justiça a um dos maiores líderes da luta contra a ditadura, notável por sua firmeza, coragem e desassombro, tanto em palavras quanto em atos. Foi o fundador da Comissão de Justiça e Paz, criada com o fito de denunciar os crimes da ditadura. Autor da iniciativa de constituir e publicar o dossiê Brasil: Nunca Mais, que recolheu vasta documentação sobre a tortura. dir.: Oriel Ferrer; coprodução Espanha (Catalunha)/Alemanha. Ficcionaliza a vida e militância de D. Pedro Casaldáliga, o bispo catalão, no Araguaia, onde criou e dirigiu a Pastoral da Terra. Religioso e poeta, dedicou sua vida à proteção dos camponeses e dos índios, tendo a cabeça a prêmio e escapando de atentados. Na TVBrasil está disponível em 3 episódios: Do Vaticano ao Araguaia, Por uma Igreja da Amazônia, Ameaça de Morte.

Disponível na TV espanhola em 2 capítulos.

Igreja da Libertação (1985) – dir.: Silvio Da-Rin. Centrado nas Comunidades Eclesiais de Base. Filma o dia a dia dos acampamentos dos sem-terra e toma depoimentos de figuras de relevo na defesa dos oprimidos, como D. Pedro Casaldáliga e D. Paulo Evaristo Arns. Fornece um panorama da atuação da Igreja Católica nesse combate. Começa com Lula discursando no Primeiro de Maio de 1985, em frente à Catedral na Praça da Sé, e termina com os sem-terra, nos primeiros tempos de sua trajetória, acampados no Paraná.

Disponível no youtube.

Redemocratização

Democracia em Preto e Branco (2014)– dir.: Pedro Asbeg. A importante participação do Esporte Clube Corinthians na redemocratização e na campanha das Diretas Já. Sócrates e Casagrande à frente, aparecem em campo fazendo abertamente propaganda dessas duas causas. Lutaram também pela democratização interna do time e do clube.

Disponível no youtube e no Gogle play.

Tancredo – A Travessia (2010) –dir.: Silvio Tendler. Documenta a participação de destaque desse político na campanha das Diretas Já, indo até sua eleição indireta para a Presidência da República e falecimento antes de ocupar o cargo.

Disponível no youtube.

Eleição de Lula

Entreatos (2004) – dir.: João Moreira Salles. O diretor e sua equipe gravaram diretamente a campanha de Lula em 2002, e especialmente seus bastidores, donde o título. É um documento precioso.

Disponível no youtube.

Peões (2004) – dir.: Eduardo Coutinho. O grande cineasta documenta os operários do ABC que foram companheiros de Lula na trajetória para a presidência, desde as greves que confrontaram a ditadura, passando pela fundação do PT em 1980 e chegando até a eleição em 2002.

Lula, o Filho do Brasil (2009) – dir.: Fabio Barreto e Marcelo Santiago. Baseado na alentada biografia escrita por Denise Paraná, historia meticulosamente o percurso do líder, desde seus primeiros passos em Garanhuns. Filme de ficção, com Rui Ricardo Dias no papel de Lula e Glória Pires como sua mãe, d. Lindu. YOUTUBE

Impeachment de Dilma Rousseff

Duas cineastas documentaram pessoalmente e com toda minúcia o andamento dos eventos nos bastidores do Congresso. As idas e vindas, os conchavos, a tensão política, as principais personagens, a farsa, a ignominiosa votação. Os filmes resultantes são: O Processo (2018), de Maria Augusta Ramos (disponível no youtube, Google play e no now, e e Democracia em Vertigem (2019), de Petra Costa (disponível na Netflix).

Lula Buarque de Holanda fez O Muro (2017), documentário sobre a barreira metálica erigida do lado de fora do Congresso, na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, para separar e amortecer os choques entre apoiadores e adversários do impeachment. Aproveita para falar de outros muros emblemáticos, como o de Berlim (já derrubado), ou aquele que segrega os palestinos dentro do Estado de Israel, ou o mais recente construído por Trump entre Estados Unidos e México.

