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O que é afrofuturismo e como ele pode revolucionar a estética, a política, as artes e a filosofia?

O afrofuturismo

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas explicam a raiz do movimento, que vem ganhando espaço no Brasil e no mundo.

Em 2050, 25% dos moradores do planeta serão do continente africano. Os dados são de um levantamento feito neste ano pela Organização das Nações Unidas (ONU), que aponta que enquanto a população do resto do mundo envelhece, a África vivencia uma expansão demográfica, com estimativa de dobrar sua população de 1,2 bilhão para 2,5 bilhões nesse ano.

Somado a isso está o fato de que a África é palco de uma revolução no avanço tecnológico, com iniciativas que impulsionam o desenvolvimento econômico e social de países do continente. Tudo isso está alinhado ao consenso global de que o futuro está na África, algo presente no movimento afrofuturismo, conceito que vem se expandindo no Brasil e no mundo.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, escritores e ativistas em prol do movimento explicam o que é o afrofuturismo e o que ele representa.

Autor, roteirista, dramaturgo, cofundador do coletivo Literatura Suburbana e da Editora afrofuturista Kitembo, Israel Neto diz que o afrofuturismo é “um movimento que está em movimento” desde os anos 1990, quando o termo foi criado.

“É um termo ainda em construção. […] O afrofuturismo é esse movimento que vai permear a estética, a política, as artes e a filosofia, conectando uma ancestralidade negra que vem antes da escravidão, mostrando essa potência”, diz o escritor.

Ele acrescenta que o movimento reivindica a contemporaneidade ao mesmo tempo que pensa o futuro.

“E esse futuro muitas vezes está ligado ao acesso à tecnologia, a pensar futuros onde as vozes negras serão ouvidas e onde o corpo negro estará presente, potente e vivo. Por exemplo, no meu nicho de maior atuação, que é a literatura, esses conceitos, essas filosofias vão se materializar por meio da ficção científica e da fantasia, que são gêneros que vão disputar o imaginário, apresentando não só essas filosofias, mas também a presença negra.”

De acordo com o autor, “o afrofuturismo propõe protagonismo negro para personagens, para a materialização de obras artísticas e, principalmente, para a produção negra”. “Então para fazer afrofuturismo precisa ser negro. Isso é literalmente um consenso entre toda a comunidade.”

Israel Neto destaca que o afrofuturismo não precisa necessariamente estar ligado à ficção científica. Segundo ele, o movimento está sob um guarda-chuva “que vai reunir autores negros no campo da especulação”.

“A ficção científica é o maior gênero utilizado pelo afrofuturismo, mas quando nós temos uma obra de suspense e horror escrita por uma pessoa negra, onde os protagonistas são negros, a disputa do imaginário subverte a ordem ocidental de contar essa história e as referências culturais são negras, nós também podemos, nesse grande guarda-chuva, colocá-la no afrofuturismo.”

O autor ressalta que o filme “Pantera Negra”, uma das maiores referências recentes de produção com protagonismo negro, não pode ser considerado totalmente um filme afrofuturista.

“Essa obra em si, do ‘Pantera Negra’, até poderíamos considerar afrofuturista, porque tem todo um processo de participação negra, protagonismo e produção. Mas o original [a revista em quadrinhos] ‘Pantera Negra’ não seria afrofuturista, porque ele foi escrito e desenhado por pessoas brancas, o Stan Lee e seus sócios.”

Israel Neto cita como exemplo de filme afrofuturista “Pumzi”, da diretora Wanuri Kahiu, uma das expoentes do setor cinematográfico da África. “É um filme, um curta-metragem que vai trazer essa questão do uso da água e a tecnologia, e essa ancestralidade por meio dos personagens e de uma árvore que vai permear toda a trama ali.”

Já em relação à produção brasileira, ele cita como exemplo de filme afrofuturista “Branco Sai, Preto Fica”, do diretor Adirley Queirós.

“O roteiro é sobre um homem negro que viaja no tempo para recolher provas para acusar o Estado brasileiro no futuro de ser um Estado opressor e genocida.”

Questionado sobre se o Brasil, como país negro, teria a obrigação de ser um terreno fértil para o afrofuturismo, o escritor afirma que sim, mas aponta alguns desafios, sendo o primeiro o idioma.

“Nós somos isolados linguisticamente. Nós estamos em um continente onde só a gente fala português. Os grandes mercados livreiros do mundo falam inglês. Então nós temos uma barreira a romper, a tradução no Brasil é super cara”, explica Neto.

Ele acrescenta que outra questão a superar é o racismo materializado na condição do negro único. “Eu sempre tenho falado da importância de nós citarmos vários autores para que as pessoas entendam que não é um negro só que está produzindo uma coisa ou outra”, diz Neto.

“Então vamos falar de afrofuturismo no Brasil? Tem eu, tem o Fábio Kabral, tem o Alê Santos, tem o Henrique André, tem a Kinaya, tem a Lu Ain-Zaila, tem a Sandra Menezes. Citar vários. Porque no Brasil uma das formas do racismo é o negro único. É pegar uma personalidade negra e ela ser o representante de todas as outras”, acrescenta.

Israel Neto afirma que um dos objetivos do afrofuturismo é o empoderamento, retirar negros de um círculo vicioso de violência e preconceito.

“É o futuro do amanhã mesmo. Então corpos potentes hoje para que eles não morram amanhã na mão da polícia. Corpos potentes hoje para que a gente possa estudar e fazer mestrados, doutorados e possamos ser chefes ou chefas, vamos dizer assim, de grandes pesquisas e inovações tecnológicas. Para que a gente enfim saia desse círculo vicioso.”

Resgatando o passado para criar o futuro
Outro expoente do movimento afrofuturista, o escritor Alê Santos explica por que, apesar do nome, o afrofuturismo bebe bastante da fonte do passado, da herança negra.

“É uma questão muito importante porque a gente tem o futurismo, que é esse movimento italiano, século XIX, XX, que surgiu, que as pessoas, por ter a questão ‘futurista’ na palavra, pensam que o afrofuturismo é uma variação do futurismo italiano. E não é, tem definições extremamente diferentes.”

Ele afirma que o futurismo italiano, enquanto movimento, olhava para o progresso, para a industrialização, para a aceleração do tempo e para a ruptura com o passado como caminho para o futuro.

Já o afrofuturismo, segundo o escritor, vai olhar para o resgate do passado, para todas as tecnologias, todas as culturas e todo o contexto histórico do passado que foi apagado, que foi paralisado pelas colonizações e vai tentar considerar esse passado na criação de um novo futuro, fazer uma conexão.

“Não tem essa ruptura drástica e abrupta com o passado, porque para o afrofuturismo o passado importa, e é com o passado que a gente vai evitar que o futuro seja trágico para todas as pessoas e principalmente para as comunidades negras, como foi durante a colonização.”

Ele explica que o termo afrofuturismo foi criado em 1993, quando o crítico de arte Mark Dery escreveu um ensaio com escritores negros sobre ficção científica e ficção especulativa chamado “Black to the Future”.

“Tipo, pretos para o futuro. Ele criou o termo afrofuturismo para esse imaginário, que, segundo ele, já estava presente em inúmeras obras. Desde [Jean-Michel] Basquiat até Jimi Hendrix.”

Alê Santos classifica o afrofuturismo como um movimento de artistas negros que geralmente discutem a realidade de ser uma pessoa negra dentro dos elementos da tecnocultura e de todo o mundo digital surgido no século XX.

Segundo ele, geralmente na literatura o movimento acaba se expressando como ficção científica.

Ele afirma que o filme “Pantera Negra” pode, sim, ser considerado um dos maiores exemplos. Porque, segundo ele, o sucesso do filme colocou o termo em evidência, principalmente na mídia internacional.

“A galera começou a discutir mais o que seria esse afrofuturismo. […] E uma coisa muito importante do afrofuturismo é que ele é um movimento para reivindicar o espaço de pessoas negras dentro da produção de ficção científica e da discussão sobre futuro.”

O escritor aponta a autora Octavia Butler como mãe do afrofuturismo. “Ela começou escrevendo ficção científica, venceu os principais prêmios de ficção científica, entrou para o hall da ficção científica no mundo e definiu como que é essa representação da discussão das comunidades negras dentro da ficção especulativa”, explica o escritor.

Ele cita que dos livros mais celebrados da escritora, um dos primeiros é “Kindred”, que já está sendo adaptado para virar uma série de TV.

“É basicamente uma história de viagem no tempo, que volta para a história da escravidão, só que tem uma personagem negra; você começa a ver a perspectiva do que é ser uma pessoa negra dentro daquela discussão de ficção.

E a partir dali começa a ter vários outros autores que vão seguindo o caminho da Octavia Butler para criar essa fusão em discutir as questões e a cultura negra dentro dessa estética que parece ficção científica”, explica o escritor.

Santos ressalta que o afrofuturismo reivindica o espaço dentro da ficção científica e diz que isso está ligado à sua trajetória como escritor.

“Porque o afrofuturismo reivindica o nosso espaço dentro da ficção científica, porque eu, enquanto um escritor, eu, periférico, negro, do interior de São Paulo, nunca iria ter o mesmo espaço que Isaac Asimov, nunca teria o mesmo espaço que a Mary Shelley, que serviu a ‘Frankenstein’.

Mas quando eu vou falar de algo que é legítimo, que é a minha cultura, que é a minha história, uma vivência de ser uma pessoa negra no interior, esse espaço é multiplicado porque a sociedade começou a olhar o afrofuturismo como uma necessidade de uma nova perspectiva dentro da ficção científica, e eu acabo trilhando a minha jornada dentro desse espaço.”

Melissa RochA

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