Outra ditadura

Houve ditaduras anteriores no Brasil, e uma delas está presente em Memórias do Cárcere (1984), dirigido por Nelson Pereira dos Santos, baseado no clássico de Graciliano Ramos. O escritor cumpriu pena política sem acusação e sem julgamento na Ilha Grande, durante o regime de Getúlio Vargas.

Disponível no youtube.

O Velho – História de Luiz Carlos Prestes (1997) – dir.: Toni Venturi. Registra a vida e a militância daquele que foi o grande líder do Partido Comunista em nosso país, atravessando as décadas e os governos, as prisões e os exílios.

Disponível no youtube e na globoplay.

Olga (2004) – dir.: Jaime Monjardim. Conta uma história real, por longo tempo sigilosa, de um crime contra a humanidade: Getúlio Vargas e Filinto Müller entregaram Olga Benário, judia, comunista e grávida, à Alemanha nazista. Selando assim a sorte da mulher de Luís Carlos Prestes, que só poderia ser, como de fato foi, o extermínio na câmara de gás em campo de concentração.

Disponível no youtube.

Cone Sul – Argentina

Operação Condor (2007) – dir.: Roberto Mader. As ditaduras dos anos 1960 e 1970 predominaram não só no Brasil, mas em todo o Cone Sul, onde vigorou a famigerada Operação Condor, na qual as polícias secretas dos países da região formaram um convênio de informações e serviços mútuos, sendo responsáveis por atentados, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Dirigido por um brasileiro, o filme vai desmontando peça por peça a máquina da repressão e revelando suas monstruosidades.

Disponível no youtube.

Na Argentina, que detém o recorde horripilante de 30 mil mortos e desaparecidos durante a ditadura, já saíram alguns filmes interessantes, como A História Oficial (1985) – dir.: Luis Puenzo (Oscar de Melhor Filme Estrangeiro). Examina a praxe da ditadura, tantas vezes denunciada pelas Mães da Praça de Maio, de dar em adoção os filhos pequenos de desaparecidos a casais de sua confiança. Disponível no youtube e na Netflix.

O mais recente, Koblic (2016), dirigido por Sebastian Borensztein, mostra a prática de lançar do avião os opositores, que também foi usual no Brasil, aqui examinada através dos olhos de um piloto da Marinha vivido pelo grande ator Ricardo Darín. Disponível no now.

La Noche de los Lápices (1986) – dir.: Héctor Olivera. Passa-se em 1976, quando sete estudantes secundaristas foram submetidos a sequestro, tortura e assassinato por protestarem contra o cancelamento do desconto no bilhete de ônibus. Com a assessoria de um sobrevivente, o filme dá os nomes dos militares idealizadores e executores do plano.

Disponível no youtube.

Um Muro de Silêncio (1993) – dir.: Lita Stantic. Narra o percurso de um desaparecido através de sua mulher e filha, e a dificuldade de lidar com o desaparecimento. Vanessa Redgrave, atriz conhecida por sua militância, faz a cineasta inglesa que vai a Buenos Aires filmar essa história e começa a querer entrevistar as pessoas na vida real para entender melhor.

Crônica de uma Fuga (2006) – dir.: Adrián Caetano. Trata da prisão e tortura de um conhecido jogador de futebol durante a ditadura argentina e como ele escapa da cadeia para salvar sua vida.

Disponível no youtube.

Cone Sul – Chile

O Chile contribuiu com vários filmes sobre sua trágica história. Entre eles Machuca (2004), dirigido por Andrés Wood, conta a história de dois meninos no tempo de Allende, um da burguesia e outro das zonas de pobreza, unidos numa experiência educacional. Em destaque, o modo como vivem esse tempo e a repressão subsequente.

Disponível no now.

No (2012) – dir.: Pablo Larraín. Gael Garcia Bernal vive o protagonista, envolvido na campanha pelo “Não” no plebiscito convocado para garantir a permanência de Pinochet no poder, afinal negada pela votação popular.

Disponível no Google play.

Documentário de Patricio Guzmán, Nostalgia da Luz (2010) filma, no deserto de Atacama, os cemitérios clandestinos de mortos e desaparecidos onde, trinta anos depois, familiares vão desenterrar ossos. É de uma beleza plástica extraordinária.

A Batalha do Chile (1979) – dir.: Patricio Guzmán. Documenta minuciosamente como testemunha de vista o que foi o projeto democrático e inovador do governo Allende. E depois registra como a direita tomou o poder em 1973, em meio a um banho de sangue, passando a desmantelar meticulosamente o projeto. Filmado ao longo de muitos anos, com produção de Chris Marker (francês que foi o maior documentarista político que já houve e que filmou todas as revoluções do século 20), foi concluído em 1979. Consta de três filmes: A Insurreição da Burguesia, O Golpe Militar e O Poder Popular, num total de cerca de seis horas. É uma obra-prima e certamente o mais importante filme já feito sobre as ditaduras da América Latina.

Disponível no youtube.

Cone Sul – Uruguai

Tupamaros (1996, Alemanha/Espanha) – dir.: Heidi Specogna e Rainer Hoffman. O título designa o primeiro movimento de guerrilha urbana do continente, nascido no Uruguai e vigente entre 1963 e 1995. Entrevista militantes remanescentes, entre eles um simpático cultivador de flores e sua mulher, também militante. O casal vivia numa pequena chácara em Montevidéu, subsistindo da venda das flores nas esquinas da cidade. Bonomia, coragem e fé, nos mesmos princípios que doze anos de cadeia com tortura não o tinham demovido. Vai mostrar, em cena inesquecível, o “poço” em que passara anos na solitária. O poço está hoje enterrado no subterrâneo do novo e reluzente shopping center, o maior do Uruguai, ali construído depois de arrasarem a prisão – para que nem lembrança restasse… A repressão evitando assim a constituição de um “lugar de memória”, cuja importância nas lutas populares os historiadores ressaltam. Em 1996, data do filme, ninguém sabia ainda quem era esse José Mujica. Entre as mais notáveis proezas dos Tupamaros está o sequestro de Dan Mitrione, agente secreto americano que veio ensinar tortura no Brasil, no Uruguai e na Argentina por muito tempo. Ante a recusa de negociar sua

soltura em troca de militantes presos, acabaria sendo morto. A personagem de Dan Mitrione (com outro nome), interpretada por Yves Montand, aparece no filme Estado de Sítio (1972), de Costa Gavras, denúncia das ditaduras do Cone Sul e registro desse episódio. Atenção à aula de tortura executada sob a bandeira do Brasil.

Disponível no youtube.

Uma Noite de 12 Anos (2018) – dir.: Álvaro Brechner. Filme de ficção, que narra os anos de prisão dos chefes dos Tupamaros, com José Mujica à frente. Uma tremenda acusação à repressão, mas também um hino à integridade inquebrantável. Bem a propósito, a epígrafe do filme é retirada de A Colônia Penal, de Kafka.

Disponível na Netflix.

El Pepe, uma Vida Suprema (2018) – dir.: Emir Kusturica. Documentário do premiadíssimo cineasta sérvio, autor de filmes sobre as guerras balcânicas como Underground, Na Via Láctea, A Vida É um Milagre, e muitos outros. Dá a palavra a José Mujica, que fica à vontade para expor suas ideias avançadas sobre democracia, socialismo e padrões de convívio decente entre os seres humanos. É de se notar o efeito que El Pepe tem sobre o diretor, que se derrama em admiração e respeito.

Disponível na Netflix.

Walnice Nogueira Galvão é professora emérita da FFLCH da USP.

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